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Crítica | O Destino de Uma Nação

por Gabriel Carvalho
427 views (a partir de agosto de 2020)

“Você não pode raciocinar com um tigre quando sua cabeça ainda está em sua boca.”

Contar a história de uma figura tão reconhecida e relevante para a história do mundo não é uma tarefa fácil. Traçar um roteiro que condense uma trajetória inteira em um único filme, trazendo em conjunto uma narrativa cinematograficamente hábil é, senão impossível, improvável de ser feito majestosamente. O caminho que se opta majoritariamente nesse caso é o recorte, o qual traz possibilidades mais abrangentes a serem exploradas, possivelmente incorporando na obra tanto um estudo de personagem interessante quanto uma revisitação histórica crível, além de um enredo convincente, com propósito, que busca fornecer um delineamento substancial da essência do que é recortado. Dessa forma, esta segunda abordagem de Winston Churchill em 2017, além de ChurchillO Destino de Uma Nação é uma curta estrada que somos convidados a percorrer pelas primeiras semanas do primeiro-ministro britânico a serviço do Reino Unido no exato cargo que lhe tornou mundialmente famoso. Depois da renúncia de Neville Chamberlain (Ronald Pickup), movido por pressão política diante do fracasso de se impedir o avanço brutal da Alemanha sobre a Europa, o notável orador (Gary Oldman), agora com um poder assombroso nas mãos, deve enfrentar dilemas exaustivos a fim de garantir a integridade do seu povo e dos seus aliados. Com Hitler perto de chegar na porta de entrada para o Reino Unido, diversas respostas são colocadas desesperadamente na mesa, muitos jogadores tramam os próximos movimentos do governo e soldados perecem sacrificando-se pelo bem da Coroa e de seu reino.

Em um primeiro plano, é curioso que a interpretação de figuras britânicas de renome seja, aparentemente, um caminho menos conturbado para a conquista do Oscar. Dentre alguns dos últimos vencedores, Helen Mirren, Meryl Streep e Colin Firth voltaram da cerimônia com o pequeno, mas majestoso homem dourado. Se depender unicamente do seu talento profissional, Gary Oldman terá sua consagração com O Destino de Uma Nação, tendo em vista essa espetacular interpretação, corrijo, encarnação de Winston Churchill. O primeiro-ministro é humanizado consideravelmente pelo roteiro de Anthony McCarten, mas o trabalho de realismo fica severamente verdadeiro quando nos deparamos com a atuação de Oldman. Apesar disso, a direção tem um papel fundamental na quebra da mística envolta do protagonista, trazendo um contraponto muito inteligente do mito em relação ao homem. Assim que começa o longa, após uma tomada aérea interessante dentro do Parlamento Britânico, a cadeira do político encontra-se vaga, incitando a curiosidade do espectador. Um pouco depois, com a apresentação da secretária Elizabeth Layton (Lily James), o homem prestes a se tornar primeiro-ministro é enfim revelado nos meandros da escuridão. A ausência de iluminação dá margem para que o fogo que acende o charuto de Churchill enalteça a figura por detrás do homem. Quando o realce é apagado em consequência da retomada da luz, o pequeno vislumbre da face envelhecida do velho finalmente revela o homem à frente daquela figura, diferentemente de como a chama sugeriu primeiramente, nenhum pouco intocável.

Com todas as peças colocadas no lugar certo, reservo-me no direito de categorizar Oldman e sua interpretação como digna de um lugar no panteão das mais sensacionais encarnações de figuras políticas já feitas. Isso se dá por diversos motivos, mas, para começar uma listagem das maravilhas alcançadas pela performance do ator, é indiscutível que o mesmo consiga proferir os poderosos discursos de Churchill com uma intensidade muito similar ao do ex-primeiro-ministro em vida. É acertada a escolha dos realizadores da obra em encerrar o filme com o histórico “We shall fight on the beaches”, um momento aclamadíssimo que é, em uma jogada de paralelismo do diretor Joe Wright, antagonizado em relação a primeiríssima manifestação oral do primeiro-ministro. Aliás, durante todo o percurso do longa, Wright demonstra ter um controle perfeito da câmera e das suas possibilidades, usando-a em determinado momento, auxiliado é claro pela montagem de Valerio Bonelli, para transformar um cenário devastador de guerra no rosto de um soldado abatido. Outrossim, a fotografia de Bruno Delbonnel é uma engrenagem fundamental a colaborar na intenção que se teve de dar mais profundidade dramática e estética aos planos do filme. Nesse caso, um dos grandes acertos de O Destino de Uma Nação é colocar o protagonista literalmente no centro da obra, dando espaço de sobra para Oldman brilhar. Dado o planejamento de uma simetria visual hipnotizante, vide a ligação telefônica entre este e Franklin D. Roosevelt (David Strathairn), dentro das Salas da Guerra a atmosfera soturna é deveras desacolhedora, garantindo composições cinematográficas bastante eficientes tanto na imagem quanto no propósito. Tendo em vista que o filme encontra-se situado na maior parte do seu tempo dentro de cenários internos, a cenografia casa muito bem com o restante da estrutura fílmica para dar vivacidade aos ambientes, até mesmo os mais inóspitos, funcionando como mais um pedaço coeso deste trabalho cinematográfico.

Ao mesmo tempo, retomando um ponto anterior, é com esses discursos atemporais que percebemos o trabalho de voz magnífico de Gary Oldman, o qual se assemelha muito com a fala de Churchill na vida real. Outro acerto dessa atuação, no que tange a caracterização do político, encontra-se nos maneirismos do personagem, transmitidos de forma orgânica, sem transparecer uma caricatura, equívoco cometido em algumas aventuras de atores por papéis “parecidos” com este. Além disso, Oldman revela um Churchill mais leve quando traz risos para a plateia, os quais não baseiam-se em piadinhas de alívio cômico, mas em um humor alocado na verdade e na honestidade de suas palavras, tanto na vida doméstica quanto na vida pública. É por isso que a ideia de um momento chave da obra ser o enfoque dado em algumas mentiras proferidas pelo primeiro-ministro ao povo funciona perfeitamente; mentiras estas criticadas pelo Rei George VI (Ben Mendelsohn), um personagem que, aliado ao seu intérprete, desenvolve camadas menos superficiais e traz, na relação com Churchill, um diálogo final bem produzido. Afinal, no que se refere a um homem conhecido por deixar a verdade transparecer em seus discursos, tais atitudes certamente atacam sua integridade moral (se bem que moralmente falando o político não seja a pessoa mais íntegra de todas). Para finalizar, é imprescindível que o trabalho de figurino e, mais do que tudo, de maquiagem sejam enaltecidos. De maneira muito espetacular, todo o trabalho dessa equipe encaixa-se perfeitamente com a atuação de Oldman, colaborando para a história e para a fidelidade desta com os aspectos históricos, sem ser apenas um ornamento estético excepcionalmente bem produzido.

Todavia, o filme perde muita a força que tinha inicialmente quando nos deparamos com as evidentes falhas de seu roteiro. Dentre todas estas, a maior que deve ser comentada é a cena na estação do metrô, usada como ponto de virada importantíssimo para a história. Tal segmento nos fornece um gosto amargo e confuso de artificialidade, a qual encontra-se exposta inteiramente nessa tentativa do filme em exprimir um vínculo entre povo e governo, o qual acaba sendo, devido essa cena, extremamente bobo e ingênuo. Fora isso, também podemos perceber que, apesar de muito bem interpretada por Kristin Scott Thomas, a mulher do político, Clementine Churchill, não recebe a atenção que merecia, sendo relegada a fazer comentários sobre uma crise financeira sem nenhuma relevância para a história do filme. O mesmo não pode ser dito de Lily James, a qual, diferentemente de Kristin Scott, sai de cena sem nem mesmo justificar sua mera existência. Sendo assim, neste filme que tinha tudo para ser um drama biográfico do mais alto escalão, o saldo, apesar de positivo, não é coerente, especialmente no que permeia o roteiro, com as espetaculares atuações da obra. Diferentemente dos 300.000 soldados que estavam em Dunkirk, O Destino de Uma Nação morre na praia. Porém, mesmo com seus altos e baixos – e olha que estamos falando da atuação extraordinária de Gary Oldman como um dos pontos altos – esta é uma obra que ainda assim consegue alcançar a tão estimada vitória a todo custo de Churchill, mesmo faltando um pouco de sangue, trabalho, lágrimas e suor nessa produção que podia ser muito mais grandiosa.

O Destino de Uma Nação (Darkest Hour) – Reino Unido, 2017
Direção: 
Joe Wright
Roteiro: Anthony McCarten
Elenco: Gary Oldman, Lily James, Kristin Scott Thomas, Ben Mendelsohn, Ronald Pickup, Stephen Dillane, Nicholas Jones, Samuel West, David Strathairn, Richard Lumsden, Jeremy Child, Malcolm Storry, David Schofield, Adrian Rawlins, Benjamin Whitrow
Duração: 125 min.

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13 comentários

Zé Higídio 31 de março de 2018 - 01:34

Achei o filme detestável, deplorável. Feito na cara dura para ganhar Oscar. A atuação do Gary Oldman É o filme, e ainda às vezes parece caricata demais, mas ele merece reconhecimento pelo ator que é. Contudo, o resto do filme é uma bagunça de roteiro, os personagens secundários são, absolutamente todos, fraquíssimos: os que são importantes para a História são retratados pateticamente, e os que são importantes para a vida pessoal do Churchill são extremamente mal desenvolvidos. O filme consiste em mostrar o Churchill praguejando ou dizendo frases de efeito para personagens secundários, numa estrutura narrativa chata, manjada e intensamente preguiçosa, que tenta manter o espectador a par apenas de parte do que se desenrola. A cena do metrô é ridícula. E o filme ainda acaba com uma ceninha de heroísmo genérica que ressalta mais os EUA que seriam acionados do que o Churchill em si, e ainda trata como se a Guerra tivesse sido resolvida com aquele desfecho. O cinema precisa acabar de produzir essas biografias genéricas e mal estruturadas de figura históricas nas quais o único serviço é usar um bom ator para enaltecer esse personagem sem se apegar aos fatos da sua vida e sua jornada.

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André 1 de março de 2018 - 01:51

E eu esperando “Aces High” depois do discurso final dele kkkkkkkk grande atuação e infelizmente esses problemas de roteiro quebram um pouco da mágia que poderiam vir a ser..assim como em “Lincoln”.

Responder
André 1 de março de 2018 - 01:51

E eu esperando “Aces High” depois do discurso final dele kkkkkkkk grande atuação e infelizmente esses problemas de roteiro quebram um pouco da mágia que poderiam vir a ser..assim como em “Lincoln”.

Responder
Camilo Mateus 17 de janeiro de 2018 - 09:42

Obrigado pela crítica, Gabriel.
Particularmente, eu fiquei com a impressão que o filme presta um desserviço à história britânica, ridicularizando praticamente todos os personagens que aparecem na trama: um rei George bobinho, uma Clementine Churchill supérflua (assim como a família inteira, bastante inexplorada), um Halifax com atitudes de conspirador, não escaparam nem a secretária, nem a voz do presidente Roosevelt (parece muito mais um consumidor tentando se livrar de um atendente de telemarketing). A própria caracterização do Churchill me deixou desgostoso.

Entendo que essa foi uma abordagem adotada para humanizar os personagens, a trama e a situação, e isso funciona, ao menos relativamente. De fato, me senti desnorteado como Winston, nomeado às pressas e à contragosto de praticamente todo o Estado e Governo do Reino Unido para um ministério excepcional de guerra, com uma missão bastante clara (negociar a paz) e com uma gana igualmente evidente (ganhar a guerra), perdido na dúvida sobre qual seria sua missão.

Isso se deve quase integralmente às atuações, especialmente de Gary Oldman, que sobrepujam a fraca trama. Não fossem as atuações, não sentiríamos a gravidade da situação, a iminência de devastação de toda a infantaria britânica, a ameaça de invasão à ilha, a completa inércia dos aliados, o desespero dos soldados em Calais: tudo isso o filme nos tenta entregar e falha miseravelmente.

Nesse sentido, cena do metrô não me pareceu especialmente ruim, mesmo pela impressão geral que tive da película. É como se fosse o correspondente no roteiro do que foi feito com todos os personagens, uma caricatura. Muito pior foi o massacre dos soldados em Calais, com uma tentativa forçada de lirismo, que, mais uma vez, não entrega nada.

Pra mim, trata-se de um fraco “filme pra Oscar”, que, se é fraco em essência, pelo menos pode servir à consagração e reconhecimento de Gary Oldman como o excelente ator que é, muito embora tenha sido relegado pela indústria à condição de coadjuvante ilustre.

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Camilo Mateus 17 de janeiro de 2018 - 09:42

Obrigado pela crítica, Gabriel.
Particularmente, eu fiquei com a impressão que o filme presta um desserviço à história britânica, ridicularizando praticamente todos os personagens que aparecem na trama: um rei George bobinho, uma Clementine Churchill supérflua (assim como a família inteira, bastante inexplorada), um Halifax com atitudes de conspirador, não escaparam nem a secretária, nem a voz do presidente Roosevelt (parece muito mais um consumidor tentando se livrar de um atendente de telemarketing). A própria caracterização do Churchill me deixou desgostoso.

Entendo que essa foi uma abordagem adotada para humanizar os personagens, a trama e a situação, e isso funciona, ao menos relativamente. De fato, me senti desnorteado como Winston, nomeado às pressas e à contragosto de praticamente todo o Estado e Governo do Reino Unido para um ministério excepcional de guerra, com uma missão bastante clara (negociar a paz) e com uma gana igualmente evidente (ganhar a guerra), perdido na dúvida sobre qual seria sua missão.

Isso se deve quase integralmente às atuações, especialmente de Gary Oldman, que sobrepujam a fraca trama. Não fossem as atuações, não sentiríamos a gravidade da situação, a iminência de devastação de toda a infantaria britânica, a ameaça de invasão à ilha, a completa inércia dos aliados, o desespero dos soldados em Calais: tudo isso o filme nos tenta entregar e falha miseravelmente.

Nesse sentido, cena do metrô não me pareceu especialmente ruim, mesmo pela impressão geral que tive da película. É como se fosse o correspondente no roteiro do que foi feito com todos os personagens, uma caricatura. Muito pior foi o massacre dos soldados em Calais, com uma tentativa forçada de lirismo, que, mais uma vez, não entrega nada.

Pra mim, trata-se de um fraco “filme pra Oscar”, que, se é fraco em essência, pelo menos pode servir à consagração e reconhecimento de Gary Oldman como o excelente ator que é, muito embora tenha sido relegado pela indústria à condição de coadjuvante ilustre.

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Fernando Campos 16 de janeiro de 2018 - 12:01

Ótima crítica, Gabriel! Gostei de como você focou bastante na atuação de Gary Oldman, inclusive, citando como os elementos técnicos favorecem a caracterização do ator. Até porque, o trabalho de Oldman é disparado a melhor coisa do filme. A cena do metrô é realmente ridícula, uma das cenas mais bregas que já vi, o filme quase me perdeu ali. Mas o protagonista está tão espetacular que, mesmo que com a ruindade do roteiro, no fim, é um prazer vê-lo proferindo cada linha do que foi escrito.

Responder
Gabriel Carvalho 17 de janeiro de 2018 - 07:24

@fernando_scampos:disqus, é o famoso caso do protagonista que segura o filme. Mas eu também acho o trabalho de direção muito competente. Joe Wright entendeu que o roteiro não era lá essas coisas e colocou Gary Oldman no centro de tudo, porque esse era um ponto da obra que funcionaria. E como funcionou! Destino de Uma Nação ficou muito melhor com a atuação de Oldman. Talvez o filme fique mais fraco para muita gente que não absorver tanto a atuação de Oldman quanto eu absorvi, ainda mais com aquela cena patética no metrô. Mas o incrível é que enquanto eu assistia a cena no cinema ela não me pareceu tão estranha quanto eu achei durante a minha escrita e reflexões acerca do filme. Acredito que mais uma vez a personalidade de Churchill trazida por Gary Oldman, mesmo que ficcionalizada durante esse momento, conseguiu fazê-la parecer menos problemática.

Abraços!!!

Responder
Gabriel Carvalho 17 de janeiro de 2018 - 07:24

@fernando_scampos:disqus, é o famoso caso do protagonista que segura o filme. Mas eu também acho o trabalho de direção muito competente. Joe Wright entendeu que o roteiro não era lá essas coisas e colocou Gary Oldman no centro de tudo, porque esse era um ponto da obra que funcionaria. E como funcionou! Destino de Uma Nação ficou muito melhor com a atuação de Oldman. Talvez o filme fique mais fraco para muita gente que não absorver tanto a atuação de Oldman quanto eu absorvi, ainda mais com aquela cena patética no metrô. Mas o incrível é que enquanto eu assistia a cena no cinema ela não me pareceu tão estranha quanto eu achei durante a minha escrita e reflexões acerca do filme. Acredito que mais uma vez a personalidade de Churchill trazida por Gary Oldman, mesmo que ficcionalizada durante esse momento, conseguiu fazê-la parecer menos problemática.

Abraços!!!

Responder
Martha Mariana 15 de janeiro de 2018 - 17:15

Essa cena do metrô foi patética. Especialmente para quem leu as memórias do protagonista…. esperar que um Alto Lord do Almirantado vá discutir política externa no meio da guerra com uma criança é, pra dizer pouco, ridículo.
Poderíamos ter ido dormir sem essa.

Responder
Gabriel Carvalho 17 de janeiro de 2018 - 07:25

@marthamariana:disqus, o cinema deixando a vida real mais poética, mais romântica, mas deixando no meio do caminho, jogada no meio da rua, a verdade histórica.

Responder
Gabriel Carvalho 17 de janeiro de 2018 - 07:25

@marthamariana:disqus, o cinema deixando a vida real mais poética, mais romântica, mas deixando no meio do caminho, jogada no meio da rua, a verdade histórica.

Responder
Rafaela Oliveira 15 de janeiro de 2018 - 15:35

Louca pra assistir!

Responder
Rafaela Oliveira 15 de janeiro de 2018 - 15:35

Louca pra assistir!

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