Crítica | O Cristal Encantado: A Era da Resistência – 1ª Temporada

A entrada de novos canais de produção e distribuição de conteúdo no mercado a partir do Netflix trouxe o fenômeno da multiplicação exponencial das séries de televisão, com uma espécie de corrida atrás de ideias, roteiros e material para adaptação. Uma das fontes mais ricas de novas séries e que espelha a estratégia de Hollywood em focar em continuações e reboots, é, sem dúvida alguma, obras que já carregam um fandom embutido. E, nesse aspecto, os anos 80 têm sido garimpados febrilmente pelos caçadores de conteúdo, com o mais novo resultado dessa procura incessante sendo O Cristal Encantando: A Era da Resistência, prelúdio em forma de série do clássico filme de 1982 dirigido por Jim Henson e Frank Oz e produzido inteiramente com o uso de fantoches.

Se pararmos para pensar, uma série dessa natureza – também produzida quase na integralidade com títeres manipulados por marionetistas – em pleno final da segunda década dos anos 2000, jamais veria a luz do dia em uma era pré-canais de streaming, especialmente considerando que o material base tem 37 anos de idade, nunca estabeleceu-se como uma franquia (fora os quadrinhos) e, apesar de ter seus seguidores fieis, nunca foi realmente tão conhecido do público em geral. Em outras palavras, o mero fato de O Cristal Encantando: A Era da Resistência existir como existe – e não como uma animação em CGI, que seria o caminho mais óbvio – já merece comemoração. No entanto, essa comemoração torna-se especialmente significativa em razão da impressionante qualidade do trabalho realizado pelos razoavelmente inexperientes showrunners Jeffrey Addiss e Will Matthews, por Louis Leterrier na direção de todos os episódios e por toda a equipe técnica, aí incluídos, claro, os marionetistas e os dubladores originais.

O primeiro ponto que merece destaque aqui antes de sequer adentrarmos no lado técnico da produção é o quanto a mitologia originalmente criada por Henson é expandida sem que o que foi estabelecido na obra original seja alterado de forma significativa e ao mesmo tempo prescindindo de qualquer conhecimento prévio, o que permite que o espectador que não queira conferir o longa (o que é inaceitável, já digo logo!) possa mergulhar direto na série. O que Addiss e Matthews fazem é exemplar do começo ao fim, pegando a premissa razoavelmente simples de O Cristal Encantado e criando um riquíssimo universo repleto de camadas, povos, tradições e acontecimentos que emprestam profundidade tolkeniana ao fantástico planeta Thra, onde se passa a história. No lugar de uma simples Jornada do Herói, em que determinado personagem tem que andar do ponto A ao ponto B ultrapassando os obstáculos de praxe, os showrunners conseguem, de maneria harmoniosa e lógica, multiplicar as linhas narrativas e enriquecer os episódios em uma incrível progressão geométrica que jamais perde de vista o grande embate do bem contra o mal que é o coração da obra de Henson e Oz.

Apesar de a narração de abertura por Sigourney Weaver estabelecer artificialmente esse mundo expansivo, especialmente ao apresentar rapidamente os sete clãs de Gelflings, criaturas élficas que vivem em estado de obediência ignorante aos malevolentes Skeksis, guardiões do Cristal da Verdade, a grande verdade é que a série começa efetivamente de maneira muito mais discreta e com amplitude reduzida. Somos inicialmente apresentados a Rian (Taron Egerton), soldado gelfling do clã de Stonewood que protege o Castelo do Cristal, moradia dos Skeksis, Brea (Anya Taylor-Joy), princesa gelfling do clã Vapra, considerado como superior e regente de todo esse povo e Deet (Nathalie Emmanuel), jovem gelfling cuidadora de animais do clã Grottan, que vive em cavernas subterrâneas. Cada um dos três descobre, independentemente, ainda bem no começo da temporada, que os venerados e endeusados skeksis não são os protetores bondosos de Thra que todos imaginavam  e eles, então, passam a lutar para desmascarar os vilões.

Claro que essa minha sinopse é reducionista ao extremo, pois considero desnecessário entrar em mais detalhes para fins da presente crítica. Mas confiem em mim quando digo que cada episódio desenvolve em velocidade vertiginosa cada elemento narrativo originalmente apresentado, dando espaço para todos os personagens principais, aí incluídos os famigerados skeksis, sem dúvida as grandes “estrelas” da série tal qual eram no filme original. Aliás, um dos pontos mais problemáticos do longa oitentista era que os heróis, dois gelflings sobreviventes do genocídio causado pelos skeksis, quase não tinham personalidade ou profundidade, com arcos narrativos completamente inexistentes. Addiss e Matthews certamente perceberam isso e concluíram que a série jamais se sustentaria sem protagonistas que criassem uma aproximação com o espectador e que tivessem franco desenvolvimento ao longo dos episódios. E A Era da Resistência traz exatamente isso especialmente para Rian, Brea e Deet, ainda que Rian, apesar de muito destacado, seja um daqueles personagens que é mais espectador passivo do que alguém que realmente altere o curso da história que se desenrola (e a série é auto-consciente disso, dado determinado diálogo dele com o Camareiro mais para a frente na temporada). Cada um deles tem um arco realmente interessante e convincente e que envolvem outros gelflings e criaturas do planeta (o podling Hup, voz de Victor Yerrid, é particularmente adorável) em uma bela teia muito bem costurada que amarra pontas soltas e estabelece uma invejável coesão interna.

Mas, como mencionei, mesmo considerando que os geflings, aqui, são uma bem-vinda evolução dos personagens sem-graça da película de Henson e Oz, os grandes destaques permanecem sendo os skeksis. Mesmo considerando que eles são os clássicos vilões unidimensionais, esse aspecto é reduzido na série, já que cada um ganha personalidade quase clichê, mas bem conectada com seu respectivo cargo dentro da hierarquia – o General (Benedict Wong) é violento, o Cientista (Mark Hamill) é antiético e assim por diante – e com função narrativa eficaz dentro da história. Até mesmo o Imperador skekis tem camadas e uma subtrama que se conecta com uma endemia maligna que toma Thra de assalto. Como no filme original, porém, o grande destaque entre os vilões fica mesmo com skekSil, o Camareiro, com um irretocável trabalho de voz de Simon Pegg. O personagem tem todos os traços dos grandes e inesquecíveis vilões do audiovisual: aparência marcante, manipulador, inteligente, negociador e covarde. De novidade, o destaque fica mesmo com o assustador skekMal, o Caçador (Ralph Ineson), o único skeksis que não vive no castelo, mas sim caçando “troféus” pelo planeta como o alienígena em O Predador.

Os skeksis, aliás, certamente serão objeto de pesadelos aos mais impressionáveis, assim como no filme de 1982, que foi justamente mal-recebido por ser um conto de fadas “sombrio demais”. Mesmo em uma era em que “ser sombrio” tornou-se lugar-comum, A Era da Resistência dá aula sobre o que é ser realmente sombrio para muito além do “filtro escuro” ou “violência explícita” ou “litros de sangue”. Há um ar negativo e pútrido cercando os skeksis e tudo o que tocam que é difícil até de explicar, como uma aura que combina os Sete Pecados Capitais (base original de Henson para essas criaturas) em uma amálgama aterradora, mas ao mesmo tempo levemente (bem levemente mesmo) cômica e histriônica. Esse lado pesado permeia toda a narrativa, vale dizer, especialmente considerando que a série é o prelúdio para um filme que já revela o destino não muito simpático de quase todos ali, ainda que a astrônoma Aughra (Donna Kimball), que representa o próprio planeta Thra, nos apresente à possibilidade de “múltiplos futuros”, abrindo espaço para que os showrunners brinquem com absolutamente todas as possibilidades de linhas temporais, não ficando presos a uma só.

Nesse diapasão, devo dizer que fiquei surpreso com a direção de Louis Leterrier. Diretor medíocre acostumado com uso desavergonhado de CGI, ele faz um trabalho de mestre na série no comado de todos os episódios. Mesmo que por vezes ele aproxime demais a câmera em sequências de muita ação, tornando-as levemente confusas, suas tomadas aéreas, seus travellings, seu equilíbrio na decupagem e a imposição de uma linguagem visual e estética única é realmente de se tirar o chapéu. Jamais imaginaria que eu fosse concluir, mesmo esse tempo todo depois, que uma obra feita somente com marionetes seria melhor do que a original, mas é o que acontece aqui. Sim, eu sei que há um componente de CGI na série e que a “pureza” da obra oitentista ficou para trás com isso, mas isso era de se esperar. O que não era de se esperar é que seja quase que completamente impossível reconhecer onde é que as marionetes acabam e o computador começa. Tenho certeza que muito do CGI utilizado ficou nos panoramas gerais e nas sequências de ação desenfreada, além no “apagamento” dos marionetistas com o uso de chromakey, mas esses momentos não saltam aos olhos, estando mais do que perfeitamente costurados em um todo único, harmônico e, sobretudo, belíssimo. Claro que é possível deduzir que criaturas como o pedregoso Legado talvez sejam geradas por computação gráfica, mas confesso que, não tendo pesquisado o assunto (para manter “a mística”, digamos assim), volta e meio me pego na dúvida.

Lógico que muito do mérito dessa beleza impressionante da série vem da vasta equipe criativa por trás da concepção de cada clã gelfling – notem que cada um tem sua compleição, trejeitos, expressões faciais, figurinos -, de cada riquíssimo skeksis, de cada criatura estranha nesse mundo esquisito e de cada folha em cada cenário físico montado à perfeição. O lendário ilustrador Brian Froud, que concebeu as criaturas e seus figurinos para a série e que trabalhara também no filme de 1982 e, notavelmente, em Labirinto – A Magia do Tempo e a equipe da mítica Jim Henson Company, que criou os “bonecos” e executou os complexos movimentos merecem efusivos aplausos pelo que eles conseguiram aqui, um verdadeiro tour de force que, como disse logo no começo da crítica, jamais imaginaria que fosse economicamente viável em pleno 2019.

Alguns até poderão me perguntar sobre os defeitos da série e, para esses, eu devo dizer que, além dos que mencionei brevemente ao longo da crítica, alguns episódios, como é quase padrão, poderiam ser encurtados ou narrativas poderiam ser condensadas de forma que os 10 episódios fossem transformados em oito talvez. Além disso, há algumas conveniências narrativas, normalmente gravitando ao redor da presença de Aughra, que funcionam mais como “golpes baixos” dos roteiros, mas que podem ser aceitas pela natureza mágica da personagem. No entanto, sabe qual é a grande verdade? Pois bem: eu estava tão hipnotizado vendo cada fotograma dessa maravilha audiovisual que eu nem liguei para eventuais problemas ou, se liguei, eles foram sublimados e mais do que compensados pelos seus vastos pontos positivos.

Para todos os efeitos, O Cristal Encantado: A Era da Resistência não era para existir nos dias de hoje, mas fico extremamente feliz que a garimpagem de material para ser adaptado resulte em obras corajosas como essa, que nadam efusivamente contra a maré de CGI que tomou Hollywood há anos. Meu medo, agora, é que essa obra-prima não seja bem recebida justamente por aqueles que foram contaminados pela doença da computação gráfica e que não consigam mais apreciar a arte feita da maneira mais difícil e pouco convencional, o que pode levar ao seu cancelamento à destempo. Seja como for, porém, meu sorriso bobo de êxtase audiovisual ao longo de 503 minutos de “banho de descontaminação cinematográfica” e que continua até agora já é muito mais do que eu poderia esperar na Era da Pasteurização.

O Cristal Encantado: A Era da Resistência – 1ª Temporada (The Dark Crystal: Age of Resistance, Reino Unido/EUA – 30 de agosto de 2019)
Showrunners: Jeffrey Addiss, Will Matthews
Direção: Louis Leterrier
Roteiro: Jeffrey Addiss,Will Matthews, J.M. Lee, Vivian Lee, Simon Racioppa, Richard Elliott, Kari Drake, Javier Grillo-Marxuach, Margaret Dunlap
Elenco (vozes): Taron Egerton, Anya Taylor-Joy, Nathalie Emmanuel, Donna Kimball, Helena Bonham Carter, Caitriona Balfe, Eddie Izzard, Harris Dickinson, Shazad Latif, Toby Jones, Gugu Mbatha-Raw, Lena Headey, Alicia Vikander, Hannah John-Kamen, Natalie Dormer, Mark Strong, Theo James, Louise Gold, Kemi-Bo Jacobs, Jason Isaacs, Simon Pegg, Awkwafina, Benedict Wong, Harvey Fierstein, Andy Samberg, Ralph Ineson, Alice Dinnean, Keegan-Michael Key, Mark Hamill, Neil Sterenberg, Ólafur Darri Ólafsson, Bill Hader, Dave Goelz, Theo Ogundipe, Sigourney Weaver, Victor Yerrid
Elenco (marionetistas): Alice Dinnean, Beccy Henderson, Dave Chapman, Damian Farrell, Helena Smee, Katherine Smee, Kevin Clash, Louise Gold, Olly Taylor, Victor Yerrid, Warrick Brownlow-Pike, Neil Sterenberg
Duração: 503 min. (10 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.