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Crítica | O Diabo (1972)

A potência da subversão cinematográfica.

por Fernando JG
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Depois da estranhíssima estreia de A Terça Parte da Noite, o filme que assinala a experimentação destrutiva no cinema europeu de Andrzej Zulawski não poderia ser outro senão O Diabo, longa este que define as características autorais que farão parte de toda a sua obra daqui em diante. A estética da destruição presente na sua filmografia tem um ponto de partida fundamental, que é a turbulenta vida político-social no chamado Leste Europeu durante todo o século XX. É deste horror ambientado na esquisita atmosfera do Leste, do qual Zulawski é um representante de vanguarda, que muitos longas de terror se inspiraram para produzir os seus enredos. Zulawski é um cineasta moderníssimo, de vanguarda, e muitas vezes está a dois, três passos à frente de todo o seu público, que sai, quase cem por cento das vezes, sem entender o que assistiu. Zulawski transgride o cinema e desafia a crítica com suas produções. 

Símbolo, metáfora e alegoria são as bases de suas produções, e não há, em seus filmes mais bem produzidos, um que não seja de difícil leitura. Na crítica de Possessão, havia dito que o seu terror optava por uma linguagem complexa, difícil, e que era tão estranha a sua cinematografia, que causava incômodo. Reitero tudo o que disse quando fiz a crítica da sua obra-prima e adenso ainda mais: O Diabo, o seu segundo longa-metragem, é definitivamente o seu filme maldito, e ele não se acanha ao permitir uma trama em que temas como o satanismo, o profano e o sagrado, o incesto, o homicídio, o adultério, a inveja, a corrupção, o pacto com o demônio, entre outros temas de estética negativa, construam um filme que é quase uma experiência da descida ao inferno. Os dez primeiros minutos de Diabel são tão horrorosos e medonhos que é como se te levassem para um tormento eterno de agonia e sofrimento. Este é o Andrzej Zulawski em sua primeira fase. 

O Diabo conta com algumas particularidades. Uma delas é que este é um filme histórico, ou seja, é ambientado em um certo período da História e se utiliza dos acontecimentos deste período como um motor do enredo. O filme é retratado no século XVIII, durante a partilha da Polônia, e serve-se deste acontecimento para fazer uma crítica ao regime socialista polonês, que durou entre 1945-1989, retratando os horrores de uma nação em ruínas e a histeria coletiva. A outra é que o longa é metáfora dentro de metáfora, até porque ele tinha de fugir da censura das autoridades políticas, por isso ele é inteiro de um horror surreal. Ainda assim, o longa foi censurado à época e o cineasta teve de se refugiar na França, foi quando produziu O Importante é Amar, em 1975. 

A película se inicia como uma entrada no submundo, com gritos de todos os lados, rangidos, histeria e pavor nos rostos dos personagens que passam rapidamente pela câmera, e logo conhecemos Jakub (Leszek Teleszyński), um jovem conspiracionista que está preso por atentar contra a vida do rei. Um misterioso homem encapuzado (Wojciech Pszoniak) aparece na prisão para salvá-lo, e este homem é o Diabo. Ao libertar-se, Jakub vai ao encontro de tudo o que deixou para trás: família, esposa, amigos. No entanto, descobre que sua esposa o traiu e está com o seu melhor amigo; seu pai se matou com um tiro na cabeça; sua mãe, aparentemente, tornou-se meretriz; sua irmã enlouqueceu e sua casa já não existe mais, pois foi incendiada. E então acompanhamos a odisseia do jovem Jakub pela Polônia, junto de uma freira que ele resgata no meio do caminho. Através desta viagem, ele conhece os mais diversos tipos de gente, passando pela bondade e pela maldade em igual proporção. Jakub tenta recuperar sua vida de volta, mas tudo já está totalmente sob o domínio de um mal atmosférico sufocante.

Um dos grandes trunfos do cinema de Zulawski é a manipulação da trilha sonora. A combinação imagética com essa sonoridade grave, que induz sempre uma iminência de algo, ou seja, que sempre prepara para um acontecimento terrível, é uma de suas grandes apostas, e eleva a tensão rumo a um clímax que só ameaça, mas nunca chega, e que apavora demais. O início do longa é assustador justamente por conta da entrada com essa sonoridade específica do gênero do terror. A paleta de cores escolhida pelo cineasta é, como em outras produções, impecável. O seu cinema é responsável por promover um horror que pensa o lado estético, influenciando claramente uma gama de diretores, como Guadagnino. O azul gelado já é uma característica marcada e a opção de estender esta paleta para toda a atmosfera fílmica traz uma tensão profunda na parte visual propriamente dita. Com isso, a câmera passeia como dentro de um pesadelo, servindo como um meio de captar toda essa proposta estética do cineasta, causando uma catarse que não fascina, mas assombra cruelmente. O início do longa é insuportável e opera como uma mimese do inferno. 

O drama histórico se utiliza de uma violência censurável à época, e assim foi feito. A potência da subversão cinematográfica vai atingindo níveis e simbologias tão profanas que nas primeiras cenas a freira Zakonnica (Monika Niemczyk) constantemente parece ter orgasmos durante uma fuga à cavalo, segurada por Jakub numa cavalgada que, pelas expressões, não insinuam outra coisa senão a blasfêmia que é uma freira em coito. A obscenidade que mistura o profano e o sagrado é um ponto alto do filme, e seus gemidos evidenciam a intenção de provocar e mexer com as estabilidades do dogmatismo católico. O maravilhoso cristão é totalmente subvertido. A viagem de Jakub com a freira lembra muito o absurdo Fando e Lis, de Jodorowsky. As personagens femininas são constantemente histriônicas e os personagens masculinos acometidos por excessos de loucura. Quem viu a gritaria de Possessão não se espanta em descobrir que Diabel é do mesmo diretor. Todas as características estão lá, sendo mesmo inconfundível o seu modo de trabalho. 

O mais interessante deste filme é a sua estrutura permeada pela presença do Diabo. Todo o longa ocorre manipulado pela presença caótica do demônio. O argumento do longa é bem simples: Jakub vai preso e quando sai da prisão tudo está diferente. Com isso ele vai buscando saber o que aconteceu durante este hiato. Jakub se revolta com muitas mudanças, e se questiona se o mundo é tão horrível como parece ser ou se há algo de belo nele. A sua odisseia segue a seguinte linha: prisão, floresta, encontro com a companhia de teatro, ida ao palácio e à casa de seus pais e encontro com a mãe. Depois tudo se repete circularmente. A grande questão é que tudo isso acontece de modo confuso e o segredo para desvendar essa bagunça de vanguarda proposta por Zulawski está no título: O Diabo. Tradicionalmente, nas narrativas que contém a presença do Diabo, a função estilística que cabe a ele dentro do enredo é uma: confundir. Na herança judaico-cristã, a figura do demônio sempre traz consigo o embaralhamento e uma bagunça, já que ele é o Pai da Mentira. Então fica claro que essa narrativa confusa se deve a ele. O filme, que é pura bagunça alegórica, se utiliza do tema e da presença do Diabo para poder confundir não só o enredo em sua dimensão temático-estilística, mas também as autoridades políticas, tentando escapar da censura do regime socialista. O Diabo é o Fausto de Andrzej Zulawski. O pacto está lá, e ao fim, quando o Estranho morre, ele torna-se um cachorro preto, a figura do Cão, como no Fausto de Goethe, em que Mefistófeles transforma-se em um cachorro preto. 

O filme é produzido sob o domínio do Mal, que é o regime ditatorial. Mas na camada metafórica ele é inteiro atmosfericamente dominado por figuras maléficas, malignas e diabólicas, e o Diabo conduz Jakub em seus maiores crimes, fazendo-o acreditar em suas próprias mágoas e impulsionando-o a cometer atos de purgação, assassinando quem ele acha que deve ser morto. O mal está também atrelado à uma dimensão política. É uma película difícil de ser assistida porque ela é por inteira um estado permanente de desgraça, em contraposição aos estados de graça que conhecemos.

Provocativo, moderno e vanguardista, o início do cinema de Zulawski mostra-se sem medo algum de mexer com o oculto e com o desconhecido, ainda que esse estranho e não familiar surja de algo tão familiar. A vitória do bem sobre o mal encerra o seu longa metragem, que descansa depois de um tormento que parecia eterno, como a proposta cristã de inferno. O Diabo é uma chave essencial para toda a sua obra e evidencia o talento e o gênio de um jovem cineasta que lidou com a arte como experimento estético, desafiando os limites da arte cinematográfica e de todos os seus artifícios de composição. 

O Diabo (Diabel – Polônia, 1972)
Direção: Andrzej Zulawski
Roteiro: Andrzej Zulawski
Elenco: Wojciech Pszoniak, Leszek Teleszyński, Małgorzata Braunek, Iga Mayr, Wiktor Sadecki, Michal Grudziński, Maciej Englert, Monika Niemczyk
Duração: 119 min. 

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