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Crítica | O Conto do Cortador de Bambu, traduzido por Marcus Valerio XR

por Davi Lima
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bambu

A história da princesa da Lua (contada no filme O Conto da Princesa Kaguya), um dos textos de prosa mais antigos do Japão, compreende uma melancolia sobrenatural nos destinos que a natureza impõe para as preciosidades do presente. Com um formato chamado monogatari, o mais antigo literário entre os japoneses, a dimensão do tempo da natureza e o tempo da descrição do presente narrativo se equivalem às tensões entre o oral e a literatura escrita. bambu

Numa fundição cultural nipônica do século X, no período Heian, além do desenvolvimento silábico dos “kana” para expressar um idioma nacional, o taketori, o cortador de bambu do conto, mesmo sem se importar com riquezas além de seu trabalho alegre e livre, parece fazer parte desse passado pacífico do Japão, ganhando um presente das moitas de bambu no começo da história. No entanto, como impulso de difundir ensinamentos culturais do confucionismo e budismo, ou até mesmo do xintoísmo, especialmente nesse tempo Heian, a princesa da Lua vem da natureza mais como um aviso do que uma plena comemoração.

Em sinopse, O Conto do Cortador de Bambu, escrito por um anônimo, narra a vida de um homem do campo, um takeori (cortador de bambu) e sua esposa, que são agraciados pela natureza – dito como gracejo divino – com uma filha, um bebê de proporções milimétricas que cabia na mão como um caule de bambu. Após um vasculhar do pai por algo além do espaço onde havia encontrado a menininha, pepitas de ouro surgem, servindo para que a Kaguyahime, ou Kaguya, como a pequena foi chamada, se tornasse hime, que significa princesa. Isso poderia ser facilmente uma metáfora de enriquecimento, de conquista e benção comum, mas minúcias como a descrição pai dizendo “[…] o homem não era ambicioso, apenas pensava ao voltar para casa que, com sua sacola cheia de ouro, ‘Agora podiam criar a menina adequadamente.'”, ou a maneira que ele foi “[…] movido por uma força irresistível e inexplicável […]” vão colocando em jogo na narrativa uma correlação de caráter moral e um destino. Isso harmoniza-se para que o conto sobre a princesa seja tão ficcional fantasioso como também célebre realista, compondo a cultura japonesa da época. A precisão temporal é um exemplo disso, como os dois dias necessários para que a família de Kaguya se tornasse uma das ricas do Japão, refletindo traços orais e literários entre o tempo fantasioso e o tempo cronológico.

Como um conto clássico – em suas convenções de gênero conhecidas no mundo -, os adventos do desenvolvimento narrativo em O Conto do Cortador de Bambu traçam percursos essencialmente morais e fabulares a partir de desafios impostos sem grandes motivações plausíveis, exceto o ícone sobrenatural transbordando em substantivos, em como Kaguya era paz, saúde e alegria. A mais interessante motivação – que fundamenta um argumento temporal budista de aperfeiçoar o presente na noção do resguardo e como os preceitos da natureza transgridem instituições sociais fora do tempo -, para os desafios morais impostos aos cinco príncipes para poderem casar com a princesa, partem da ideia familiar não querer perder a presença de Kaguya por medo da solidão da velhice dos pais. Além disso, chama atenção também como decisão da princesa de querer ou não casar é absolutamente sua.

Desvendando melhor as posições culturais das mulheres no contexto nipônico, influenciadas pelo confucionismo e budismo, além do contexto podendo ser caracterizado como pré-feudal, mesmo com o sincronismo do século X com o feudalismo europeu em atividade de desenvolvimento; O Conto do Cortador de Bambu, apesar de seus ares sobrenaturais e de compreender a personagem feminina como princesa, entoada em termos aristocráticos de uma sociedade, acaba representando um símbolo feminino diferenciado do que apenas uma subordinação aos homens. A especificidade com que Kaguya escolhe as tarefas que os cinco príncipes precisam fazer para conseguirem casar com ela, como artimanha para dispensá-los, importa uma grande vocalização de conhecimento dado à personagem sobre as margens e os limites mitológicos do Japão daquele tempo no século X.

Por isso, as ações temporais, como a distância de anos que cada príncipe faz uma tarefa e os destinos imprevisíveis que destinam a não conquista de Kaguya, delimitam moralidade e traços discursivos de uma obra monogatari embebido de cultura oral. Já a citação à citação dos desafios e descrições de como cada príncipe lidou com aventuras, ou falta delas, o escopo narrativo que se faz grandiloquente em espaçamento da história como dramaticidade distinta para cada micro história dos pretendentes, cada dilema e julgamento sobre eles carrega cultura mais literária em desenvolvimento na época.

É necessária a ênfase que ver e conhecer Kaguya no presente da narrativa se faz como um mistério, especialmente pela dimensão do conto oral que é maximizar a existência da personagem pelos poucos que a conheciam e falaram muito sobre suas virtudes. Num ponto de vista mais literário, por consequência, a fusão do realismo e relevância histórica do conto, com o destino fantasioso da relação com natureza como cerne da história existir, provoca a presença do Imperador japonês como uma figura obcecada e amiga da princesa. Nisto que o clímax se promove, não necessariamente pelo desenvolvimento longo do anseio do cortejo dos príncipes. Por mais que pareça uma escada de patamar masculino, a apoteose do texto se inicia com uma adversativa abrupta ao Imperador e a todo o paradoxo do personagem como preparação climática mínima.

Assim, eis a tensão do tempo-destino da natureza, que graceja o cortador de bambu, e o presente narrativo precioso em ser desvendado e resguardado em simultâneo, pondo o conto milenar japonês como obra-prima. A melancolia e a depressão da princesa, posto como corte fantasioso na leitura do texto, como revelação da personagem como uma princesa da Lua, é a cisão com as ressonâncias com um realismo, que o efeito oral em aglutinação literária pode causar na leitura do O Conto do Cortador de Bambu. Os pais de Kaguya a julgam duvidosos com tal revelação do dia e do mês que ela voltaria para Lua, um exemplo dessa cisão. Isso também se vale da antítese que esse super antigo monogatari se caracteriza, sendo uma prosa ficcional do século X no Japão com influência do equilíbrio naturalista do Yin Yang chinês e do nacionalismo japonês em construção no período Heian, desfazendo o dado e o retirado como prazer pleno da natureza instrui, e sim terminando como uma dor pela perda eterna da princesa, explicando a concepção do monte Fuji ser ativo até hoje.

O Conto do Cortador de Bambu (竹取物語 / Taketori Monogatari ) – Japão, Século X
Autor: Desconhecido
Tradutor da versão lida: Marcus Valerio XR
Data de publicação (da tradução lida): junho de 2000
5 páginas

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