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Critica | O Dia em que a Terra Parou (1951)

por Luiz Santiago
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estrelas 4

Em outubro de 1940 foi publicado na revista Analog Science Fiction and Fact um conto chamado Farewell to the Master, de Harry Bates. Uma década depois, esta história seria utilizada pelo roteirista Edmund H. North para uma produção da Fox sobre a chegada de um alienígena na Terra cuja missão principal era alertar os humanos sobre o perigo que suas investidas bélicas poderiam ter para o próprio planeta e para a comunidade galática. Caso se sentissem ameaçados pelas armas terráqueas, essa Federação de Planetas poderia utilizar de sua polícia espacial (aqui representada pelo robô Gort) para transformar o planeta azul em cinzas.

Com uma mensagem pacifista e toques de messianismo e escatologia, O Dia em que a Terra Parou (1951) é certamente um dos filmes mais icônicos da ficção científica e um dos grandes sucessos do diretor Robert Wise, que assinou obras como Amor, Sublime Amor (1961), A Noviça Rebelde (1965) e Jornada nas Estrelas: O Filme (1979).

Repleto de cenas icônicas como a excelente chegada da nave de Klaatu (Michael Rennie) à Terra – as cenas de ligação com pequenas tomadas em plano geral ou panorâmicas sobre cidades do mundo são muito bem feitas e bem colocadas no filme – e seu primoroso pouso em Washington são alguns dos momentos que mostram a habilidade de Wise em fazer um filme com um tema alarmante (na linha do sensacionalismo característico das ficções científicas clássicas) e colocar em seu contexto uma reflexão profunda sobre a atitude violenta dos homens, seus meandros políticos quase infantis e a Guerra Fria então em andamento.

É uma pena que o roteiro de Edmund H. North seja organizado em espaços críticos quase isolados, com elementos que, uma vez abordados, praticamente se extinguem, exceção, claro, à mensagem pacifista que é a linha central da obra. Este é, de fato, o maior ponto negativo do texto, mas seu impacto é pequeno diante dos acertos no trabalho com o personagem principal e sua relação com os terráqueos. Não existe aqui o tratamento exótico e laboratorial que marca alguns longas do gênero, muitas vezes em filmes que não deveriam ter este tipo de abordagem. O que temos aqui é uma integração imediata entre alien e humanos, especialmente a amizade deste estranho com o garoto da pensão onde ele se hospeda.

Talvez o fato de Wise acreditar em alienígenas tenha aumentado ainda mais essa empatia para com os personagens da obra. O diretor fez questão de inserir cenas que tornassem Klaatu e Gort “amigáveis”, mesmo quando alguma dúvida sobre suas intenções estivesse em pauta. A já citada crítica à guerra, contexto que fez o Exército americano se recusar a participar do filme após ler o roteiro, também se estende à imprensa, especialmente quando se trata da alimentação de um medo construído e vendido para a população, às vezes disfarçado de “avisos anti pânico” mas que na verdade estendem uma barreira entre o alien e os “bons cidadãos” ameaçados. Em uma excelente jogada midiática, o diretor colocou jornalistas muitíssimo conhecidos da época como H.V. Kaltenborn, Elmer Davis, Drew Pearson e Gabriel Heatter para fazer pequenos cameos interpretando eles mesmos, noticiando os eventos do “homem de Marte” e sua periculosidade ou intenções.

Os efeitos especiais são primorosos para a época (ainda mais se considerarmos a simplicidade da construção da nave, com arame, madeira e gesso) e o filme ainda tem a potente trilha sonora de Bernard Herrmann como condução da trama, uma música cujo tema principal foge sensivelmente ao que era esperado para um filme de ficção científica dos anos 1950 (predomínio de música dodecafônica e cheia de sintetizadores) e tem ótimas peças melódicas no decorrer da história, mais uma vez, destacando o lado humano pretendido pelo diretor, só que com um ar mais urgente e constantes toques de ameaça.

O Dia em que a Terra Parou é um clássico em seu gênero e foi amplamente citado em outras produções com o passar dos anos, ganhando duas refilmagens, uma em 1954 (Stranger from Venus) e uma ridícula e homônima em 2008. Gort se tornou um dos robôs mais conhecidos do cinema e a frase Klaatu barada nikto um ícone da cultura sci-fi, aparecendo de maneiras diferentes em filmes como Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), Tron – Uma Odisséia Eletrônica (1982), Star Wars, Episódio VI – O Retorno do Jedi (1983) e Uma Noite Alucinante 3 (1992). Embora tenha um roteiro organizado de maneira pouco expansiva em seus temas transversais, a obra possui uma importância histórica, qualidade e valor cinematográfico gigantescos, principalmente porque sua mensagem, seja sobre a guerra ou a posição da imprensa a respeito, foi se tornando cada vez mais real e incômoda à medida que a tecnologia e os interesses de domínio e extermínio se solidificaram e só cresceram em nosso planeta.

O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still) – EUA, 1951
Direção: Robert Wise
Roteiro: Edmund H. North (baseado na obra de Harry Bates)
Elenco: Michael Rennie, Patricia Neal, Hugh Marlowe, Sam Jaffe, Billy Gray, Frances Bavier, Lock Martin
Duração: 92 min.

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8 comentários

Mestre do Espaço 9 de outubro de 2019 - 22:01

Clássico. Adoro. Mas uma dúvida: quando Klaatu é entrevistado, ele diz “tenho medo quando vejo as pessoas substituindo medo pela razão”. Não deveria ser o contrário? ele ter medo das pessoas deixarem de pensar para temerem (agressivamente) o que não entendem?

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Acepipe Satã🐂GADO, O PARCIAL 10 de outubro de 2019 - 07:37

De fato, deveria ser o contrário. Eu não me lembro dessa fala. No original a frase é essa mesmo?

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SUPRAMATY 10 de setembro de 2018 - 20:40

Gosto do remake, mas não tem como negar que o que estraga ele é o Jaden Smith. Conseguiram dar o papel mais insuportável para quem não tem talento.
Toda vez que o personagem aparece dá vontade de socar ele -principalmente pela idéia em querer “salvar” todos perto do final.
Além disso, alguns remakes deixam aquela curiosidade em saber como é o original (isso para quem não o conhecia).
Se for dar ponto negativo em termos criativos nesse, eu diria que a idéia do Gort foi a mais fraca – Rod Serling estava muito a frente dos anos quando criou The Twilinght Zone (1959). Porém recapitular a idéia de como seria o robô Gort, o remake ganha alguns pontos.
E esse de 1951 já tem um nome forte na cultura pop, então não vale apena chutar cadáver em comparar ambos.

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Luiz Santiago 17 de maio de 2018 - 01:20

Eu não acho que Keanu Reeves está (quase) sempre péssimo, mas concordo com você na parte doentia de se fazer remakes (e ainda ruins!) e grandes clássicos dos cinema. DEIXEM OS CLÁSSICOS EM PAZ!!!

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António 16 de maio de 2018 - 23:17

Filme de SCI-FI muito interessante, sobretudo tendo em conta que foi feito em 1951. Para a época, o filme contém uma arrojada e corajosa mensagem. Os atores principais estão bem. Muitíssimo melhor que o remake de 2008, que já tinha visto antes e não me agradou. O habitual com os remakes de clássicos, (quase) sempre bastante inferiores aos originais (gostava de saber porque insistem tanto em continuar a fazer remakes, já não há ideias originais?), este ainda por cima com o (quase) sempre péssimo Keanu Reeves.

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O Dia Em Que a Terra Parou – Um canceriano sem lar. 12 de setembro de 2016 - 22:59

[…] Repleto de cenas icônicas como a excelente chegada da nave de Klaatu (Michael Rennie) à Terra e seu primoroso pouso em Washington são alguns dos momentos que mostram a habilidade de Wise em fazer um filme com um tema alarmante (na linha do sensacionalismo característico das ficções científicas clássicas) e colocar em seu contexto uma reflexão profunda sobre a atitude violenta dos homens, seus meandros políticos quase infantis e a Guerra Fria então em andamento. Luiz Santiago – Plano Critico […]

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Claudinei Maciel 25 de junho de 2015 - 01:02

Um clássico, que até hoje eu assisto com o mesmo prazer. Um grande filme, num p&b impecável e excelente construção narrativa e cenas icônicas. Obrigado por lembrarem desse filme, que merece ser visto e revisto, e, que definitivamente, não merecia aquela refilmagem sem alma com o inespressivo Keanu Reeves, que não chega aos pés do original. Clássicos deveriam ser intocáveis, deveria haver o respeito que merecem, mas a patuléia hoje aceita qualquer coisa e os bolsos continuam jorrando doletas, então assim gira o mundo. Eu abomino, remakes e assemelhados, sou fã dos filmes originais e não consigo aceitar de bom grado a maioria das refilmagens. E esse site está de parabéns pelo trabalho!!!

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Luiz Santiago 25 de junho de 2015 - 18:41

Eu também acho que clássicos jamais deveria ser refilmados! É de fato um desrespeito isso…

E obrigado pelo elogio, @claudineimaciel:disqus! Fico feliz que tenha gostado das críticas encontradas aqui! Volte sempre!

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