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Crítica | O Domínio dos Deuses (Asterix)

por Ritter Fan
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Por mais brilhantes que as histórias de Asterix e Obelix escritas por René Goscinny e desenhadas por Albert Uderzo sejam, elas inegavelmente seguem um padrão, um molde estabelecido desde o começo pela dupla criativa. Nele, os irredutíveis gauleses, apesar de terem os romanos como inimigos, nunca realmente enfrentam Roma como Estado, normalmente lidando, apenas, com pedidos de socorro de pessoas de outras regiões da Europa (por exemplo, Asterix e os Bretões) ou até mesmo de outros continentes (como em Asterix e Cleópatra) ou missões de uma natureza ou outra como é o caso de Asterix entre os Helvéticos (localizar um edelweiss para curar um questor romano de envenenamento) e A Foice de Ouro (comprar uma foice de ouro para Panoramix). No máximo, como foi o caso de Asterix, o GaulêsO Combate dos Chefes e A Cizânia, Roma funciona como adversário indireto, com tramas para acabar com a última aldeia gaulesa livre colocadas em movimento pelos romanos, mas não os tendo como efetivos adversários diretos. E essa fórmula provou-se vitoriosa por 16 álbuns seguidos entre 1961 e 1970, com O Domínio dos Deuses chegando em 1971 para excepcionalmente quebrá-la.

No 17º álbum da coleção, o vilão é efetivamente Roma ou, melhor dizendo, a assimilação pelos romanos, estratégia usada na vida real por Júlio César e outros imperadores que o seguiram. Essa assimilação, na verdade, já foi vista no citado O Combate dos Chefes, com a aldeia galo-romana de Chiuingum, chefiada por Tomix, simpatizante de tudo que é romano. O plano é diabólico: Júlio César manda o arquiteto Compassus para começar a construir um complexo habitacional na floresta ao redor da aldeia de Asterix, de forma a levar Roma até lá e forçando seus habitantes a aceitar Roma por absoluta falta de alternativa. É, trocando em miúdos, o inexorável avanço da chamada civilização que parece não ter freios nem barreiras, algo que Panoramix, mesmo com seus amigos vitoriosos ao final, reconhece, entristecido. Há, sem dúvida alguma, uma camada acridoce por trás do texto, já que há humor em cada página, mas, também, há muita verdade e verdade daquele tipo que incomoda: somos predadores da natureza e nada é capaz de impedir isso.

Ideiafix é o defensor das árvores, revelando pela primeira vez seu lado fortemente ecológico ao ganir e latir a cada árvore derrubada pelos escravos trazidos por Compassus e protegidos pela guarnição de Aquarium. Mas, claro, o druida tem solução para tudo e sua super-potente semente (sem duplo sentido!) faz crescer novas árvores instantaneamente no lugar das caídas, frustrando as tentativas romanas. No entanto, o texto de Goscinny evolui para muito além do desmatamento e lida com os direitos trabalhistas e a grande arma dos sindicatos, as greves, algo que a população francesa é conhecida por adorar fazer com constância. Quando Asterix resolve dar a poção mágica aos escravos (dentre eles os piratas que eles sempre encontram!), o resultado é que eles conseguem negociar salários que chegam a ser mais altos do que os dos legionários que, ato contínuo, prontamente se revoltam, enfurecendo o Centurião Ursulinus ainda mais.

E, como se isso não bastasse, a “gentrificação” é abordada com extrema inteligência, assim como a lei da oferta e da procura, em um efeito cascata absolutamente brilhante a partir da chegada dos primeiros romanos ao Domínio dos Deuses, nome do empreendimento imobiliário conforme batizado por César (que, hilariamente, exatamente como em suas memórias sobre a Guerra da Gália, fala sobre ele mesmo em terceira pessoa). O peixe de um sestércio de Ordenalfabetix logo transforma-se em um peixe de três ou quatro sestércios, enquanto que as armas fabricadas por Automatix convertem-se em antiguidades, somente para que, ato contínuo, diversos outros negócios semelhantes sejam abertos na aldeia, derrubando os preços em seguida. Querem uma aula de Economia em quadrinhos? Não tem melhor lugar para começar do que aqui, em O Domínio dos Deuses.

No lado da arte, a fusão da arquitetura romana intrusa na floresta idílica dos gauleses é como uma espinha protuberante em pele lisa e imaculada. Chega a doer os olhos, mas percebe-se também, muito claramente, a felicidade de Albert Uderzo em seus desenhos, com o uso, pela segunda vez (a primeira foi em A Cizânia) de um mega-quadro de página inteira na horizontal que, aqui, imita panfletos de imobiliárias daqueles que são distribuídos em sinais de trânsito. O texto do panfleto, aliás, emula perfeitamente o que podemos encontrar até hoje em dia em suas contrapartidas modernas, com todo o tipo de amenidade sendo oferecida no condomínio romano a “apenas três semanas de distância” de Roma e uma de Lutécia (Paris). Além desse quadro, há outra página inteira, esta na vertical (pela primeira vez) com os gauleses invadindo o Domínio dos Deuses em que só conseguimos ver o prédio e as exclamações dos legionários romanos tentando de todo jeito escapar dos inevitáveis sopapos à base de poção mágica.

Dobrando um pouco sua regra fixa, Goscinny e Uderzo confeccionaram outra obra-prima que não só consegue diferenciar-se de tudo que veio antes, como somar aulas de Economia às costumeiras lições de História que populam cada volume dessa incrível coleção. Sem dúvida melancólico pelo seu fim e pelo que sabemos do avanço da civilização, mas O Domínio dos Deuses é outro grande acerto da dupla.

O Domínio dos Deuses (Le Domaine des dieux, França – 1971)
Roteiro: René Goscinny
Arte: Albert Uderzo
Editora original: Pilote, Dargaud (serializada em 1971 e lançada em formato encadernado em 1971)
Editoras no Brasil: Editora Record (em formato encadernado)
Páginas: 48

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