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Crítica | O Diabo de Cada Dia

por Luiz Santiago
10942 views (a partir de agosto de 2020)

Narrativas orais fazem parte da cultura de todas as nações do mundo, com diferentes níveis de importância. Mesmo progressivamente apagado pela tecnologia e pela menor interação entre as gerações mais antigas e as mais jovens (ao menos em cenários cosmopolitas), esse estilo de contar uma história ainda consegue sobreviver no imaginário popular, pois todos nós já o vivenciamos quando crianças, entreouvindo longas conversas de adultos sobre esta ou aquela pessoa/situação; ou nós mesmos já estivemos em situações onde longas conversas de algum fundo moral nas entrelinhas foram travadas em rodas de amigos ou familiares, noite afora. Essa mitologia popular tem a capacidade de condensar e estender atos, mesclar tempos e, não raro, atravessar gerações pela narrativa. E é justamente esse tipo de conto que temos aqui em O Diabo de Cada Dia, adaptação do romance de Donald Ray Pollock, que também narra o filme.

Como em todo bom “causo“, o espectador encontrará aqui uma longa jornada que elenca tragédias e paixões humanas ao longo do tempo, com alguns núcleos desenvolvidos paralelamente, mas que pouco a pouco irão se conectar à família Russell. E o roteiro utiliza esses diferentes espaços para mostrar como os mais diversos atos de violência, às escondidas ou às claras, são cometidos, combatidos e principalmente transmitidos para os descendentes. O diretor e roteirista Antonio Campos convida o espectador a pensar sobre as guerras que moldaram cada geração (começamos o personagem de Bill Skarsgård voltando da 2ª Guerra e terminamos com a possibilidade de o personagem de Tom Holland ir lutar na Guerra do Vietnã) e como esse horror macro consegue se refigurar em uma porção de micro-guerras, afetando apenas algumas pessoas em pequenas cidades, mas nem por isso sendo menos infame.

O curioso é que justamente a escolha que dá ao filme essa aura de “lenda de outro tempo” como reflexão para que possamos entender o nosso, acaba lhe fazendo um enorme desserviço, por ser demasiadamente expositiva e utilizada de forma preguiçosa pelo diretor, como um a agulha de continuidade. Como a história atravessa diferentes décadas (cada uma muitíssimo bem representada pela equipe de figurinos), era evidente a necessidade de um recurso inteligente e dinâmico com o objetivo de fazer o espectador acompanhar as passagens e notar em cada fase as perigosas fixações dos personagens, com destaque para a fé cega ou irresponsável — lembrei-me do fanatismo abobalhado que serviu como um convite à morte para Tore, em Nada de Mau Pode Acontecer — e para os desarranjos sociais e íntimos que facilitam a proliferação desses problemas. O resultado nós conhecemos até hoje: a maioria dos criminosos sequer é responsabilizada pelo que fez e frequentemente leva pessoas muito jovens à morte.

Cada esquina da História tem o seu diabo. Nós os conhecemos por desequilíbrio mental, por psicopatia, por feminicídio e por tantos outros nomes que às vezes as narrativas populares não dizem ou não conhecem. Mas certamente já ouviram falar frases como “ela está alucinando“, ou “a culpa não é minha” e também “eu fiz isso porque ouvi a voz de Deus“. O horror parece esperar a cada indivíduo, em cada esquina, com requintes de detalhe ou simples e direta crueza para fazer o que deve fazer: o seu ato diabólico que serve como alimento para algum conhecido “pecado“, do prazer sexual à busca e manutenção do poder. De uma figura de autoridade podre como o reverendo vivido brilhantemente por Robert Pattinson ao o indivíduo que parece atravessar a vida apenas reagindo aos males que o rondam (personagem de Tom Holland, que tem uma interpretação decente aqui, mas nada tão glorioso, como ouvi dizer), parece sobrar apenas a lembrança de algo realmente bom da vida, ocorrido há muitos anos.

E talvez seja esta a grande obra do diabo em cada dia: preencher o tempo da humanidade com sangue, dor e apenas a lembrança de algo bom que provavelmente nunca mais irá voltar. A nossa sorte é a insistência na luta e o dom de trazer a esperança à mesa, como faz Arvin, na cena final do filme. Na narrativa, seu ciclo foi completado da forma como começou: violentamente, em uma ótima sequência na floresta, fechando também o arco do Xerife vivido por Sebastian Stan. O fato de Arvin estar vivo abre a possibilidade de uma mudança, da criação de uma família, de uma vitória sobre o diabo da violência que o moldou e perseguiu. Ou talvez essa seja apenas a calmaria antes da tempestade ele realmente durma… para nunca mais acordar.

O Diabo de Cada Dia (The Devil All the Time) — EUA, 2020
Direção: Antonio Campos
Roteiro: Antonio Campos (baseado na obra de Donald Ray Pollock)
Elenco: Robert Pattinson, Tom Holland, Bill Skarsgård, Haley Bennett, Riley Keough, Harry Melling, Sebastian Stan, Mia Wasikowska, Eliza Scanlen, Jason Clarke, Douglas Hodge, Drew Starkey, Given Sharp, Lucy Faust, Abby Glover, Michael Banks Repeta
Duração: 138 min.

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51 comentários

JC 6 de janeiro de 2021 - 19:38

Fiquei surpreso! Pra mim esse filme levaria 4 estrelas fácil aqui!

E definitivamente, dei a cara a tapa pro Pattisson…ele é Excelente. Caramba!
Holland também não ficou atrás.

Amei o filme.

Eu até fiquei brincando com meus pensamentos ” Esse é um filme ateísta”.

Pois o tanto de desgraça que acontece com os crentes a deus. .tá doido!

Responder
Luiz Santiago 6 de janeiro de 2021 - 19:39

Não é? A gente fica até pensando: mas cadê Deus? HAHAHAHHAHAHAHHA

E Robert Pattinson tá fantástico!

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Cleibsom Carlos 2 de janeiro de 2021 - 22:17

O filme é uma diluição dos irmãos Coen dos bons tempos, mas como as coisas não parecem estar muito boas para o cinema, é muito melhor se deparar com uma diluição razoável do que com a pretensão, a pose, a afetação e a soberba de novos diretores sem talento metidos a descolados.

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Lucas Santos 16 de novembro de 2020 - 18:27

Gostei muito do filme. Concordo que a narração incomoda um pouco, principalmente da metade pro final do filme, mas nada que estrague todo o conjunto da obra, na minha opinião.

Responder
Lara Loira 30 de setembro de 2020 - 01:24

dormi antes do final e nem pensar rever, um porre

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Luiz Santiago 1 de outubro de 2020 - 16:53

hahahhahahahahhah tem filmes que são uns soníferos para nós mesmo. Não foi o meu caso com ESSE filme, mas entendo a crise de sono.

Responder
Jose Claudio Gomes de Souza 28 de setembro de 2020 - 21:27

Mais um belo trabalho do Robert Pattinson que vem queimando a língua de muita gente (inclusive a minha! Kkkk.) Achei bom, com belas locações e reconstituição das épocas. Gosto desse tipo de filme, com histórias que vão caminhando e acabam por se entrelaçar.

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Luiz Santiago 29 de setembro de 2020 - 10:31

Robert Pattinson é um ótimo ator. Infelizmente ainda é visto por muita gente com o estigma do vampiro de Crepúsculo.

Responder
Carlos Bruno 28 de setembro de 2020 - 21:27

Eu daria nota 4 pra esse filme, a narração é um fator que não me incomoda, gosto de absorver muita informação com facilidade, mas se fosse algumas nuances no lugar da narração creio que seria um filme mais complexo, mas igualmente bom.

SPOILER
SPOILER
SPOILER

Não gostei da última morte (Xerife), pra mim não fez sentido nenhum ele ir atrás do Arvin, a preocupação mais forte dele com sua irmã era sobre sua própria imagem, que ele mesmo teria enterrado queimando as provas.

Responder
Luiz Santiago 29 de setembro de 2020 - 10:31

Ele é o Xerife da região. Faz sentido ele ir atrás do Arvin, por um ponto de vista puramente profissional, sem contar que ele tinha a própria imagem que queria proteger e tals.

Responder
Cristiano Leal 1 de outubro de 2020 - 16:53

Que bom que ao menos o Carlos frisou o spoiler, aviso que faltou no início de seu artigo… Ainda bem que eu vi o filme antes de ler, mas imagino como será, para outras pessoas que não tenham essa sorte, saberem de antemão quem vive, quem morre e até a cena final do filme, não é?

Responder
Luiz Santiago 1 de outubro de 2020 - 20:59

As infos do meu texto são cedidas pelo próprio trailer e realeases oficiais do filme. As que eles ocultam oficialmente, eu também oculto. Assim, não é necessário um aviso específico de spoiler.

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Cristiano Leal 1 de outubro de 2020 - 23:05

Ainda tenta explicar — mas não consegue justificar a sua ação. Desse modo você nega o direito do expectador de ter a experiência de usufruir da narrativa por inteiro, você estraga a experiência. Mas tudo bem, para mim será muito fácil evitar esse tipo de atitude de sua parte: de agora em diante verificarei antes o autor do artigo para ver se vale ou não a pena eu ler.

Luiz Santiago 1 de outubro de 2020 - 23:09

Não tentei explicar nada. Nem preciso de justificativa alguma. Estou comentando teu comentário. Fato é fato. Tudo o que está no meu texto está no trailer e está nos realeases oficiais do filme encontrados em qualquer lugar. Ponto final. E eu não tenho o poder de negar espectador nenhum usufruir filme algum. Eu tenho poder de gerar o debate, só isso.

Se tens problema com o conteúdo comentado, envie um e-mail para a distribuidora do filme e pergunte por que ela disponibilizou esses elementos e não os guardou.

Quanto à sua facilidade na vida de agora em diante, é aquela velha história: você está supostamente em um país livre. Esbalde-se!

Al_gostino 28 de setembro de 2020 - 21:27

Gostei do filme, bem dirigido, atuações impecáveis, boa ambientação e fotografia….daria uma nota maior rsrs…abs parabéns pela análise

Responder
Luiz Santiago 29 de setembro de 2020 - 10:31

Que bacana que gostou do filme, @disqus_RYJJohc0X7:disqus! Fala aí, que nota tu daria?

Responder
Al_gostino 29 de setembro de 2020 - 10:38

Luizão na dúvida aqui se pra mim seria 3,5 ou 4
..enfim bom filme, sua nota para mim está ok tbm ! Abraçao

Responder
Alan 21 de setembro de 2020 - 13:36

Achei o filme mediano. Tem entretenimento, mas tem falhas. O diretor parece que bebeu da fonte do diretor de Green Book, algumas cenas deveras explicado pela lente da câmera, parecendo que o telespectador não tem capacidade intelectual de entender nuances. Isso já fez o filme me perder. A narração fez a nota cair mais ainda.

Por falta de tempo, tive que ver o filme em duas partes. Vi 45 minutos e estava gostando bastante e achando que a narração agregava e não entendendo o motivo das pessoas estarem reclamando dela. Quando acabei o filme, conseguir entender. Não precisava de tudo aquilo.

As interpretações e a crítica a religiões foi o ponto alto para mim.

No final eu gostei do filme, mas será aquele tipo de filme que daqui uns meses terei esquecido e talvez em menos de um ano tenha dificuldade de lembrar da história.

Responder
Luiz Santiago 21 de setembro de 2020 - 17:03

O elenco aqui está realmente maravilhoso, mas de fato, o filme tem seus problemas. A narração é o maior deles, mas dada a característica do enredo, cada espectador pode sentir ou se incomodar mais com algumas delas…

Responder
O Arrebatado Cartman 21 de setembro de 2020 - 03:39

Um forte crítica a fé desmedida em algo, não precisa ser fé religiosa apesar dessa ser a mais comum, e aqui mostra que a fé exacerbada não apenas corrompe quem acredita, como o pai do Miranha, como tmb quem o prega, seja em acreditando tmb como o pastor pai da menina quanto naqueles que percebem o poder de manipulação que tem nas mãos.
Por isso eu acredito – ou tenho fé – que no final ele entrou na Kombi do Charles Manson, além da aparência o ano é o mesmo dos assassinatos e ele estava indo pra Cincinati, cidade onde ele nasceu.

Responder
Luiz Santiago 21 de setembro de 2020 - 04:10

O filme realmente dá espaço para a gente pensar por aí. E cara, isso é triste demais…

Responder
Alexandre Tessilla 21 de setembro de 2020 - 00:31

Gostei do filme, e realmente a narração excessiva incomodou um pouco. Em certo momento parei de prestar atenção na narrativa e prestei mais atenção nas interpretações. O narrador poderia ter dado mais profundidade, tornando a narrativa um pouco mais pessoal, nos fazer pensar que ele realmente faz parte da história. Mas ficou parecendo somente alguém lendo umas passagens do livro em voz alta. Um filme bom com ótima narrativa que me veio à cabeça é “Conta Comigo”. Ela complementa a história, na minha opinião. Quanto aos demônios da história, são realmente temas pesados. Difícil não ficar enjoado com certas atitudes repugnantes de pessoas que se apresentam como a salvação, para muitos que sofreram na vida, e no final só prolongam esse sofrimento para nutrir seus próprios demônios internos.

Responder
Luiz Santiago 21 de setembro de 2020 - 03:15

Pois é. Pessoas verdadeiramente perturbadas querendo purgar o mundo de “demônios”. É quase a representação do ditado “o sujo falando do mal lavado”.

Responder
Luis Gonçalves 18 de setembro de 2020 - 21:54

I saw her today, I saw her face
It was the face I loved, and I knew
I had to run away
And get down on my knees and pray, that they go away
Still it begins
Needles and pins

Responder
Cleber Rosa 18 de setembro de 2020 - 15:26

Filmaço….

E a Netflix…..A Netflix acertou DE NOVO!!!!! rsrsrsr

Responder
Luiz Santiago 18 de setembro de 2020 - 15:42

É um bom filme.

Responder
Cley 18 de setembro de 2020 - 14:29

O Livro é bem mais completo, sendo muito melhor no quesito de conectar as histórias entre si. Além de que lá os personagens são bem mais desenvolvidos (O Casal de Serial-Killers são praticamente os protagonistas do livro, já no filme tem um papel de coadjuvantes).

Melhor interpretação do filme tem que ser do Robert Pattinson, que com pouco faz muito !

Responder
Luiz Santiago 18 de setembro de 2020 - 15:42

Adaptações certamente tomam caminhos diferentes da obra, pelo bem, pelo mal. Veja outra adaptação recente, também da Netflix (Estou Pensando em Acabar com Tudo) que faz um trabalho bem diferente, para melhor, do que essa aqui.

Responder
cleverton 18 de setembro de 2020 - 13:19

Deixa eu perguntar, substituíram as estrelinhas da nota pelo que mesmo? Eu não consegui identificar kkkkk são bombas?

Responder
Luiz Santiago 18 de setembro de 2020 - 15:26

Resposta para esta e outras perguntas sobre tudo relacionado ao site, com completo contexto, aqui: https://www.planocritico.com/editorial-2020-um-novo-plano-critico/

Responder
cleverton 19 de setembro de 2020 - 18:27

Okay, obrigado!

Responder
Robson Costa 18 de setembro de 2020 - 12:39

Embora a narração, muitas vezes fique redundante no cinema (tem que saber fazer) pois a imagem já mostra. Eu, geralmente, gosto muito de filme narrado. Acho que é porque adoro literatura e termino gostando de filme narrado. Mas é perigoso por cineasta que não sabe fazer.

Responder
Luiz Santiago 18 de setembro de 2020 - 15:26

Cinema é uma arte da imagem, o texto é um complemento artístico. A regra do bom cinema é: me mostre, não me conte. Mas como sempre, contexto é tudo. SE o enredo pede e cabe, uma boa narração é sempre válida. E aqui funciona parcialmente. Agora, exposição demasiada, redundância e boicote do próprio roteiro em detrimento da narração… aí fica difícil.

Responder
Paulo Manuel Paiva Almeida Sil 18 de setembro de 2020 - 01:43

Uma das coisas que mais gostei é a narração… hehe Gosto bastante de filmes com narração, mesmo às vezes não acrescentando em nada, é como se estivesse validando aquilo que você está vendo. Gostei do filme, nota 7,5.

Responder
Luiz Santiago 18 de setembro de 2020 - 01:44

É aquela coisa: tem gosto pra tudo! Hehehehehe

Responder
santos 18 de setembro de 2020 - 00:33

Filmaço!!! Roteiro bem amarrado, atuações memoráveis e chocante.

Responder
Luiz Santiago 18 de setembro de 2020 - 00:33

A narração não te incomodou?

Responder
santos 18 de setembro de 2020 - 00:33

Nem um pouco, o narrador é um dos autores do romance original e quis manter a proposta do romance, achei bem bacana e imersivo.

Responder
Luiz Santiago 18 de setembro de 2020 - 00:53

Eu sei, eu comentei isso no texto, inclusive meu argumento é construído em cima desse tipo de abordagem no filme, que infelizmente sai dos trilhos para uma exposição desnecessária e que mina a obra…

Se não te incomodou nem um pouco, então ok.

Responder
ADILSON 23 de setembro de 2020 - 23:25

Concordo com vc, tmb achei um Filmaço! Aliás comigo ele funcionou demais e a narração não me encomodou, apesar de que em alguns momentos confesso q precisei voltar alguns trechos hehe.

Nellio Vinicius 17 de setembro de 2020 - 19:52

Criei uma certa expectativa por causa do elenco, mas é um filme regular pra bom, traz temas importantes, destaco o abuso sexual de líderes religiosos e a reprodução de comportamentos violentos de pai pra filho, e não vi sentido matar o cachorro, só pra demonstrar que o willard era bitolado da cabeça, pelo olhar dele você já sabe. E fiquei com muita pena da Lenora, a menina praticamente só teve problemas e morrer daquele jeito; o arco do casal psicopata, do xerife, foram muito corridos, acho que se fosse uma minissérie o desenvolvimento dos personagens poderia ser melhor, maaaaaaas como filme você acaba não reagindo aos personagens, você não se envolve.

Responder
Luiz Santiago 17 de setembro de 2020 - 20:37

Os atos têm uma característica de autocontenção curiosa, realmente parece uma série, o que não é bom. De um lado, dá para entender a abordagem porque o tema central aqui fala muito sobre todo mundo. Mas eu preferiria que tivesse menos blocos e melhor desenvolvimento para os personagens. Além da retirada ou diminuição drástica da narração.

Responder
Bruno [FM] 17 de setembro de 2020 - 15:06

Achei que fosse ver um filme sobre fanatismo religioso, e vi um filme sobre psicopatia e vários transtornos mentais. Não que o fanatismo não seja um transtorno, mas o que vemos nesse filme vai MUITO além do fanatismo. Coisa que nenhum torcedor “roxo” de futebol é capaz de fazer pelo seu amado time acho (não, péra…)

“O diabo de cada dia” é um filme que possui um ponto importante ao acaso: o de como muitas vezes o destino nos coloca diante de pessoas ruins (fazendo jus ao seu título), e como podemos cruzar o caminho de psicopatas, pedófilos, estupradores, corruptos, babacas do Ensino Médio, e nos questionar o motivo de estarmos tão cercados de pessoas assim. Como a vida nos coloca em situações que de fato, nos fazem pensar que seria melhor nem ter saído do útero. Essas coisas, são sim, reais. O mundo é assim. Real e cruel. O problema é que nesse filme tudo é exposto de forma CEGA.

Filme de erros e acertos. Roteiro traz temas polêmicos à tona, mas no quesito “cinema” deixa muito a desejar. O filme é INTEIRO narrado (primeira vez que vejo isso, e assim, que saco!) Parece que duvidaram da nossa capacidade de entender o que estava acontecendo e colocaram um narrador para explicar as 2 horas de filme. Gosto quando uma história tem uma singela narração no início, e quem sabe no final, mas nossa! O filme TODO fica difícil, por mais bonita que a voz seja. A direção é modesta. Trilha sonora não existe. E o que temos é apenas assuntos polêmicos, cenas de violência à la Martin Scorsese e atuações que vão do normal ao bizarro.

No fim tudo fica mastigadinho e previsível, e a sensação de justiça própria da história agradará a muitos. É um filme que tinha tudo pra chamar atenção de premiações com um elenco promissor, mas que infelizmente faltou cuidado. Não tenho preconceito com filmes originais de streaming, só espero que eles mesmos não gerem isso em nós com o tempo.

Responder
Luiz Santiago 17 de setembro de 2020 - 16:12

A narração faz ficar assim. Ela mina a obra por uma exposição que insiste em trazer coisas que a gente está vendo ou fazer comentários que em nada acrescentam, chega uma hora que a gente perde a paciência.

Quanto à temática, é aquela coisa curiosa de que gente ruim existe em todo lugar. Mas acho bem mais perigoso, como vemos aqui em diversos momentos, quando esse tipo podre de pessoa está num ambiente religioso e principalmente se é uma figura de destaque na tal igreja. Porque aí não só cometerá suas violências como transmitirá isso, normalizará isso na mente de centenas, milhares de pessoas. Tá aqui o Brasil cristão (em sua maioria, não em sua totalidade) que não me deixa mentir.

Responder
Fabricio Aragão 17 de setembro de 2020 - 17:27

Também não gostei muito da narração, mas imagino que foi usada como recurso pra essa atmosfera de “conto de terror” e não para somente explicar o enredo.

E concordo com você, esse filme tinha de tudo pra abocanhar vários prêmios, mas ele tem uma montagem péssima!

Responder
Victor Martins 17 de setembro de 2020 - 13:08

O filme é bem mediano, mas é mediano mesmo.

Não havia necessidade de ter uma narração, que não acrescenta muita coisa pro filme, a não ser o fato de anunciar pro público o desenvolvimento dos personagens que deveria ter sido feito em tela.
Acabou que os personagens são subdesenvolvidos, e o filme tinha tempo suficiente para fazer isso, sendo o Xerife e a Leonor os principais exemplos.

A prova disso é que, mesmo com inúmeras desgraças acontecendo no filme, e ele sendo bastante violento, sombrio e deprimente (e até meio gratuito nesse aspecto), eu não conseguia me importar com os personagens, algo que certamente não era a intenção.
Se o Lars von Trier tivesse dirigido isso, seria uma desgraceira maior ainda, só que seria uma desgraceira boa pra caramba.

As atuações salvam de ser uma bomba, especialmente o Robert Pattinson, mais uma vez espetacular, Tom Holland, mostrando que tem futuro como ator, e a Riley Keough, que é uma atriz bastante subestimada que merecia mais holofotes.

E cada dia que passa estou mais ansioso para The Batman. Tem tudo para ser o melhor filme do Batman com o melhor Batman dos cinemas.

Responder
Luiz Santiago 17 de setembro de 2020 - 15:06

Não acho o filme mediano, vejo-o acima da média, mas só isso mesmo. A narração é o problema maior da obra, tanto que é o único aspecto que coloco no meu argumento da crítica. Pesou bastante mesmo. Ainda assim, a história consegue encontrar seu caminho para algo interessante, quando não boicotada pela narração…

Responder
samuel marques 17 de setembro de 2020 - 11:14

Um filme que mostra o quão podre o ser humano pode ser, e o que uma pessoa que é rodeada por essa violência pode agir, essa violência que é justificada muitas vezes pela religião, pessoas que dizem estar sendo orientados pela palavra de Deus, uma realidade que podemos ver também nos dias de hoje, é interessante reparar que em alguns momentos vemos que algumas ações são feitas por pessoas que realmente acreditam naquilo falam, já em outro momento um personagem apenas usa esse argumento religioso para se aproveitar da fé alheia, gostei da visão do filme nessa dualidade, que mesmo sendo diferentes em suas intenções, são iguais no aspecto final.

Responder
Luiz Santiago 17 de setembro de 2020 - 15:06

Os que utilizam a fé como instrumento de violência. É tenebroso. E isso pode se dar de diferentes formas, desde o discurso (aquela pregação do reverendo, claramente se referindo à menina que ele abusou) até os casos de violência mais direta mesmo, física. Quantos cristãos, homens de bem, supostos defensores da palavra, não são pegos aí agredindo e até matando desafetos? Caso mais recente aí é o da Flor de Lis… Mas esse tipo de violência também segue nos discursos de púlpitos e cultos de doutrina Brasil e mundo afora. Fanatismo religioso é uma verdadeira desgraça humanitária.

Responder
Léon 18 de setembro de 2020 - 02:37

“Os que utilizam a fé como instrumento de violência. ”
É triste, não é?

Você mesmo diz que é tenebroso e realmente é.
Não tenho palavras que descrevam bem o significado deste ato tão hediondo.

Não querendo me parecer óbvio e redundante, mas já temendo sê-lo:
O ser humano é a criatura mais ambígua que conheço. Capaz de atos (em todas as esferas possíveis) tão belíssimos e de outros tão repulsivos. A fé é um dos vários exemplos disto. Algo que, independentemente do credo, deveria trazer conforto, auxílio e força na noite mais escura. E júbilo, união e glória no dia mais claro (perdoem-me, contudo, não consegui evitar a singela referência). Porém, que muitas vezes acaba sendo utilizada – desde que se tem conhecimento – para isto: instrumento de violência, de controle hegemônico, de justificativa cega e hipócrita para qualquer barbaridade terrível que o ser humano perverso deseja fazer. É triste.

Enfim, acabei sendo piegas, mas não pude evitar.

Responder
Luiz Santiago 18 de setembro de 2020 - 02:46

Mas você tem razão. Nós somos ambíguos mesmo. E essa dualidade em corpos e mentes doentes, descontrolados ou impulsionados por uma crença, ideologia ou coisa parecida, é uma receita mortal. Não tem como não ser filosófico nesses momentos e começar a pensar sobre a natureza e a própria existência humanas…

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