Crítica | O Enforcado de Saint-Pholien, de Georges Simenon

plano critico O ENFORCADO DE SAINT-PHOLIEN maigret simenon

Alguns meses depois do caso do Sr. Gallet (mais precisamente entre 25 e 30 de novembro de 1930 — o ano é sempre motivo de discussão no caso das aventuras do Comissário Maigret, já que é uma biografia ficcional e há divergências de onde encaixar corretamente suas histórias, mas a gente faz mesmo assim, só por diversão), o Comissário está encerrando uma missão em Bruxelas e, por um acaso, observa um indivíduo suspeito num café da cidade. Seu pensamento inicial é apenas um capricho, misto de vaidade, onde ele seguiria o tal homem, comprovaria seu envolvimento com algo criminoso e o entregaria ao Comissário local, comentando que deixava para o colega alguém capturado “de passagem, quase sem querer“.

SPOILERS!

O homem que chama a atenção do policial é Louis Jeunet (ou melhor, Jean Lecocq d’Arneville, como se descobriria logo depois) e o que inicialmente parecia apenas uma rápida possibilidade de Maigret pegar um bandido, acaba se tornando uma investigação que avança pelas cidades de Bremen, Paris, Reims e Liège, abordado um evento que muda por completo o olhar do Comissário para o caso: o suicídio de Jeunet, com um tiro na boca. E isso sendo assistido pelo policial, através da fechadura de uma porta num hotel barato.

É através do sentimento de culpa que Georges Simenon constrói o primeiro dilema moral de Maigret, algo que não vimos nos dois livros anteriores do personagem (Pietr, o Letão e o já citado Finado Sr. Gallet). Mas há algo mais em questão. Uma abordagem de cunho parcialmente sentimental vai se erguendo, e o leitor consegue ver não só as considerações que o investigador faz, mas também a mudança de comportamento dos suspeitos, cada um deles se expressando de forma diferente, procurando livrar-se da culpa, mas atravessando uma vida inteira com esse fantasma grudado em suas mentes. Até que a justiça, ao que tudo indica — e a apenas 26 dias de prescrição do caso — bate à porta.

O terrível segredo compartilhado por Joseph Van Damme, Jef Lombard, Maurice Belloir e Gaston Janin, portanto, cai no colo de Maigret a partir de uma investigação que começou com uma intenção egoica e acabou trazendo para a aventura uma abordagem ética que nos lembra também um romance lançado três anos depois, só que dentro de uma caraterística bem mais violenta e de ares épicos: Assassinato no Expresso do Oriente, de Agatha Christie. E o interessante, no presente caso, é que o grupo de estudantes rebeldes e niilistas que o ato final do livro aborda tem um pé na realidade: o próprio Maigret fizera parte de um grupo assim na juventude, que foi rompido porque um dos membros mais frágeis acabou se enforcando na porta de uma igreja.

Apesar de a revelação vir de maneira interessante, macabra e cheia de tensão, eu gosto bem mais do processo de investigação do assassinato e confesso que esperava um desfecho mais bem acabado para o mistério do terno puído e sujo na mala de Louis Jeunet. E também da construção que o autor faz do personagem na reta final do livro, onde deixa algumas explicações de lado e foca nas implicações que uma execução a ferro e fogo da lei causaria para os amigos sobreviventes do Apocalipse, já tantos anos depois de um assassinato e de dois suicídios entre os parceiros de bebedeiras e de altos sonhos da juventude universitária. Um livro bastante pessoal do autor, de leitura rápida e abordagem humana capaz de trazer pensamentos sobre a cobrança a longo prazo de “um crime não tão infame assim“.

O Enforcado de Saint-Pholien (Le Pendu de Saint-Pholien) — Bélgica, fevereiro de 1931
Série Comissário Maigret – Livro #3

Autor: Georges Simenon
Editora original: A. Fayard
No Brasil: Companhia das Letras (abril de 2014)
Tradução: André Telles
136 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.