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Crítica | O Departamento da Verdade – Vol. 1: O Fim do Mundo

por Kevin Rick
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O Departamento da Verdade

Escrita por James Tynion IV, famoso pelo trabalho no universo do Batman na Nona Arte, O Departamento da Verdade parte de uma premissa extremamente interessante, apesar de ser um pouco batida, sobre teorias da conspiração. Ideia esta que é bastante retratada nos EUA, numa forma de obsessão dos americanos a respeito do assassinato de JFK, Área 51, morte do Elvis Presley, o suicídio recente de Jeffrey Epstein, o pouso na Lua, entre centenas – possivelmente milhares – de outras teorias conspiratórias. A forma como o autor se desvencilha de outras obras com essa premissa se baseia no sentido de abraçar todas elas, dando um toque de sobrenatural ao transformar a realidade da HQ em algo completamente subjetivo, já que as teorias da conspiração ganham vida à medida que um grande número de pessoas acreditam no absurdo. É um artifício muito bem executado pois cria uma atmosfera surreal e praticamente ilimitada para Tynion expandir a narrativa.

Para manter a realidade da ordem mundial em cheque, somos apresentados ao Departamento da Verdade, uma espécie de MIB das teorias da conspiração, responsável por monitorar e destruir especulações ridículas como a existência de alienígenas Reptilianos que comandam o mundo ou terraplanistas, que terminam por ser perigosos ao literalmente criar monstros extraterrestres e bordas para a Terra com suas crenças. Obviamente que uma organização antagônica está em ação, chamada Black Hat, com intuito de expor como humanos podem remodelar a realidade a seu bel prazer ao simplesmente acreditar em algo; e no meio da batalha milenar, temos Cole Turner, que a despeito de ser um agente federal, funciona na trama como o típico homem ordinário descobrindo o fantástico.

Além da intrigante premissa, Tynion concebe uma amálgama de gêneros ao nos situar em um universo absurdo com uma pegada de horror, sci-fi e policial, à medida que a estrutura assume o estilo procedural de séries de detetive, entregando o caso da conspiração da semana para Cole e sua parceira veterana Ruby, chefiados por Lee Harvey Oswald – o famoso Lee mesmo, considerado assassino do JFK até que se prove o contrário. Todavia, a mescla de gêneros tem o solene propósito de servir ao grande foco do roteiro: crítica/comentário social. Várias das teorias da conspiração apresentadas são sobre situações políticas, reprovando várias decisões governamentais americanas, além de uma atenção concentrada na forma como a sociedade atual absorve a falta de informação, as famosas fake news, desafiando o senso comum.

O Departamento da Verdade

O grande fator decisivo para gostar ou não desta HQ reside na recepção do leitor da arte, que eu, particularmente, adorei. O estilo abstrato assumido por Martin Simmonds é um perfeito exemplo de entender a história e transpor da melhor forma possível o ideal do autor na ilustração. O visual abstrato e borrado expandem a atmosfera narrativa de estranheza, mistério e transformação constante da realidade. Existe até um quê noir na arte de Simmonds, com muitas sombras, bastante estilizado mesmo, além de sustentar muita criatividade quando o fantasioso adentra a história com criaturas demoníacas e seres alienígenas. É um estilo único e distinto que definitivamente afastará um grande número de pessoas, mas é, inegavelmente, o perfeito casamento com a escrita de Tynion.

O Departamento da Verdade é uma obra sobre… bem… a verdade, mas não necessariamente a verdade absoluta, e sim aquela que criamos através da desinformação, achismo, alienação, crenças e pensamentos fantasiosos. Tynion nos entrega um thriller de espionagem com ares de uma série de detetive procedural com a já citada abertura completa do absurdo, assumindo aqui um caráter extremamente político e social. O primeiro volume, O Fim do Mundo, é uma ótima introdução para o subjetivismo e as metáforas do autor, com a grande ajuda imersiva da arte de Simmonds. A editora Image Comics se encontra com mais um sucesso na sua lista interminável de HQ’s sensacionais.

O Departamento da Verdade – Vol. 1: O Fim do Mundo (The Department of Truth – Vol. 1: The End of the World) – EUA, 2021
Contendo: The Department of Truth #1 a 5
Roteiro: James Tynion IV
Arte: Martin Simmonds
Letras: Aditya Bidikar
Editora original: Image Comics
Data original de publicação: 24 de fevereiro de 2021
144 páginas

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7 comentários

Jordison Francisco 27 de março de 2021 - 20:37

Teorias da Conspiração? SIM, por favor!

Esta é uma ótima opção para aqueles que amam história, teorias da conspiração, governo e realidades alternativas. Um grande começo para o que eu tenho certeza que vai ser uma série fantástica. Obra de arte é compatível com seu enredo.

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Lucas Casagrande 26 de fevereiro de 2021 - 20:54

Melhor editora americana pra mim

Amo quase tudo o que leio da Image, essa ta na lista

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Kevin Rick 27 de fevereiro de 2021 - 00:28

Minha editora favorita também! Quando ler, diga depois o que achou!

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planocritico 25 de fevereiro de 2021 - 14:40

A Image Comics e sua maravilhosamente infindável coleção de títulos sensacionais! Os caras não param!!!

Mais um que vai para minha gigantesca lista…

Abs,
Ritter.

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Kevin Rick 25 de fevereiro de 2021 - 23:51

Ah, eles não param mesmo… É um completo absurdo! Para nossa felicidade hehehe

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Starr-Lord 25 de fevereiro de 2021 - 14:33

Cara, eu gosto muito do trabalho independente do James Tynion IV. Essa série, The Backstagers e especialmente Something is Killing the Children são todas leituras muito boas. Já o trabalho dele no Batman eu não curti tanto, prefiro bem mais títulos como esse. A premissa já fisga porque esse assunto de conspirações, eu particularmente acho muito instigante e com um potencial enorme para uma premissa envolvendo suspense, verdade e paranoia, que o Tynion brilha aqui e complementado pela arte do Simmonds, que me lembra muito o Alex Maleev inclusive. Muito curioso para os próximos arcos, tem um potencial gigantesco.

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Kevin Rick 25 de fevereiro de 2021 - 23:51

É a primeira HQ independente do Tynion que eu li. Já conhecia ele do Batman, e compartilho da sua opinião em relação ao trabalho dele com o morcegão, apesar de gostar de algumas runs dele no Detective Comics. E fiquei interessado em outras obras mais autorais do cara, especialmente essas que citou. Sobre essa em questão, o potencial é gigante mesmo! Esperando ansiosamente pelo próximo arco.

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