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Crítica | O Escritor Fantasma (2010)

por Leonardo Campos
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Os escritores fantasmas não existem apenas nas dimensões internas do campo da ficção. A história literária ocidental, tanto a antiga quanto a contemporânea, apresenta em seus registros diversos casos de publicações originadas por esses fantasmas que ficam no canto obscuro do desconhecido, enquanto as obras que produziram são entregues aos clientes. Não há direito autoral, tampouco prestígio que vá além do financeiro. É uma profissão de méritos subliminares. E práticas também, em especial, nos desdobramentos de O Escritor Fantasma, suspense dirigido por Roman Polanski, um exercício deslumbrante da linguagem cinematográfica, um marco na carreira do cineasta radicado no continente europeu, haja vista a sua já dissecada história de “exílio” dos Estados Unidos. Ele se juntou ao escritor Robert Harris para um projeto intitulado Pompeia, mas com o cancelamento da produção, Harris lhe enviou o romance que se tornou o filme em questão, história que foi traduzida de maneira intersemiótica pelo diretor enquanto lia as páginas vorazmente. Uma semana depois do envio, Polanski entrou em contato, interessado em transformar o material no filme de 130 minutos, lançado em 2010 e produzido na Alemanha.

A história já existia antes de Tony Blair, em 2006, ser alvo midiático com as acusações polêmicas sobre crimes de guerra, assunto que provocou um sacolejo em sua imagem nos programas televisivos de uma era prévia ao advento e popularização das redes sociais, espaço onde o estrago seria ainda maior. Assim, Robert Harris sentiu que o seu material, já potencialmente interessante, ganharia ainda mais com essa alusão aos eventos vinculados ao homem que exerceu o mais alto cargo da política britânica. Interessado em trazer referências ao cinema de Hitchcock, o escritor emulou alguns traços do mestre do suspense, em especial, o homem comum jogado numa situação atípica e cheia de mistérios que se tornam perigosos ao passo que as revelações avançam para um desfecho sufocante e inesperado. Roman Polanski, um mestre na construção atmosférica, conduz o personagem por ambientes fantasmagóricos, com alguns pontos estéticos de produções sobre casas assombradas e presenças sobrenaturais. No entanto, tudo que há em O Escritor Fantasma é material humano e sombrio, com um toque de Macbeth e Hamlet, de William Shakespeare. Não me perguntem porque, mas foi a sensação que tive.

Talvez pelo clima de traição e incerteza, personagens dúbios, dentre outras coisas, originadas também das ressonâncias do cinema clássico nos bastidores de produção, pois como revela Robert Harris num breve documentário sobre o filme, ele e Polanski fizeram uma sessão de revisão de Crepúsculo dos Deuses, o estupendo desafio dramático de Billy Wilder que coloca um homem morto para ser o narrador de sua própria história. E o interessante é que durante todo o desenvolvimento de O Escritor Fantasma, o protagonista interpretado de maneira brilhante por Ewan McGregor não tem nome. Há tanta riqueza de detalhes ao longo da narrativa que só me toquei disso muito depois da metade, pois até então, o excessivo magnetismo do roteiro só me permitiu perceber outros detalhes, talvez até mais importantes. É assim que acompanharemos a trajetória desse Ghost, um homem que escreve brilhantemente e por intermédio de seu amigo/editor Rick Ricardelli (Jon Bernthal), faz uma entrevista para ser o novo escritor fantasma das memórias biográficas de Adam Lang (Pierce Brosnan), político envolto em polêmicas diversas e precisa constantemente da assessoria para não surtar com as pressões.

O problema é que há uma série de entraves no processo. O escritor anterior cometeu suicídio. Ou talvez tenha sido assassinado. O trabalho traz muita responsabilidade e deve ser entregue em 30 dias. E escrito nos Estados Unidos. O escritor deve partir de onde o anterior parou e dar continuidade, algo que será acelerado depois que um novo escândalo explode na mídia e a publicação ganha maior urgência. Na casa de Lang, o “fantasma” é levado a desconfiar de tudo e de todos. Há um clima de estranheza e para o filme avançar, é óbvio que ele descobrirá mensagens subliminares no manuscrito do falecido autor anterior, jornada que o levará para uma montanha-russa de emoções, algumas vezes com picos que parecem prontos para ceifar a sua vida e envia-lo morto na descida. Ciente do tom sigiloso de seu trabalho, o escritor sabe que não pode mover o manuscrito do escritório, local onde o material fica engavetado, trancado. Mas ainda assim o faz. Nas entrevistas com o político, questiona detalhes e vai atrás dos pormenores, numa busca perigosa por outras versões da história que aparentemente foram contadas com muitas imprecisões, falácias e informações criptografadas.

Todos no filme parecem saber bastante, enquanto o escritor precisa lutar diariamente com as palavras, para entregar o material no prazo, tendo ainda que preservar a sua própria vida, pois neste processo, mexeu com forças que na seara dos filmes de terror sobrenaturais, seriam parte de algo ocultista, macabro. Constantemente vigiado pela enigmática Amelia Bly (Kim Cattrall), uma mulher fria e distante, mas observadora e consciente do quanto sabe sobre Adam Lang e sua família, o escritor tenta disfarçar a sua curiosidade, mas não consegue a tarefa com sucesso. Quem percebe a sua postura é Ruth Lang (Olivia Williams), a esposa do biografado nas memórias, uma mulher que vai da calmaria ao desequilíbrio psicológico, alguém que tal como já sabemos, haja vista a tradição do cinema noir, é também um alvo para desconfiança. Ela é quem dá as cartas, parece ter os melhores conselhos e divide o marido com a sua assistente, numa relação de frieza e guerra sutil. A sutileza aqui é pulsante e perpassa todo o fio narrativo, do começo ao fim, na poética cena do atropelamento e, antes, n passagem do bilhete durante um lançamento literário, cena visualmente simples, mas com ótima orquestração do suspense.

Da direção de Roman Polanski, ao roteiro construído em parceria com Robert Harris, autor do romance que serve como ponto de partida, O Escritor Fantasma só não acerta em seu prolongamento, extenso demais para a excelente história que tem para narrar. O filme corre riscos o tempo inteiro, mas consegue segurar o seu ritmo até o desfecho, mas beirou ao vacilo em algumas passagens que poderiam ser suprimidas ou condensadas. Fora isso, a produção é um suntuoso exercício cinematográfico. A direção de fotografia de Pawel Edelman se movimenta delicadamente por cada espaço, agindo da mesma maneira no fechamento de quadros para a devida captação das emoções dos personagens. A sua iluminação nunca excede, mantendo também uma enigmática paleta de tons nublados, filtros que contemplam a atmosfera temática do filme, num diálogo acertado com o cuidadoso design de produção de Albrecht Konrad, gerenciador dos cenários, direção de arte e efeitos visuais da belíssima fortaleza de frente para o oceano, casa que encanta e assusta ao mesmo tempo, arquitetura ideal para o desenvolvimento do roteiro em questão. A textura percussiva de Alexandre Desplat colabora, sem excessos.

Ademais, O Escritor Fantasma é uma obra-prima contemporânea sobre temáticas diversificadas. Flerta com a derrocada do poder e suas consequências, fala do acaso, ao apresentar personagens que são tomados de surpresa por situações que sequer imaginam, mudarão vertiginosamente as suas vidas para sempre. O suspense também toca muitas questões sobre como o exercício da escrita vigora quando o seu autor torna a missão um empreendimento. É isso que o escritor interpretado por Ewan McGregor faz, o tempo inteiro, ao lidar com o material que tem em mãos. Ele domina a leitura, aplica as suas estratégias na escrita e por isso é um candidato ideal para uma tarefa tão ardilosa. É com esse desempenho que ele encerra o enigma no desfecho. É a palavra que de certa maneira abre O Escritor Fantasma e é a transformação de seu conjunto em sentenças que faz da trama uma autêntica narrativa sobre o poder da escrita, para o bem ou para o mal. É o tipo de filme que apenas cineastas experientes ou com possibilidades autorais conseguem realizar plenamente, haja vista o lado nocivo da indústria do entretenimento, cada vez mais intrusiva no que é artístico, em prol do puramente mercadológico.

O Escritor Fantasma (Ghost Writer) – Alemanha, 2010
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Robert Harris, Roman Polanski
Elenco: Daphne Alexander, Eli Wallach, Ewan McGregor, James Belushi, Jaymes Butler, Jon Bernthal, Kim Cattrall, Olivia Williams, Pierce Brosnan, Robert Pugh, Timothy Hutton, Tom Wilkinson
Duração: 110 min.

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