Crítica | O Espelho (1975)

Eu havia decidido que neste filme, pela primeira vez, iria usar os recursos do cinema para falar de todas as coisas que me eram mais caras, e que iria fazê-lo diretamente, sem usar quaisquer truques.

Tarkovski

Andrei Tarkovski começou a trabalhar no roteiro de O Espelho enquanto estava filmando Andrei Rublev (1966) — filme do qual vemos um cartaz em uma das cenas deste longa de 1975. Sua proposta era utilizar o cinema para mergulhar de vez na psique, memórias, emoções e visões artísticas que construiu ao longo da vida. Em sua cinematografia madura até aquele momento, composta por A Infância de IvanAndrei Rublev e Solaris, esses ingredientes já estavam presentes, mas entrelaçados a questões ou temáticas maiores. Em O Espelho (que consta ter tido 32 versões até o diretor ficar satisfeito com o 33ª corte e dar o filme por encerrado), não existe nada mais além da narração alinear de cenas da vida de Aleksei (Innokentiy Smoktunovskiy, o narrador), representada em diferentes tempos, espaços e através de distintos recursos de imagem.

Existem duas maneiras de enxergar a narrativa dessa crônica de uma vida: contemplando a jornada de Aleksei como espelho da jornada de qualquer ser humano ou como espelho da jornada do próprio diretor, que muitas vezes deixou claro o quanto essa obra era importante para ele, por retratar ou aludir a acontecimentos de sua infância, no campo particular (as coisas que acontecem na casa ou ao redor dela, marcando diretamente o indivíduo) e no campo externo.

Nesse caminho, atravessamos três períodos históricos, o pré (1935), durante (anos 1940) e pós-guerra (anos 1960 ou 70), e neles passam pela tela os mais variados acontecimentos, num fluxo de tempo, símbolos e signos que deixam muita gente se apegando individualmente às dezenas de significados que uma cena específica pode ter (a mãe dormindo e flutuando é a que mais suscita isso) em vez de digerir a película como uma narração poética e cheia de mistérios, confusões e interação de personagens e lugares feita por alguém em tom de confissão para o público.

Para dar conta da variação de atmosfera em cada momento da vida de Aleksei e de outros personagens centrais, como mulher Natalya/a Mãe (Margarita Terekhova), o filho Ignat/Aleksei com 12 anos (Ignat Daniltsev) e do pai (Oleg Yankovskiy), o diretor manipulou pela direção, fotografia e montagem a representação e o sentido de coisa, gerando no espectador sensações que podem ser as de paz e pertencimento (enquanto são exibidos na tela os mais diversos elementos da natureza e da vida cotidiana) ou de pura agonia ou tensão, quando cenas documentais são mostradas ou quando há uma maior lentidão ou aceleração em uma sequência, alertando-nos para um ponto de tensão, atenção e mudança. O espelho, como tema, pode ser visto tanto fisicamente quanto tematicamente, começando no fato de alguns atores interpretarem mais de um personagem, em tempos diferentes, e terminando em ações que se repetem, indicando o complemento de um ciclo da vida ou a afirmação de um ciclo vicioso, no caso de pais abandonando a família.

Todas essas informações, no entanto, estão espalhadas ao longo do filme, algumas delas com um quê de mistério em torno (o garoto num tratamento de gagueira, por exemplo) e outras propositalmente contadas fora de ordem, para que o impacto não esteja ligado apenas àquela situação em si, mas à semelhança que guarda com outros momentos… como uma imagem refletida num espelho. Através dos poemas de Arseni Tarkovski (pai do diretor, que lê seus próprio escritos em off) e da variação de cenas em cor para preto e branco e sépia, o espectador toma o fluxo de consciência do narrador como também sendo o seu, aproximando sensações e os muitos sentimentos que sabemos ou julgamos saber do protagonista, como o remorso, o arrependimento, o desejo de retorno, a nostalgia, a reconstrução de valores e de uma vida após grandes separações. A obra, assim, espelha no público aquilo que ela tão intimamente confidencia.

Nesse sentido, O Espelho representa a essência daquilo que fica para sempre em nós. O legado da maternidade e da paternidade, o desperdício inocente da infância, a amargura — às vezes paradoxalmente feliz — da vida adulta, especialmente quando olha para trás e sente muito mais quando pensa nesse passado do que ao viver no momento presente. Um filme sublime sobre as belas e as traumáticas cicatrizes deixadas em nós pela vida.

O Espelho (Zerkalo) — União Soviética, 1975
Direção: Andrei Tarkovski
Roteiro: Andrei Tarkovski, Aleksandr Misharin
Elenco: Margarita Terekhova, Oleg Yankovskiy, Filipp Yankovskiy, Ignat Daniltsev, Nikolay Grinko, Alla Demidova, Yuriy Nazarov, Anatoliy Solonitsyn, Larisa Tarkovskaya, Tamara Ogorodnikova, Yuri Sventisov, Tamara Reshetnikova, Innokentiy Smoktunovskiy, Arseniy Tarkovskiy, E. Del Bosque, Ángel Gutiérrez, Tatiana Del Bosque, Teresa Del Bosque, L. Correcer, Diego García, Teresa Rames, Olga Kizilova, Aleksandr Misharin
Duração: 107 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.