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Crítica | O Culto de Chucky

por Iann Jeliel
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A trajetória de Chucky nos cinemas sempre me soou atrasada às demais franquias de terror. A exemplo do primeiro filme que se leva como um terror sério, mesmo que sua premissa se trate de um boneco que mata pessoas. Acredito que foi uma série de fatores extra filme que levaram esse título ao status de icônico, a voz de Brad Dourif como Chucky principalmente, porque a ideia por trás da criação, do medo infantil do capitalismo, do vodu, nunca foi plenamente explorada por seu criador, Don Mancini. O cineasta é um tanto limitado criativamente, apesar de sempre surgir com ideias inovadoras para um determinado movimento, a maioria delas é executada sobre convenções presas a um novo classicismo.

No primeiro, era a de slashers ainda sérios do início dos anos 80 que não poderiam ter mais esse caráter depois de anos de repetição de uma mesma fórmula. Aí o segundo e o terceiro introduzem um Chucky mais sarcástico, o que toda continuação de Freddy Krueger, por exemplo, já tinha feito. Chega A Noiva de Chucky e de fato existe uma reinvenção bem boa da franquia, mas que em algum momento ali no ato final se perde por ainda querer convenções clássicas, que quando não funcionaram fizeram o criador ir ao extremo oposto, na bomba O Filho de Chucky. Nos 25 anos de franquia, Mancini de novo retoma as origens com A Maldição de Chucky, que não exatamente buscou modernizar o classicismo, somente encaixá-lo na tendência sobrenatural. O resultado é todo aquele terceiro ato pavoroso de conexões forçadas entre todos os filmes da franquia, que daria início a um “universo compartilhado” de Chuckys, propostos nesse sétimo filme, O Culto de Chucky.

A ideia aqui é fazer um crossover entre as histórias de Nica, a única sobrevivente da chacina do filme anterior, e Andy, a criança protagonista da trilogia original que agora adulto busca vingança pela juventude perdida, tudo isso no clima de maior seriedade possível. Se o senso de continuidade com as conexões propostas na junção dessas histórias já parecia forçado, a derivação dela só demonstra o quanto o misticismo clássico vodu de Chucky não funciona mais. Porque ele chega em sua máxima neste filme, que restabelece regras de modo completamente aleatório somente para proporcionar uma chacina gratuita e agradável ao “fã” saudosista da franquia. Afinal, quanto mais bonecos melhor, né? Se o estrago já é grande com um, imagine com quatro? Parece legal para quem é fã.

O roteiro ainda tenta de alguma forma ludibriar esse novo dom de Charles Lee Ray poder compartilhar sua alma com mais “good guys”, aproveitando o hospício para tentar se desculpar num discurso de que “todos são loucos”, aproveitando que o verdadeiro Chucky está preso com Andy em outro contexto, mas não funciona porque já fica claro que os dois outros bonecos estão vivos. Não surpreende ninguém porque o próprio cenário já é por si só uma facilitação narrativa, qualquer morte que acontecer por lá vai ser tratada como um suicídio ou um acidente, e quem acusar o boneco de ser o culpado vai ser amarrado por loucura. Assim, a matança rola solta, sem escrúpulos e sem orçamento também, pela primeira vez adentrando em efeitos digitais mal-acabados nas decapitações e mutilações diversas ocorridas nas vítimas caricatas sem carisma e “emburrecidas”.

Fora que o atrativo principal, que é o crossover entre os dois personagens em busca de revanche, nunca ocorre ou cria um senso de crescente devido à bagunça na organização dos núcleos na edição. Quando finalmente chega o momento, lá para os últimos minutos, simplesmente não empolga pelo anticlímax cafona, ilógico e inconclusivo, só deixando mais pontas soltas para amarrar num “final de nova trilogia” que nunca acontecerá. Este só não é o pior da franquia porque tem um momento ou outro involuntariamente divertido, mas está muito claro que a franquia depois daqui precisava desapegar do seu criador para ir mais longe. Felizmente, isso aconteceria com o ótimo remake dois anos depois. Já este? Bem, sorte que ficou apenas no home video.

O Culto de Chucky (Cult of Chucky | EUA, 2017)
Direção: Don Mancini
Roteiro: Don Mancini
Elenco: Brad Dourif, Fiona Dourif, Alex Vincent, Summer H. Howell, Jennifer Tilly, Christine Elise, Grace Lynn Kung, Zak Santiago, Michael Therriault, Elisabeth Rosen, Allison Dawn Doiron
Duração: 91 minutos

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