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Crítica | O Desconhecido (2015)

por Matheus Carvalho
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Os últimos anos marcaram um crescimento exponencial no mercado de streamings no Brasil e no mundo, oferecendo catálogos recheados de opções para todos os gostos e permitindo que o público experimente e inove mais do que estava acostumado. Essa facilidade permitiu também o acesso a mais obras de fora da esfera hollywoodiana. Dentre os mercados que mais aproveitaram essa brecha, o espanhol sem dúvida ocupa um lugar de destaque. Filmes como O Poço e Um Contratempo, bem como a série La Casa de Papel, foram grandes sucessos no Brasil. No entanto, uma das primeiras obras dessa nova “safra” espanhola acabou passando despercebida: O Desconhecido.

O filme de estreia do diretor Dani de la Torre é um suspense dinâmico e cheio de tensão. O gerente de banco Carlos, interpretado por Luis Tosar, toma um café da manhã conturbado com sua família e sai para deixar as crianças na escola e seguir para o trabalho. Entre uma ligação e outra durante o trajeto, ele recebe uma chamada desconhecida que vai mudar completamente seus planos, colocando Carlos e seus filhos numa corrida contra o tempo para sobreviver. O estilo lembra muito os filmes de Liam Neeson, mas sem o estilo super-herói invencível e a prova de balas. Inclusive, o ator americano foi cogitado para protagonizar uma refilmagem O Desconhecido.

O roteiro de Alberto Marini é eficiente ao administrar os picos de tensão e em lançar vários elementos simultâneos para contribuir com a sensação de caos durante todo o filme. Seja as crianças desesperadas, o trânsito caótico da cidade ou as muitas ligações que o protagonista precisa fazer para tentar sair daquela situação, todas as variáveis parecem estar sob o controle do roteiro. No entanto, se o desenvolvimento da trama é envolvente, pode-se dizer que ele seria ainda mais se o primeiro ato fosse melhor trabalhado. Tudo acontece muito rápido e esse desespero para entrar logo no jogo de gato e rato atrapalha na imersão do espectador. Se houvesse uma introdução melhor dos personagens, quem sabe um dia inteiro na vida de Carlos, tanto no trabalho quanto em casa com a família, talvez o resultado final fosse mais satisfatório.

O ato final é outro que deixa a desejar. Por um lado, me agrada o fato de o roteiro não ser megalomaníaco e criar reviravoltas surreais ou transformar o protagonista em um ser quase sobrenatural. Por outro, o desfecho poderia ter sido melhor trabalhado dentro das próprias possibilidades que o roteiro havia criado ao longo da trama, principalmente nas que envolviam os membros da família. As atuações também são desequilibradas. Luis Tosar está muito bem e consegue segurar a pressão de ser um protagonista num filme que depende completamente da sua atuação. Já os outros personagens, como a inspetora da polícia e a família de Carlos, interpretam de forma mecânica e tomam decisões pouco inteligentes a cada oportunidade, diminuindo o impacto de algumas cenas importantes.

Tecnicamente, fotografia e montagem merecem destaque. Um filme que se passa quase inteiramente dentro de um carro tinha tudo para ser cansativo e monótono, mas a variação de planos e ângulos é gerenciada com muita eficiência e maximiza toda a tensão e claustrofobia da situação. Em um momento a câmera foca nas crianças aflitas, em outro ela fecha no rosto tenso de Carlos, muitas vezes em ângulos propositalmente tortos e incômodos. De bônus, ainda temos um simples, porém eficiente, plano-sequência bem no clímax do filme. Já a trilha sonora acerta ao trabalhar para colaborar com a tensão e não para ofuscá-la.

O Desconhecido é uma boa pedida para gosta de filmes de ação e suspense no estilo mais realista. Ele não promete nada que não pode entregar e não inventa soluções mágicas. Seja para os fãs do gênero ou para quem curte experimentar novos mercados e diretores, o filme certamente merece ser conferido e reivindicar seu espaço como um dos pioneiros dessa onda de filmes espanhóis que fizeram sucesso nos últimos anos. 

O Desconhecido (El Desconocido) – Spain, 2015
Direção: Dani de la Torre
Roteiro: Alberto Marini
Elenco: Luís Tosar, Paula del Río, Marco Sanz, Javier Gutiérrez, Elvira Mínguez, Goya Toledo, Fernando Cayo, Antonio Mourelos, Ricardo de Barreiro, María Mera
Duração: 100 min

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