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Crítica | O Discreto Charme da Burguesia

por Ritter Fan
2006 views (a partir de agosto de 2020)

Luis Buñuel achava que estava se repetindo demais e havia decidido que, depois de Tristana, Uma Paixão Mórbida, encerraria sua carreira. Se ele estava fazendo charme ou não, nunca saberemos com certeza, mas a história nos mostrou que Buñuel dirigiria, em seguida, três de seus maiores clássicos, começando com O Discreto Charme da Burguesia, passado por O Fantasma da Liberdade e encerrando sua brilhante carreira com Esse Obscuro Objeto do Desejo.

Conta a lenda que, incomodado por esse sentimento de “repetição”, Buñuel foi conversar com seu co-roteirista de tempos, Jean-Claude Carrière, para explicar sua situação. Não demorou  muito e Buñuel também encontrou-se com o produtor Serge Silberman que lhe contou sobre um dia em que esquecera que havia combinado um jantar com seis convidados, somente para dar de cara com todos eles à sua porta e tendo que se virar para lidar com os amigos esfomeados.

Essas fagulhas – repetição e jantar esquecido – foram suficientes para dar nova partida à mente surreal de Luis Buñuel e ele e Carrière partiram para escrever o roteiro do filme que viria a ser indicado ao Oscar de Melhor Roteiro e cujo resultado final efetivamente ganharia o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1973. Nada mal para quem estava se achando repetitivo, não?

Mas a repetição é mesmo um tema central em O Discreto Charme da Burguesia. O foco da narrativa é em um grupo de pessoas que não conseguem ter uma refeição juntas pelos mais bizarros fatores, desde o esquecimento do convite para jantar, até um treinamento militar acontecendo no local. De certa forma, essa temática surreal já havia sido usada pelo próprio Buñuel no excelente O Anjo Exterminador, em que convidados de uma festa não conseguem ir embora do local. Trabalhando essa abordagem, o diretor novamente alfineta o estilo de vida da classe média alta, sem se esquecer do clero, representado pelo bispo que deseja ser jardineiro.

A narrativa é tipicamente o resultado de uma mente surrealista. Os acontecimentos, por mais absurdos que sejam, são serenamente aceitos pelos personagens que ou convivem com a situação ou simplesmente se afastam. No entanto, intercalando as cenas “reais”, Buñuel nos apresenta a diversas sequências de sonho (ou pesadelo, depende), que entram na narrativa bruscamente, normalmente narradas por personagens que são recém-apresentados, como o soldado na cafeteria ou o outro soldado na casa do Sr. e Sra. Sénéchal (Jean-Pierre Cassel e Stéphane Audran). Tentar encontrar explicação para a mistura de sonho e realidade é cair na armadilha comum a críticos de filme. Buñuel trabalha os elementos surreais sem emprestar-lhes significado específico, ainda que, claro, o conjunto da obra funcione como uma crítica ferina à burguesia como um todo e sua incapacidade de transitar no mundo real ou mesmo de ter algum tipo de significado contundente para eles mesmos.

Fernando Rey, que havia trabalhado com Buñuel diversas vezes, sendo que a mais recente em Tristana, vive Don Rafael Acosta, diplomata da fictícia República de Miranda que, acompanhado dos decadentes Thénevots (Paul Frankeur e Delphine Seyrig), chegam para jantar na casa dos Sénéchal. Frustrada a tentativa, logo descobrimos que Acosta usa de sua bolsa diplomática para trazer drogas para a França e vendê-las para os Thénevots, traficantes locais. Também aprendemos que Acosta é constantemente ameaçado por um grupo terrorista de seu país. Esses elementos, juntos e misturados e apresentados e reapresentados ao espectador de maneiras diferentes ao longo da película – repetição! – formam o cerne narrativo do trabalho de Buñuel que, porém, vai, em um crescendo, abrindo espaço para situações cada vez mais estranhas e inacreditáveis. O diretor consegue, porém, tornar cada situação muito natural e, com isso, surpreende o espectador com uma coesão narrativa que, apesar de não existir em sua plenitude, não confunde e não aliena.

O elenco é outro aspecto que merece aplausos. O já conhecido Fernando Rey está se divertindo no papel de traficante e Stéphane Audran, no papel da lânguida e inadvertidamente engraçada Alice Sénéchal é um deleite visual. Buñuel consegue compor suas cenas de forma a ressaltar a sensualidade de suas atrizes – mesmo uma que não fala e faz o papel de terrorista – e a decadência da classe que elas representam, sendo que os personagens masculinos são retratados como abusivos, cheios de si e controladores, características que acabam por tornar mais evidente a crítica social que o diretor desejou imprimir nessa sua fantasia surreal.

A auto-crítica de Buñuel o levou a fazer um de seus melhores trabalhos e o encheu de energia para encerrar sua carreira com chave de ouro. O Discreto Charme da Burguesia é um triunfo surreal no crepúsculo criativo de um gênio.

  • Crítica originalmente publicada em 20 de janeiro de 2014. Revisada para republicação em 12/09/2020, em comemoração aos 120 anos de nascimento do diretor e da elaboração da versão definitiva de seu Especial aqui no Plano Crítico.

O Discreto Charme da Burguesia (Le Charme Discret de la Bourgeoisie, França – 1972)
Direção: Luis Buñuel
Roteiro: Luis Buñuel, Jean-Claude Carrière
Elenco: Fernando Rey, Jean-Pierre Cassel, Stéphane Audran, Paul Frankeur, Delphine Seyrig, Bulle Ogier, Julien Bertheau
Duração: 102 min.

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19 comentários

Ferdinando Rios 6 de junho de 2020 - 12:09

Revi o filme e deve ser o mais hilário do Buna! Eu gosto do surrealismo mesmo não me parecendo um movimento coeso e com regras… e se os tivesse, talvez não fosse surrealismo, hehe… mas adoro as pegadas de Fellini, Jorodo, Lynch, e claro nosso espanhol. O surrealismo do Buna parece se ancorar no absurdo do cotidiano e O Fantasma da Liberdade fortalece muito isso. Aqui há uma relação muito grande com o onírico, apesar de o absurdo do cotidiano estar aqui fortemente. Lynch é o onírico bizarro, o Fellini o burlesco, Jorodo o místico e Bunuel o absurdo do cotidiano. Será que posso classificar assim, mesmo assumindo a posição de ser raso? Quero mais de Bunuel e recém comprei Meu último suspiro e estou esperando chegar. Vi Viridiana ontem e já já lerei a crítica do site ao filme.

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planocritico 8 de junho de 2020 - 18:22

Meu Último Suspiro é uma ótima leitura! Divirta-se!

Abs,
Ritter.

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JC 22 de agosto de 2019 - 13:49

Peguei esse filme a 4,99 nas Americanas hoje, foi um achado, nunca assisti.
Esse , Decameron de Pasolini, Homem Irracional de Woody.

Tá rolando promoção pesada nas Americanas Riiter!

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planocritico 22 de agosto de 2019 - 16:42

Eita, que pechincha!

Abs,
Ritter.

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JC 6 de abril de 2020 - 12:23

Consegui ver hoje ! Ahahahah
Rapaz….que viagem. Gostei. Vou rever um dia.
Mas eu ri tanto na hora que saem pra dar uma no mato e deixando convidados a ver navio achando que fugiram por causa da polícia.
E foi só pra dar uma rapidinha ahahahahahahah

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planocritico 6 de abril de 2020 - 17:02

Essa cena é demais. Esse filme todo é hilário!

Abs,
Ritter.

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jv bcb 15 de novembro de 2016 - 01:08

o filme é interessantíssimo, mas o acho arrastado, por mais que o diretor quase sempre esteja movimentando a câmera(com movimentos não muito chamativos, de forma que não tira a atenção da narrativa e ao mesmo tempo ajuda no ritmo) o filme gasta muito tempo em situações banais, o surrealismo só vai entrar no filme com força depois de 30 minutos de projeção, e mesmo que as situações fúteis envolvendo os protagonistas sirvam como críticas a burguesia, elas são longa e detalhadas de mais. É um excelente filme, mas é necessário paciência.

Responder
jv bcb 15 de novembro de 2016 - 01:08

o filme é interessantíssimo, mas o acho arrastado, por mais que o diretor quase sempre esteja movimentando a câmera(com movimentos não muito chamativos, de forma que não tira a atenção da narrativa e ao mesmo tempo ajuda no ritmo) o filme gasta muito tempo em situações banais, o surrealismo só vai entrar no filme com força depois de 30 minutos de projeção, e mesmo que as situações fúteis envolvendo os protagonistas sirvam como críticas a burguesia, elas são longa e detalhadas de mais. É um excelente filme, mas é necessário paciência.

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planocritico 15 de novembro de 2016 - 23:21

@jvbcb:disqus , apesar de não concordar, consigo entender perfeitamente que você tenha achado o filme arrastado. Creio que faça parte da estrutura da fita. Muita repetição acaba gerando aquela sensação de lentidão.

Mas estamos de acordo plenamente que é um excelente filme!

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 15 de novembro de 2016 - 23:21

@jvbcb:disqus , apesar de não concordar, consigo entender perfeitamente que você tenha achado o filme arrastado. Creio que faça parte da estrutura da fita. Muita repetição acaba gerando aquela sensação de lentidão.

Mas estamos de acordo plenamente que é um excelente filme!

Abs,
Ritter.

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Lucas 18 de novembro de 2015 - 04:23

Cada vez que assisto esse espetáculo de filme do maior de todos (na minha opinião), alguma coisa me chama a atenção. Dessa vez foi a cena do Coronel fumando maconha e dizendo que não é uma droga. Estaria Buñuel, em 1972, fazendo uma crítica à proibição das drogas? Ou eu não percebi alguma outra mensagem que ele quis passar?
De qualquer forma, é genial colocar um militar fumando maconha tão naturalmente.

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planocritico 18 de novembro de 2015 - 15:29

@disqus_KGnEjB36wy:disqus, filmes de Buñuel são assim mesmo: a cada vez vamos reparando em coisas novas. Sobre o coronel fumando maconha e sua interpretação, só posso responder com um “e por que não?”, afinal, apesar de Buñuel se esmerar em fazer coisas sem significado direto, muito do que ele faz tem objetivo crítico e esse pode ter sido sim um deles.

Abs,
Ritter.

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Lucas 18 de novembro de 2015 - 15:45

Foi exatamente assim que pensei, Ritter!
De primeira pensei que era uma crítica, mas depois fiquei na dúvida se não seria só mais uma coisa sem significado que ele quis colocar apenas para “brincar” com o exército e minha cabeça de 2015 que quis enxergar uma crítica.
Buñuel é demais!

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planocritico 18 de novembro de 2015 - 20:41

Tentar dar significado a tudo que vemos, ouvimos e sentimos faz parte do que é ser humano e acho isso um barato. Não sei quantas vezes já vi Um Cão Andaluz tentando inventar teorias sobre tudo que o maluco do Buñuel pôs nas telas junto com Dali (aliás, na minha crítica desse curta, eu relato uma experiência que tive sobre isso que considero bem instrutiva – não sei se já leu minha crítica aqui no site). É um exercício extremamente divertido e, diria, edificante. Só não podemos é ficar escravos disso.

Abs,
Ritter.

Responder
Lucas 18 de novembro de 2015 - 21:32

Perfeito, Ritter!
Na primeira vez que assisti Fantasma da Liberdade pausei o filme e fiquei tentando achar significados pra cena do avestruz e do carteiro no quarto. Depois desisti e passei a só me divertir e rir com a cena.
Já li sim! Todos os filmes que assisto venho aqui no site procurar a crítica. Mas já tem um tempo que vi o filme. Preciso ver de novo e volto a conferir a crítica!
Abraço

Renan Maia 25 de setembro de 2015 - 15:52

Amei “O Anjo Exterminador” e “A Bela da Tarde”! Fiquei um pouco perdido a primeira vez que vi “O Discreto Charme…”, mas vou rever para captar mais nuances.

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planocritico 27 de setembro de 2015 - 02:42

@disqus_kwahCeVkum:disqus, reveja sim! É um filme difícil de engolir da primeira vez, mas que merece uma conferida mais tranquila e cautelosa, traçando paralelos com as obras anteriores do mestre aragonês.

Abs,
Ritter.

Responder
Luiz Santiago 21 de janeiro de 2014 - 18:03

Obra-prima daqueles de ver e querer ver de novo! Amo esse filme demais! Essa ideia da repetição foi muito bem abordada por você. É uma proposta que pode sim ser uma armadilha, mas sorte do espectador que consegue percebe-la e então curte a obra pelo que ela apresenta de verdade.
Que fase final incrível ele teve, não?

Responder
planocritico 21 de janeiro de 2014 - 18:21

Os últimos 6 filmes do Buñuel são magníficos! – Ritter.

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