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Crítica | O Desafio das Águias

por Ritter Fan
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Broadsword calling Danny Boy. Broadsword calling Danny Boy. Over.
– Major John Smith

Quando o romancista escocês Alistair MacLean foi convidado pelo produtor Elliott Kastner para escrever o roteiro original do que se tornaria O Desafio das Águias, nada menos do que quatro de seus livros já haviam sido adaptados para as telonas, começando pelo clássico instantâneo Os Canhões de Navarone, em 1961. MacLean aceitou o desafio e escreveu seu primeiro roteiro simultaneamente com o romance, com tanto o filme quanto a obra literária alcançando enorme sucesso ao ponto de terem inspirado incontáveis outras.

E toda a atenção que o longa recebeu foi merecido, pois ele não só é uma aventura de guerra de primeira linha, como o elenco principal, capitaneado por Richard Burton e Clint Eastwood, cada um deles estrelando nada menos do que seus respectivos terceiros filmes em 1968, comandam a narrativa com suas presenças marcantes e inesquecíveis ao lado de Mary Ure e Ingrid Pitt. A própria produção não economizou esforços e orçamento, com filmagens em locação na Áustria, com o belo castelo Hohenwerfen sendo utilizado como a fortaleza nazista que a dupla principal, acompanhada de outros soldados, precisa se infiltrar para libertar um general americano capturado dias antes, além de o longa ser um dos primeiros a usar projeção frontal, o que permitiu criar as clássicas sequências no teleférico de acesso ao local (que, na verdade, sequer existe no castelo verdadeiro).

O roteiro não deixa qualquer dúvida de que foi escrito por MacLean, primeiro pela premissa básica ser acrescentada de uma subtrama que se torna a principal logo cedo e que se refere à espionagem e, depois, dada a propensão do autor em criar um miolo cheio de reviravoltas que, no longa, é, sem dúvida alguma, o ponto alto da narrativa reunindo tensão, confusão (em um raro momento em que isso é bem usado em um longa) e um Richard Burton claramente divertindo-se ao revelar quem ele é diante de nazistas sentados em uma mesa retangular em um enorme aposento do castelo. Interessantemente, Eastwood, apesar de ter protagonizado seus dois filmes anteriores daquele ano – Meu Nome é Coogan e A Marca da Forca – não é muito mais do que um coadjuvante de luxo aqui, muito em razão de sua própria escolha em pedir para que suas falas fossem reduzidas (e foram, mas, na verdade, o que houve foi a transferência delas para Burton) já que ele havia considerado o roteiro expositivo demais.

É curioso o pedido de Eastwood, na verdade, pois, apesar de talvez bem mais longo do que precisasse ser, O Desafio das Águias é um filme lacônico, silencioso (até começarem as explosões) e que se vale muito mais de imagens do que de diálogos. O grande momento verborrágico é mesmo o citado clímax na mesa nazista, mas ele não só é necessário, como muito bem construído, deixando o espectador perdido até o último segundo sobre o que exatamente está acontecendo ali. O ator transformado em diretor Brian G. Hutton – e que teve apenas nove filmes nessa cadeira, dois deles de guerra, com Eastwood e seguidos – aproveita esses silêncios muito bem e faz a narrativa andar muito tranquilamente, sem sobressaltos, mas também sem qualquer semblante de monotonia.

Quando a ação efetivamente começa, ela é longa, bem coreografada e muito eficiente para a época em que foi feita, com Burton e Eastwood cumprindo muito bem seus papeis de durões que se mantém calmos e impassíveis mesmo com hordas de nazistas atrás deles. Alguns momentos nessa linha são até inadvertidamente engraçados, com algumas escolhas estranhas como quando o tenente americano Morris Schaffer (Eastwood) tenta matar um operador de rádio com uma faca, mesmo considerando que o major britânico John Smith (Burton) tem – e vinha usando – uma pistola com silencioso. Mas é um pouco do charme da fita, que se vale de artifícios dessa natureza – além das reviravoltas que começam bem cedo, já com o grupo chegando de paraquedas na região alpina da Bavária – para manter a tensão alta constantemente.

Apesar de em princípio violento, O Desafio das Águias tem um agradável e constante tom aventuresco, pendendo muito mais para a leveza do que para o lado sombrio da guerra, dos nazistas e das mortes aos borbotões – especialmente em razão de explosões – que  torna alta a contagem de corpos, ma que recompensa o espectador com ação inteligente e ótimas atuações do elenco. É, por assim dizer, uma Sessão da Tarde de altíssima qualidade graças ao roteiro intrigante de MacLean e a direção cuidadosa de Hutton que funciona, simbolicamente, como a passagem de bastão de uma das maiores estrelas hollywoodianas da época para uma das maiores estrelas da década seguinte.

Fiquem com a homenagem do Iron Maiden ao filme:

O Desafio das Águias (Where Eagles Dare, Reino Unido – 1968)
Direção: Brian G. Hutton
Roteiro: Alistair MacLean
Elenco: Richard Burton, Clint Eastwood, Mary Ure, Patrick Wymark, Michael Hordern, Donald Houston, Peter Barkworth, William Squire, Robert Beatty, Ingrid Pitt, Brook Williams, Neil McCarthy, Vincent Ball, Anton Diffring, Ferdy Mayne, Derren Nesbitt
Duração: 158 min.

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