Fui atraído para este volume inaugural da série Vitorianas – Um Século de Aventuras, concebida pelo gaúcho A. Z. Cordenonsi, por conta da curiosidade do meu sobrinho, que está na fase de paixão por dinossauros e que queria um livro para lermos juntos, de modo que terei, aqui, uma visão dupla a respeito da obra — e sim, são pontos de vista completamente diferentes. Escalando personagens icônicos de Conan Doyle (Professor Challenger e John Roxton) e duas figuras igualmente icônicas da História do Brasil (Santos Dumont e D. Pedro II), além de figuras históricas importantes, mas desprezadas pela paleontologia (Mary Anning e Mary Ann Mantell) e padre inventor gaúcho Roberto Landell de Moura (conhecido por estudos na área de transmissão sem fio via ondas de rádio e luz). Como antagonista central temos Lorde Londonderry, baseado no infame Charles Vane. É um baita elenco forte e, até certo ponto, trabalhado de maneira interessante pelo autor, numa linha de exploração de lugares, aprisionamento e tentativa de fuga que torna a leitura ágil e repleta de cenas para prender a respiração. O público-alvo realmente adora esse tipo de coisa, e a visão geral do meu sobrinho sobre a obra foi a mais positiva e entusiasmada possível.
O fator aventureiro e o fator histórico são magnéticos o bastante para valer a leitura, e Cordenonsi dá um excelente impulso para o núcleo dramático de O Dente do Iguanodonte, com um prólogo que se passa em Dorset, 1827, e nos Alto Amazonas, 1874, enquanto todo o restante do livro se passa entre janeiro e maio de 1882. A ligação entre os eventos principais e o prólogo é apenas espiritual, o que me frustrou um pouco, assim como o encerramento do livro, com reticências que nos encaminham para o volume dois da série, mas numa abertura maior do que deveria. Creio que ainda haverá uma compensação para isso nos outros livros, até porque há a questão dos “falsos hieróglifos” nas paredes das cavernas amazônicas que a expedição encontrou e que não dá em nada imediatamente, mas é prometido um retorno à questão. A mesma coisa acontece com a inesperada, mas muito interessante, simbologia que fica na cena final. Embora não tenha gostado da linha de finalização do livro — preferiria um contexto mais fechadinho, com menos janelas abertas, para dar a percepção de autossuficiência da obra — devo admitir que o tipo de personagens, de símbolo e de ideias expostas nesse momento me atiçaram para o próximo volume. E tomara que a série suba de qualidade. Potencial tem de sobra.
Os personagens aqui são bem construídos e, em todo o período em que passaram na floresta amazônica, ofereceram bom entretenimento. Confesso que não sou o maior fã da maneira como o autor construiu o seu Santos Dumont, mas em se tratando de uma ficção histórica, inclusive numa temporalidade diferente da vida real do nosso pai da aviação, não coloco isso como um problema real, apenas como uma questão de gosto mesmo. SPOILERS! Destino melhor acaba tendo a representação do (futuro) imperador Pedro II. Demorei um pouquinho para me acostumar com a ideia — e a mudança de temporalidade em relação à vida real do personagem histórico –, mas, ultrapassada essa fase inicial, comprei a ideia. Adorei a revelação final e achei a colocação de Leocádio na história muito bem feita, assim como a maneira de apresentação, jeito de falar, temperamento e diplomacia do rapaz. Leria tranquilamente uma série sobre ele, nessa fase, desde que houvesse um contexto bem definido nas fronteiras do jovem Pedro nesse universo de Vitorianas, com mais detalhes sobre o afastamento dele e uma compensação coesa em relação ao que é feito, na Corte, durante o período de desaparecimento. SPOILERS!
Outra decisão que me incomodou bastante foi a colocação do iguanodonte no Barracuda, tirando-o do local onde foi encontrado. A armadilha, a captura, o uso do clorofórmio e o breve exame inicial (ou outros, se houvessem) fizeram bastante sentido para mim. Mas não o deslocamento do bicho. Não gostei disso nem no contexto da história e nem numa visão mais entrelaçada às decisões de cientistas sobre mover um animal raro desses (mesmo no universo de Vitorianas) de um continente para outro — ao menos é isso que está implícito, pois é dito que colocam ele no Barracuda e a seguinte partida para Manaus, e não há menção sobre a deposição do “lagarto gigante” por ali, logo, imagino que tenham levado ele para a Inglaterra. E isso me desagrada demais. Em todo caso, mesmo não tendo aproveitado tanto essa história quanto o adolescente que leu comigo, posso dizer tranquilamente que devo voltar à série no futuro. Há algo legal demais aqui para deixar escapar. E é o tipo de aventura com todos os ingredientes que eu gosto bastante e que pretendo ver para onde vai.
O Dente do Iguanodonte (Brasil, 3 de julho de 2023)
Uma Aventura de Mary Ann Woodhouse
Vitorianas – Um Século de Aventuras #1
Autor: A. Z. Cordenonsi
Ilustrações internas: Andre Zanki Cordenonsi
Publicação independente
172 páginas
