Crítica | O Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago

Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar.

Vindo de um escritor português, uma história com o título de O Conto da Ilha Desconhecida é bastante representativo. O desbravamento do mar pelos lusitanos deu os instrumentos que permitiriam a invenção do Brasil e tornariam Portugal um império. O contato com o mar desconhecido e a temática das grandes viagens (em vários sentidos) são grossas colunas da literatura portuguesa, tanto em prosa quanto em poesia, e é pensando nisso que esta obra de José Saramago se torna uma espécie de resumo íntimo de tal abordagem, olhando não apenas para a grande jornada do homem no mundo, mas também para algo Drummond exemplificou perfeitamente em um poema de título que cai como uma luva a este contexto: O Homem; As Viagens:

[…] só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.

No presente conto, Saramago fala de um homem que vai até a porta das petições, no palácio do rei, e lhe pede um barco para viajar até uma ilha desconhecida. Preparando o leitor para o que deve encontrar na primeira parte do conto, o autor descreve com certa comicidade e ironia os descabimentos da política, a burocracia burra que só atrapalha a vida das pessoas e os pedidos de ajuda que se acumulam frente a essa burocracia porque a população só pode ter um anseio atendido por vez… tudo isso enquanto o rei vive a vida que lhe é digna, recebendo os louros e louvores na porta dos obséquios.

Note que antes de focar no pedido do homem — ou seja, em explorar a essência do conto –, Saramago nos dá uma visão do exterior, marcando não só uma postura diferente daquele que pede, mas também os caminhos para que o pedido fosse atendido. Tal introdução funciona como indicação da personalidade do homem que queria o barco (persistente, corajoso, desafiador) e ao mesmo tempo como definição das condições do mundo em que ele vivia. A quebra dessa realidade vai acontecer com a quebra do padrão na hora de pedir, e melhor ainda, termina por impressionar à autoridade com o caráter do pedido, já que o homem não almejava honrarias ou dinheiro. Ele queria um objeto para ter acesso a um mistério.

Desse ponto em diante a fantasia assume a alma do conto e, intricada a ela, vem uma linha filosófica transferindo a primeira impressão que tivemos do indivíduo frente a um sistema onde é difícil conseguir alguma coisa, para a abordagem do indivíduo frente à sua autoanálise e autocrítica. É nesse segundo momento que a mágica acontece e os símbolos costuram-se à metáfora meio fabular do conto: os desejos materiais do homem eram na verdade uma forma inconsciente de pedir ajuda para exteriorizar os desejos da alma. Na luta por conhecer a si mesmo, e sem saber como, ele acabou transferindo esse desejo (ou necessidade?) para lutar pelo impossível, num mundo onde não haviam mais ilhas desconhecidas… ou será que existiam? Então outra mágica acontece na narrativa.

Particularmente, eu não gosto do bloco do sonho nesse conto. Não acho que ele faça sentido dentro do que o autor propõe nesse recorte e também não gosto do modo como ele narra o episódio onírico. Claro que cenas oníricas na literatura tendem a ser confusas, sem sentido aparente, surreais ou tudo isso junto, então há uma coerência de tratamento da cena por parte do autor, ainda assim, vejo-a num tom fora do conto. O mesmo se dá com a cena do sonho. Eu entendo o impulso do artista em adicioná-la aqui. Ela é provavelmente a situação que dá a coragem para o homem seguir em frente com o plano, ao lado da antiga mulher da limpeza, costureira e atendente da porta das petições do palácio. Em outra interpretação pode funcionar até como um futuro possível. Ou pegadinhas do inconsciente para o desejo de pertencimento, criação de laços e família que o homem via ardendo dentro de si. Seja como for, a tal cena do sonho é responsável por ceder a chave à segunda mágica do conto, que mais uma vez transfere o sentido narrativo para uma outra camada, agora falando da atitude dos homens diante da vida.

Sim, é uma leitura simbólica, mas factual. O homem com seu desejo por um barco pode ser também cada um de nós frente às muitas dificuldades que encontramos pela vida (a porta das petições, a demora da audiência com quem vai resolver o nosso problema, a enervante burocracia a que somos submetidos), especialmente quando precisamos de algo que está fora do nosso alcance, a fim chegar ao lugar desconhecido por nós. Todo mundo tem um verdadeiro arquipélago de “ilhas desconhecidas”, seja independência financeira, estabilidade emocional, amor recíproco, exposição de verdades sobre si mesmo para o mundo, sucesso em uma empreitada arriscada, saúde em equilíbrio… e constantemente estamos procurando um barco para poder alcançá-las.

O Conto da Ilha Desconhecida foi o meu primeiro contato com a literatura de Saramago, quando eu ainda estava no Colégio. Reler a obra para esta crítica foi uma experiência revigorante. Eu me lembrava de tudo, mas a releitura foi destravando novos pensamentos e reflexões possíveis, como um barco tripulado pela versão madura ao lado de sua companheira de vida (a experiência) abrindo possibilidades a cada nova linha. É um ponto ideal para quem quer começar a se aventurar pelo Universo de Saramago (porque é curto e de cara faz o leitor se habituar com o peculiar estilo de pontuação, ritmo e estrutura de texto do autor), mas que ninguém se engane: nessas 64 páginas há muito mais coisa para se pensar e considerar do que calhamaços inteiros de filosofia contemporânea que se pode encontrar pelas prateleiras. Um conto com uma proposta de inúmeras viagens para todos nós.

O Conto da Ilha Desconhecida (Portugal, 1997)
Autor: José Saramago
Editora original: Assírio & Alvim
Ilustrador original: Bartolomeu dos Santos
Edição lida para esta crítica: Companhia das Letras, 1998
64 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.