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Crítica | O Enigma da Pirâmide

por Ritter Fan
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Pode-se perfeitamente dizer que a versão mais conhecida de Sherlock Holmes nos dias atuais não é exatamente uma criação exclusiva de Arthur Conan Doyle, mas sim uma amálgama do que ele brilhantemente escreveu com diversas adaptações, nas mais diferentes mídias, ao longo dos anos, desde literalmente o final do século XIX, especificamente no teatro, enquanto as histórias ainda estavam sendo escritas por seu autor. Portanto, o clássico e brilhante, mas frio e reservado, detetive particular capaz de fazer deduções inacreditáveis com base apenas em observações vestido com uma capa Inverness, um chapéu de caça (chamado de deerstalker), fumando um cachimbo fortemente curvado (batizado de calabash) e que gosta de falar “Elementar, meu caro Watson” e “The game is afoot” (“O jogo começou“, em tradução livre) é um construto “coletivo”, digamos assim, já que, nos contos e romances, as roupas nunca foram descritas dessa forma, Holmes usava uma grande variedade de cachimbos, nunca disse “Elementar, meu caro Watson” e só disse “The Game is afoot” uma única e solitária vez.

Portanto, não é surpresa alguma que o roteiro de Chris Columbus para O Enigma da Pirâmide (tradução literal de Young Sherlock Holmes, título “complexo” de verter para o português…), longa da Amblin e Paramount que tinha a proposta de contar uma versão da “origem” do personagem, ocupe-se de trabalhar na direção desse Sherlock Holmes misturado, algo que inclusive legitima a própria premissa da história, já que o detetive e seu inseparável parceiro Dr. John Watson, jamais se conheceram quando ainda adolescentes. Mesmo que alguns puristas possam virar o nariz para essa alteração – o que, digo logo, é uma bobagem – fica evidente o carinho e respeito com que Columbus escreve os personagens e cria outros para povoar esse começo de carreira da dupla. Aliás, Steven Spielberg, então muito próximo do cotidiano das produções de seu estúdio mesmo quando não diretamente envolvido na direção ou roteiro, fez questão de trabalhar na verossimilhança dos personagens literários e da Inglaterra vitoriana com um todo levando o roteiro para ser revisto por especialistas na linguagem da época, além de, claro, nos escritos de Conan Doyle.

O resultado é uma delícia de filme capaz de levantar espíritos e de trazer sorrisos aos cenhos mais sérios. E olha que o longa nem é exatamente levinho, sem consequências pesadas para os personagens ou vazio de momentos de violência e sangue – ainda que nunca explícitos, claro -, mas ele carrega um tom aventuresco bem na linha de Indiana Jones ou, talvez melhor classificando, de Gremlins e Os Goonies, os dois roteiros anteriores de Columbus, que, somado à construção de cada característica chave do Sherlock Holmes que conhecemos, torna-se uma verdadeira lição de como reimaginar um personagem sem subverter sua essência e ao mesmo tempo entregar aos espectadores de todas as idades uma história cativante e original.

Usando a cirúrgica narração em off de um Dr. Watson mais velho (voz de Michael Hordern), acompanhamos como ele conhece Sherlock Holmes na escola para onde se muda, em meio a estranhas mortes aparentemente sem conexão que ocorrem em Londres, a primeira delas acompanhada em detalhes no preâmbulo e que já de imediato cria e ao mesmo tempo afasta qualquer abordagem sobrenatural, ou seja, abre espaço para efeitos especiais de ponta na época, mas sem trair o momento histórico em que a ação se passa. O jovem Watson (Alan Cox), que tem uma clara jornada de amadurecimento, é não só o ponto de vista da narrativa, como o simpático, inseguro e medroso rapaz que vê, estupefato, as habilidades detetivescas precoces do jovem Holmes (Nicholas Rowe) na escola em uma excelente sequência em que ele desvenda um mistério como parte de um desafio de seu rival Dudley (Earl Rhodes) e, também, na medida em que Holmes estabelece a conexão entre as mortes, chamando-as taxativamente de assassinatos – o que são para o espectador desde os segundos iniciais – e começa a entender toda a situação, enquanto mostra seu amor por Elizabeth Hardy (Sophie Ward), a única mulher da escola, mas não uma aluna e sim alguém que mora com seu tio Rupert Waxflatter (Nigel Stock) ex-professor e mentor de Holmes que, mesmo aposentado, mora na escola inventando como Leonardo da Vinci, inclusive um avião que bate asas tirado diretamente dos desenhos renascentistas.

O Enigma da Pirâmide revela-se melhor quando desenvolve seus personagens e constrói o mistério. Os personagens são, todos eles, cativantes e o uso de efeitos especiais é de se tirar o chapéu, valendo destaque para a primeira vez que é feito uso de CGI fotorrealista em um filme, na cena em que o cavaleiro medieval sai do vitral da Igreja para atacar o padre que está tendo uma alucinação. Todo esse trabalho de computação gráfica foi capitaneado por ninguém menos do que John Lasseter, na época em que a Pixar ainda era uma divisão da Lucasfilm e é perfeitamente perceber, aqui, a revolução que ele faria 10 anos depois, com Toy Story. Mas é claro que, além dos efeitos, há toda a impressionante reconstrução da Londres vitoriana, com figurinos e cenários, além de uma bela e jovial trilha sonora de Bruce Broughton e uma fotografia sóbria, mas nunca exatamente sombria de Stephen Goldblatt.

Por outro lado, quando o roteiro caminha para sua resolução, com toda a explicação para lá de bizarra sobre as causas do assassinato, incluindo aí a pirâmide de madeira e nada enigmática que parece maior por dentro do que por fora e que serve de cenário para as sequências mais “fora de esquadro” em termos da aventura sendo proposta, o longa começa a deixar seus problemas às escâncaras. Mas calma, não são exatamente problemas gigantescos que fazem o filme ruir sob seu próprio peso, longe disso. O ponto é que a narrativa entra em uma seara que não só carrega o longa de demasiados textos expositivos, como direciona o filme para um lado mais puramente Indiana Jones “macgyveriano” que não combina bem com tudo o que veio antes e que Barry Levinson não sabe conduzir confortavelmente, ainda que consiga extrair ótimas atuações do elenco jovem.

Mesmo assim, O Enigma da Pirâmide triunfa em sua proposta de fazer um “Sherlock Homes Begins” capaz de agradar crianças e adultos igualmente e não necessariamente pelas mesmas razões, sem trair a essência dos tão queridos personagens. Pode ter sido um grande fracasso de bilheteria, mas o longa é irresistível do começo ao fim, contando inclusive com provavelmente a primeira sequência pós-créditos narrativamente relevante do Cinema (tecnicamente, ela leva o tempo integral dos créditos, porém…) que, eu me lembro muito bem, deixou-me de queixo caído na sessão em que estava.

O Enigma da Pirâmide (Young Sherlock Holmes – EUA, 1985)
Direção: Barry Levinson
Roteiro: Chris Columbus (baseado em personagens criados por Arthur Conan Doyle)
Elenco: Nicholas Rowe, Alan Cox, Michael Hordern, Sophie Ward, Anthony Higgins, Susan Fleetwood, Freddie Jones, Nigel Stock, Roger Ashton-Griffiths, Earl Rhodes, Brian Oulton, Patrick Newell, Donald Eccles, Walter Sparrow, Nadim Sawalha
Duração: 109 min.

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