Crítica | O Cristal Encantado

Jim Henson é mais conhecido por ser o criador dos Muppets e de A Rocha Encantada (Fraggle Rock) e Frank Oz por ser a voz e o marionetista de Yoda, da saga Star Wars, além de pupilo de Henson. Os dois gênios da arte da manipulação de fantoches (ou títeres) colaboraram diversas vezes ao longo da vida, mas apenas uma vez simultaneamente na cadeira de diretor, sendo o segundo longa cinematográfico de Henson e a primeira experiência de Oz nesse cargo. O resultado dessa reunião de mentes (e mãos) foi O Cristal Encantado, filme inteiramente feito com bonecos e baseado em concepção original de Henson de meados dos anos 70 que tinha como objetivo resgatar os contos de fada originais dos Irmãos Grimm.

Esse resgate, aliás, foi o que levou o longa ao seu relativo fracasso de bilheteria (ele se pagou, mas não foi um estouro como se esperava, o que acabou com suas chances de eventual continuação). A expectativa era de algo na linha dos Muppets, então ainda gozando de grande sucesso, mas o que foi entregue foi uma aventura sombria, por vezes até assustadora. Mesmo depois de tantos anos, porém, tendo ganhado um status cult, com seguidores fieis, é provavelmente incontestável a conclusão de que, por mais que tenha problemas, O Cristal Encantado decididamente é fascinante.

Mas não é um fascínio que é exercido pela história ou pela construção e desenvolvimento de personagens, ou mesmo pela Jornada do Herói que resume exatamente o que a obra é. Nesses quesitos, o longa é quase amador em sua simplicidade e na forma como apresenta esse mundo estranho de fantasia chamado Thra em que duas raças, os Skeksis e os Místicos, representam o mal e o bem, dois literais lados de uma mesma moeda que gira em torno de um cristal fragmentado que precisa ser recomposto pelo prometido, o último sobrevivente da raça Gelfling. O que realmente retira O Cristal Encantado do lugar-comum a que estaria fadado é, evidentemente, os magníficos fantoches que vividamente populam a película, especialmente os Skeksis. Os vilões, baseados em abutres e que originalmente representavam os Sete Pecados Capitais (apesar de serem 10), são um primor de personalidade e inventividade. Cada um tem suas características, sua voz e sua forma de agir, resultando em personagens que, não seria exagero afirmar, sedimentam-se profundamente na mente do espectador logo quando aparecem e mais ainda na medida em que a história progride, pois ganha-se tempo para apreciá-los em seus ricos detalhes, o que inclui figurinos e rostos bem diferenciados, além de trabalhos de voz primorosos e assustadores (no original em inglês) com especial destaque para Barry Dennen como o Skeksis exilado depois de disputar o trono (que, aliás, é controlado pelo próprio Oz).

Se os Skeksis são o destaque, todas as demais criações de Henson, Oz e companhia valem menção, com duas exceções que abordarei mais para a frente. Apesar de não muito variados, os Místicos, que conceitualmente lembram muito Yoda, com diversas passagens do filme referenciando muito claramente O Império Contra-Ataca, de dois anos antes, diga-se de passagem, conseguem muito bem estabelecer-se como os exatos opostos dos vilões, transpirando bondade e sabedoria. A astrônoma Aughra (Billie Whitelaw) é outra digna de nota dada sua irreverência e sua aparência de matriarca italiana misturada com greia, da mitologia greco-romana, mesmo aparecendo relativamente muito pouco e com função narrativa para lá de básica. As demais criaturas, como os ameaçadores e gigantescos besouros Garthim, que formam o exército dos Skeksis; os diminutos e simpáticos Podlings, escravizados pelos vilões; os esguios e desengonçados Landstriders; o fofo e barulhento Fizzgig e toda a fauna e flora de Thra criam um conjunto harmônico e perfeitamente crível para esse muito particular mundo de fantasia e que não deixa nada a dever a grandes obras do gênero, guardadas as devidas proporções e considerando-se as limitações naturais da escolha de fantoches controlados no estilo old school no lugar de animatrônicos. 

As exceções que mencionei ficam mesmo com os Gelflings. Sim, apesar de inicialmente haver apenas um – Jen (Stephen Garlick) – que é enviado na Jornada do Herói pelo seu moribundo mentor Místico urZah (Sean Barrett), ele logo esbarra em Kira (Lisa Maxwell), uma fêmea de sua raça, e juntos partem para consertar o cristal encantado (ou da verdade). O problemas das duas criaturas de feições élficas é que, para protagonistas, eles são os personagens mais sem graça de todo o longa. A inspiração dedicada para todas as demais criaturas faltou aqui, talvez com o objetivo de criar algo mais relacionável aos espectadores, dadas as semelhanças com crianças humanas genéricas. Mas a aparência deles é o menor dos problemas, pois ela poderia ser amenizada por bons trabalhos de voz, o que infelizmente também não acontece. E, em cima disso tudo, o próprio desenvolvimento da dupla ao longo da jornada é inexistente, com quase tudo acontecendo apesar da presença deles. 

Por sorte, apesar de Jen e Kira serem completamente esquecíveis, os visuais de toda a fita definitivamente não são. Falo aqui desde as criaturas que tanto elogiei acima, como também os esplendorosos cenários onde vivem, como o castelo dos Skeksis, a vila dos Místicos, o laboratório de Aughra e a floresta e pântano de Kira, seus figurinos detalhados, suas movimentações perfeitas dentro da proposta (claro!) e os belíssimos cenários em pinturas matte criadas pela Industrial Light & Magic, então no auge de sua qualidade e criatividade. Some-se a isso a fotografia sombria, mas iluminada de Oswald Morris (Um Violinista no Telhado, O Homem que Queria Ser Rei), em seu último trabalho, a trilha sonora heroica composta por Trevor Jones (O Último dos Moicanos, Cidade das Sombras) e muito bem sincronizada pelos diretores e pronto, tem-se uma aventura infanto-juvenil (mas os bem pequenos podem sentir medo, portanto cuidado!) realmente diferente de tudo que há por aí.

Mesmo com um roteiro básico e com protagonistas que decepcionam, O Cristal Encantado é uma experiência inesquecível, uma obra que muito facilmente ganhará um carinhoso espaço na mente de quem der chance a ela, mesmo considerando o mundo inundado por CGI em que vivemos. Um verdadeiro conto de fadas moderno que realmente merece o status de cult.  

O Cristal Encantado (The Dark Crystal, EUA/Reino Unido – 1982)
Direção: Jim Henson, Frank Oz
Roteiro: David Odell (baseado em história de Jim Henson)
Elenco:
Marionetistas – Jim Henson, Kathryn Mullen, Frank Oz, Dave Goelz, Louise Gold, Bob Payne, Mike Quinn, Tim Rose, Brian Muehl, Dave Greenaway
Vozes (originais) – Stephen Garlick, Lisa Maxwell, Billie Whitelaw, Percy Edwards, Barry Dennen, Michael Kilgarriff, Jerry Nelson, Thick Wilson, Brian Muehl, Steve Whitmire, John Baddeley, David Buck, Charles Collingwood, Sean Barrett, Richard Slaughter, Jean Pierre Amiel, Hugh Spight, Robbie Barnett, Swee Lim, Simon Williamson, Hus Levant, Toby Philpott, Joseph O’Conor, Hugh Spight, Miki Iveria, Patrick Monckton, Sue Weatherby, Barry Dennen
Duração: 93 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.