Crítica | O Dia do Desespero

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A recorrência de Camilo Castelo Branco na filmografia de Manoel de Oliveira é algo muito interessante de se acompanhar. Grande admirador do escritor, Oliveira o inseriu em seus filmes desde o curta-metragem Famalicão (1941) e passaria por ele em Amor de Perdição (1978), Francisca (1981) indo até seu penúltimo filme, O Velho do Restelo (2014), no qual seriam mostradas algumas cenas do presente longa. Aqui em O Dia do Desespero, elegíaco filme de 1992, o diretor aborda os últimos dias do escritor, narrando partes essenciais de sua história pessoal, suas angústias de avançada idade, as doenças, as tribulações financeiras, o constante flerte com a morte e o relacionamento — complicado desde o início — com Ana Plácido.

O Dia do Desespero foi inteiramente filmado na casa de Castelo Branco, em São Miguel de Seide, e toda a necessidade de cuidado com a mobília se faz ver na forma simples adotada pelo diretor, utilizando poucos atores e movimentos mais limitados dentro da casa, ora exposta como museu, ora como espaço para a dramatização de uma vida. A força poética das imagens e do lento ritmo da fita nos ajudam a refletir sobre as questões que atormentavam o protagonista. Transitando entre um tipo de documentário e a já famosa direção teatral de Oliveira, a película evoca com muita precisão o sentimento de desespero do qual fala o título, culminando no fatídico dia em que o “biografado” se suicidou.

O roteiro foi escrito com base em algumas cartas de Camilo, além de alguns documentos oficiais e cartas de amigos ou familiares, principalmente as que foram enviadas nos meses ou dias anteriores à sua morte. A narração, feita pelos próprios atores (no formato de voz on e off) quebra a quarta parede em algumas cenas, mas logo nos leva de volta para o século 19 e exibe um pouco da vida do atormentado escritor, que em dado momento tem um acúmulo tão grande de desgraças ao seu redor, que uma parte do enredo aqui mais parece trabalho de uma trágica ficção, embora não seja. Não puramente. O fato é que todas essas coisas, originalmente separadas por alguns meses entre si, são abreviadas no decorrer do filme, dando a impressão de que aconteceram num espaço de tempo ainda mais curto do que de fato ocorreram.

Em uma específica sequência interna, de escrita de cartas em uma noite emocionalmente intensa para Camilo, o fotógrafo Mário Barroso reproduz em essência uma bela concepção de iluminação que utilizou num outro filme de Oliveira, Os Canibais (1988), também numa “sequência de quarto“. Este momento é visualmente aplaudível, tétrico, intenso, certamente o melhor ponto da fotografia na obra. Fora ele, temos apenas pequenas cenas de conjunto das quais destacam-se alguns planos, iluminação e movimento de câmera. O projeto de direção, como apontei anteriormente, é propositalmente simples, cru, mais contemplador do que narrativo. Utilizado de maneira cíclica, esse formato acaba fazendo com que sequências pouco interessantes retornem (como os terríveis minutos da roda da carruagem, sob narração), tirando da obra o pouco espaço de maior ousadia que poderia ter.

Em O Dia do Desespero, Camilo Castelo Branco é visto como alguém que sofre. Um homem de vida intensa, de diversos amores e desafetos, aparentemente forte e teimoso, mas que nos últimos dias de sua vida entende o mundo de forma muitíssimo mais sombria, e dele se afasta com uma resiliência trágica, de quem talvez percebe que nada do que fará vai afetar alguma coisa. Um filme que captura a atmosfera do desespero de um homem antes de colocar fim à sua existência.

O Dia do Desespero (Portugal, 1992)
Direção: Manoel de Oliveira
Roteiro: Manoel de Oliveira
Elenco: Teresa Madruga, Mário Barroso, Luís Miguel Cintra, Diogo Dória, Canto e Castro, Ruy de Carvalho, Nuno Melo, José Maria Vaz da Silva, Dina Treno, David Ferreira Dias
Duração: 75 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.