Home LiteraturaConto Crítica | O Convento de Santa Clara; ou, o Espectro da Freira Assassinada, de Sarah Wilkinson

Crítica | O Convento de Santa Clara; ou, o Espectro da Freira Assassinada, de Sarah Wilkinson

por Luiz Santiago
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Esta narrativa de 1811, escrita por Sarah Wilkinson, foi um dos inúmeros bluebooks góticos que, juntamente com os chapbooks, dominaram a cena urbana e operária de Londres e cidades industriais próximas, num período mais ou menos entre a década de 1790 e a década de 1830. Ambos eram produções muito baratas, feitas para a classe operária que não tinha dinheiro para comprar os volumes góticos caros ou mesmo as publicações (contos ou romances em capítulos) que apareciam nos jornais de diversas cidades, não só do Reino Unido, mas da maior parte do mundo.

O Convento de Santa Clara; ou, o Espectro da Freira Assassinada traz dois curiosos elementos do conto gótico numa mescla crítica, assustadora e infelizmente moralizante em seu fim, escolha que de certa forma diminui a força do drama humano aliado ao sobrenatural que a autora cria. Na história, conheceremos uma jovem chamada Julietta, que contra a sua vontade, é colocada em um mosteiro. Já aí ficam claras as imposições sociais e as diferentes violências contra a mulher, uma das linhas temáticas recorrentes em aventuras góticas no início do século XIX. No decorrer do conto, essa violência irá escalar até culminar naquilo que o título já nos entrega: o cometimento de um assassinato.

O algoz é Lewis Chabot, o Conde de Valvé (a história se passa em Rouen, França, no ano de 1443, mas a caracterização do período é pouco eficiente, embora isso não interfira verdadeiramente na história), um libertino que acaba se apaixonando por Julietta e que fará de tudo para conquistá-la, inclusive as mais diversas aplicações de força e violência possíveis. Este é o tom que a autora sustenta ao longo de toda a narrativa, exceto pelo final, onde a cara de “conto de fadas” e restabelecimento dos valores sociais e familiares tomam conta de tudo. Uma compensação massivamente aceita, onde o nome da família é preservado e a vida segue com a felicidade da próxima geração em evidência.

O melhor do conto, portanto, está em sua construção e em seu desenvolvimento (ou, se pensarmos também em elementos da parte final, digo que ‘o fino‘ da narrativa vai até o momento em que Julietta se encontra com Lewis, depois do perdão do arcebispo, no Dia dos Santos Inocentes), onde uma sucessão de abusos e crimes são cometidos, supostamente em nome da paixão, sempre aliados a algo que se torna cada vez mais macabro à medida que avançamos no blueboook. No miolo do texto, a autora de certa forma adota o caminho do sobrenatural explicado, mas não nega a existência do mistério, pois a parte com a aparição do fantasma da freira se mantém firme e compõe alguns dos melhores pontos do enredo.

Não fosse o final perfeitinho demais para uma trama que quase rejeitou esse tipo de arranjo, O Convento de Santa Clara; ou, o Espectro da Freira Assassinada teria alcançado muito mais em qualidade. A maneira como os tormentos de Julietta aparecem aqui é algo digno daquelas reportagens sobre cárcere privado e crimes passionais que os jornais ‘pinga sangue‘ propagam toda semana na TV aberta, o que prova que essa questão das muitas violências contra a mulher ainda é um problema em nossos dias. Embrulhando esse lado crítico e reflexivo, com possíveis pontes para a contemporaneidade, temos elementos sombrios e a presença do sobrenatural (nas formas explicada e inexplicável) mostrando que a justiça ou a vingança podem até demorar para alguns infames pelo mundo afora, mas, algum dia, elas vão cair sobre as devidas cabeças.

O Convento de Santa Clara; ou, o Espectro da Freira Assassinada (Priory of St Clair; or, Spectre of the Murdered Nun. A Gothic Tale, By Sarah Wilkinson) — Reino Unido, 1811
Autor: Sarah Wilkinson
Tradução: Carlos Primati
Curadoria: Cid Vale Ferreira
Editora Sebo Clepsidra (dezembro de 2020)
44 páginas

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