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Crítica | O Escolhido – 1ª Temporada

por Leonardo Campos
196 views (a partir de agosto de 2020)

Envolvente e exótica para os nossos padrões narrativos, O Escolhido é uma série que promete bastante desde o estabelecimento de seus primeiros conflitos dramáticos. Baseada em Niño Santo, produção mexicana de Pablo Cruz, a primeira temporada, realizada pela Netflix, apresentou seis episódios com duração média de 40 minutos. Inicialmente crescente nos níveis de tensão, o programa desce um pouco nos conflitos depois da primeira metade e termina com a sensação de que poderia ofertar mais do que prometeu. É o típico caso de um coito dramático interrompido. Não chega a estragar o entretenimento, mas é algo que impede a série de se tornar memorável, mesmo que a sua recepção diante do público tenha sido acima da média, garantia para a segunda temporada que estreou alguns meses depois.

Criada por Raphael Draccon e Carolina Munhóz, O Escolhido conta com Maurício Katz, Pablo Cruz e Pedro Peirano na concepção dos roteiros, dirigidos por Michael Tikhomiroff e Max Calligars, realizadores guiados por sugestões de Marcelo Torres na produção executiva. A trama nos apresenta um grupo de médicos enviado para uma região chamada Água Azul, situada nas entranhas de uma região pantanosa, espaço ideal para a captação de imagens da direção de fotografia de dupla formada por Rodrigo Reis e Hélcio Alemão Nagamine, profissionais que realizam um trabalho deslumbrante ao registrar a natureza de maneira a transformá-la num espaço dual ao longo da narrativa, representação da amplitude e distanciamento do local em comparação aos grandes centros urbanos, e assim, ser o ambiente laboratorial na vida destes jovens iniciantes em suas respectivas carreiras.

O trio principal é composto pelo Dr. Enzo Vergami (Gutto Szuster), recém-formado, oposto do colega Dr. Damião Almeida (Pedro Caetano), oriundos da elite e da favela, respectivamente, um branco e o outro negro, um privilegiado e o outro massacrado pelas questões sociais comuns ao nosso país, ambos acompanhantes da Dra. Lúcia Santeiro (Paloma Bernardi), mulher oriunda de uma família com fluxo religioso muito intenso. Animados com a experiência, eles chegam para a realização da missão e são recepcionados pelos seguidores do Escolhido (Renan Tenca), personagem que domina a maioria das cenas com o seu tom de messias, homem que jamais será importunado por qualquer pessoa da região que não queira seguir os seus “mandamentos”.

Ele será o catalisador dos dramas vividos pelo trio que se dissipa diante dos acontecimentos misteriosos, jovens sempre observados pelos olhos da fanática Zulmira (Tuna Dwek), mulher manipuladora, espécie de guarda dos mandamentos do Escolhido, constantemente acompanhada de Santiago (Lourinelson Vladmir), personagem que ocupa o elo entre os interesses locais e o envolvimento com os recém-chegados, em especial, a médica. Na jornada, acontecimentos do passado e perfis de personagens são apresentados em torno de flashbacks que levantam muitas perguntam, mas não se preocupam em estabelecer um panorama de todas as respostas, algo que pode não funcionar como entretenimento para as pessoas mais interessadas em tramas amarradas, sem sugestão ou completo de um espectador mais ativo.

É uma estratégia dos produtores também voltada para deixar o chamado cliffhanger para a temporada seguinte, possível diante do arsenal de possibilidades dramáticas que brotam deste reduto hostil, preocupante diante do cenário que será apresentado logo após a chegada, uma junção dos elementos de Niño Santo, série que lhe serve como ponto de partida, numa mixagem com os problemas sociais brasileiros. Água Azul, tal como as cidades fantasmagóricas dos clássicos filmes de terror, exala mistério por todos os seus poros. Os médicos, céticos e voltados ao processo de racionalização das coisas, focados no método científico, acabam mergulhados numa atmosfera sobrenatural que os faz questionar tudo que tinham como base até o momento que demarca a chegada no local. O que era uma ida para vacinar pessoas para proteção diante da mutação do vírus zika se torna o momento mais horripilante de suas vidas.

Lá, as pessoas morrem apenas de causas naturais. Os habitantes são hostis e consideram qualquer intromissão farmacológica um dano para os organismos que devem estar purificados para a recepção dos ideais religiosos do lugarejo. Rebeldes diante da vacina, as pessoas temem “o escolhido” e atendem aos seus sinais constantemente. Construído com excentricidade, o profeta mantém os padrões deste tipo de personagem envolto em exotismo. Há um clima de punição, algo do tipo “não siga as regras e sofra as consequências”. São questões fortalecidas pela condução sonora da 1972 Áudio e Full Music, produtora responsável pela trilha da série, setor que funciona tão bem quanto as imagens de corujas e répteis que espreitam na mata, oriundos da já citada eficiente direção de fotografia.

No que tange aos elementos estéticos, tal como apontado nos trechos anteriores, O Escolhido é uma série que não sofre com problemas de orçamento, tampouco de construção da identidade visual ao longo dos seis episódios. Os figurinos de Inês Salgado delineiam bem os perfis físicos, psicológicos e sociais dos personagens, a maquiagem de Danilo Mazzuca contempla os momentos de imersão no horror, o design de produção de Cassio Amarante transborda eficiência, juntamente com os efeitos visuais da equipe de Felipe Bustelli. Não fosse algumas amarras dramáticas, a série conseguiria alcançar proeza completa, mas o desenvolvimento de alguns diálogos e ações do meio para o final atrapalham a fluência da tensão e tornam a primeira temporada um exercício que pretende ser cult demais e funcional de menos.

O Escolhido – 1ª Temporada – Brasil, 2019
Criado por: Raphael Draccon, Carolina Munhóz
Direção: Michael Tikhomiroff, Max Calligars
Roteiro: Maurício Katz, Pedro Purano, Raphael Draccon, Carolina Munhóz, Pablo Cruz
Elenco: Paloma Bernardi, Pedro Caetano, Gutto Szuster, Renan Tenca, Tuna Dwek, Lourinelson Vladmir, Mariano Mattos Martins, Alli Willow, Kiko Vianello, Francisco Gaspar, Aury Porto
Duração: 06 episódios de 45 min, cada

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8 comentários

Al_gostino 11 de junho de 2020 - 14:18

Caramba surpreso com essa nota que o plano crítico deu para essa série..minha opinião começa boa mas depois cai demais de qualidade, desenvolvimento péssimo de alguns personagens (os diálogos do Enzo dão até vergonha de ver) e o “escolhido” é sem graça ao extremo….poderia muito, mas muito melhor

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leodeletras 23 de julho de 2020 - 02:35

Não consigo ver dessa forma não @disqus_RYJJohc0X7:disqus . Há um baita clima e a direção é bem firme. E esse lance de nota é algo bem subjetivo, né? Talvez revendo possa dar menos ou mais, não sei.

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Jonas Viotto 8 de junho de 2020 - 21:31

Eu assisti as duas temporadas, e achei que a segunda imerge de uma forma macabra e ainda mais misteriosa em torno do Mito. A última cena é marcante, mas também dual, pois pode trazer uma profundidade ainda mais sobrenatural a uma possível 3a temporada ao mesmo tempo que pode reciclar um argumento de outra série já muito famosa e explorada ao extremo. Gostaria que tivesse a 3a temporada.

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leodeletras 23 de julho de 2020 - 02:35

Também defendo uma nova temporada, nem que seja para encerrar os arcos em sua totalidade @jonas_viotto:disqus

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Wagner 7 de junho de 2020 - 15:48

Curti muito o início, mas depois fui me desanimando. Parecia que não saía mais do lugar. Achei os dois últimos episódios tão sem sal que nem voltei pra segunda temporada.
Mas a ambientação é bem boa.

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Flavio Batista Dos Santos 7 de junho de 2020 - 20:26

Tbm tive a mesmíssima opinião. Começa bem legal com todo aquele mistério mas depois embarriga e parece q n sai do lugar

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leodeletras 23 de julho de 2020 - 02:39

Sim @flaviobatistadossantos:disqus não discordo, mais para os dois episódios finais, ainda assim, acho interessante.

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leodeletras 23 de julho de 2020 - 02:35

Belissima ambientação @semideiaprausername:disqus , apaixonado pela direção de fotografia.Volte e termine a segunda, assim encerra seu ciclo de entretenimento.

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