Home TVTemporadas Crítica | O Espetacular Homem-Aranha – A Série Animada Completa

Crítica | O Espetacular Homem-Aranha – A Série Animada Completa

por Iann Jeliel
4999 views (a partir de agosto de 2020)
O Espetacular Homem-Aranha

Livin’ on the edge O Espetacular Homem-Aranha
Figthing crime
Spinning webs
Swinging from the highest ledge
He can leap above our heads

Ahhh ahh ahhh ah ahhh… Ahhh ahh ahhh ah ahhh ah

SPOILERS!

Mais do que uma representação extremamente fidedigna do material quadrinesco, O Espetacular Homem-Aranha compreende toda a mitologia e raiz dramatúrgica em torno do Homem-Aranha, elaborando-a com complexidade dentro de um universo planejado de forma singular, infelizmente, durante apenas duas temporadas. O projeto da Sony em parceria com a CW estava localizado no meio de uma transição dos direitos televisivos do personagem voltarem para a Marvel, que porventura estava sendo comprada pela Disney, que à época não deu prosseguimento ao projeto – e eu NUNCA irei perdoá-la por isso. E se existe algum pecado nesta animação, é o de não ter continuado, porque junto à trilogia de Sam Raimi, esta é a obra audiovisual definitiva do aracnídeo, qualitativamente falando.

Mesmo contando com uma estrutura bastante simples e semelhante na articulação entre os episódios – temos a introdução ao vilão, desenvolvimento das histórias de Peter, primeiro confronto ao vilão, desdobramentos das histórias do Peter, nas quais ele tem que sair pelo seu dever de Homem-Aranha e enfrentar o vilão numa batalha final –, o preenchimento de cada capítulo é maravilhosamente abastecido por grande equilíbrio entre humor, referências e maturidade narrativa. Há um desenvolvimento com enorme substância por parte da rotina de Peter Parker que garante um peso maior em cada período que é o Homem-Aranha, ambas amplificadas pela narração em off, que além de ser um recurso benéfico para um didatismo infantojuvenil da série, garante uma proximidade extremamente eficiente ao personagem, que a todo momento se vê conversando com seu subconsciente como se fosse o público.

A icônica frase do tio Ben – “Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades” – só irá aparecer lá para o final da primeira temporada, assim como a história de origem, o que não tira o fato de sua essência ser sentida em todo episódio, sempre Peter vai estar diante de escolhas que exigem sacrifícios na sua vida pessoal em prol de algo maior, quase sobrenatural, que já sabemos do que se trata, configurando a índole do herói em sua máxima representação. É doloroso, porque os personagens secundários e as tramas rotineiras de Peter são tão bem desenvolvidas que muitas vezes soam até mais interessantes que os embates contra supervilões, deixando a série viciante. Os romances, por incrível que pareça, são a melhor parte. Há um claro conhecimento da dupla de criadores – Victor Cook, Greg Weisman – no funcionamento da linguagem amorosa pré-adolescente, carregada de ansiedade, inseguranças, incertezas e até um certo grau de ingenuidade que são extremamente conquistadores.

Confesso que nunca torci tanto por um casal como Peter & Gwen, mas também gostava de Peter & Lis, ou compraria Peter & Mary Jane, e por que não Peter & Gata Negra? Todas as químicas em separado são funcionais e correspondem a processos individuais muito bem respaldados no material fonte, adaptados com coesão para que, quando se misturem, um possibilite o melhor do outro. E não só os de Peter, todas as relações entre secundários possuem seu valor para além do romance. Acho que em nenhuma outra mídia, por exemplo, Flash Thompson conseguiu ser um personagem tão carismático e interessante. O valentão do colégio ganha um espaço bem maior que seu estereótipo, como no final da primeira temporada, quando ajuda Peter a acordar diante de seu egoísmo influenciado pelo simbionte, e especialmente em toda a segunda temporada, depois que se machuca num jogo de futebol, um divisor de águas que o amadurece de forma surpreendente.

Isso vale para praticamente todos os outros, mesmo com apenas 22 minutos por episódio, a série sempre reservava um tempo para desenvolver seus dilemas individuais, de forma acumulativa, com uma pitada em um episódio aqui ou ali, explodindo em momentos cruciais. O maior exemplo disso está em Harry, que primeiro tem sua relação abusiva com o pai muito bem estabelecida, ao passo que Norman valoriza mais Peter do que o filho, gerando uma competitividade entre os dois, agravada pela necessidade de Harry apelar para a dependência química que o “tornaria” Duende Verde. Claro, o final da série demonstra que o Duende era o próprio Norman, o que não invalida a construção fortificada de Harry como “vilão”, já que Norman possui a sua própria quando desde o início demonstra participar ativamente do mundo do crime, consequentemente tendo influência direta e contínua na criação de outros vilões, juntamente com o Rei do Crime, que vão dar trabalho ao Aranha.

Contudo, até esses supervilões mais para confrontos físicos marcantes não possuem uma motivação tão genérica quanto “quero matar o Aranha”. Muitos sim, mas sempre com um respaldo um pouquinho mais trabalhado, na mesma lógica acumulativa e humana dos outros personagens secundários, o que torna todos eles muito interessantes. Como o próprio Venom, motivado pelo ódio puro de Eddie Brock, mas muito bem construído durante toda a primeira temporada através de vários dos sacrifícios que Peter tinha que fazer e que indiretamente o prejudicavam, além do agravante das besteiras que fez quando estava com o simbionte. Até acho que essas relações de Eddie e Peter ou de Peter e Harry como amizade poderiam ter sido melhor desenvolvidas, mas como a série lida muito bem com as representações dos personagens, acabam não fazendo falta.

Falando nos confrontos marcantes, depois dos personagens uma das características que mais marcam este desenho são as sequências de ação. A plasticidade dos movimentos de web-swing no 2D dentro de uma profundidade de campo bastante simples é impressionante, e quando se coloca junto à criatividade dos roteiristas em bolar uma variedade riquíssima de situações de combate, em diferentes ambientes, intempéries, circunstâncias em jogo e efeitos no atrito de poderes, a série brilha. O Homem-Aranha derrota seus inimigos sempre utilizando estratégias específicas e inventivas para superá-los, seja usando o cenário ou uma fragilidade detectada no meio do confronto, sempre as lutas apresentam soluções muito criativas circundadas com uma boa dose de desafio. Mesmo quando são vilões repetidos, isso não muda, já que esses vêm com a ciência de como foram derrotados e aparecem novamente prevenidos, o que força o Aranha a ter que bolar novas soluções.

É verdade que de uma temporada para outra há uma queda nessa questão e alguns vilões se tornam aparentemente menos hostis, em compensação, as cenas de ação se tornam cada vez mais grandiloquentes e empolgantes por um clima de maior seriedade. No todo, o clima da série é bastante bem-humorado, o Aranha faz constantes piadas debochando das pessoas em redor, mas de um modo correspondente ao Peter mais livre quando está debaixo da máscara, e não simplesmente fazendo piada por fazer, às vezes faz parte do joguinho psicológico que ele faz com os oponentes. Mas, à medida que a história avança, as sagas vão se tornando mais densas, tanto para os dramas de Peter quanto para os dramas a sua volta. Essa transformação de tom até ajudou a animação a se sustentar sem um final prático, como tinha ainda o que planejar para anos consecutivos, mas conseguiu dar um fechamento simbólico aos arcos que havia proposto em curto prazo.

Mesmo com a clara presença de lacunas, ganchos de tramas que seriam explorados em outras ocasiões, a sensação do final do último episódio consegue atingir a dimensão conclusiva da coisa, que para variar, termina num tom melancólico e trágico, que é o comum na dramaturgia aracnídea e foi comum na própria série. No fim, nada dá exatamente certo para ele, seu “irmão” vai parar em um hospício, seu melhor amigo fica com a garota que ele ama – que o faz terminar com a atual – porque seu pai “morre” em suas mãos na batalha como último vilão. Sim, é um final extremamente agridoce para uma animação que poderia ter tanta longevidade – EU TE ODEIO, DISNEY! -, mas dentro das circunstâncias, não tinha como ser diferente. E parando para pensar friamente, a série é tão bem-construída que até se torna “fechadinha” em si com essa conclusão precoce.

O que não elimina a lamentação de seu cancelamento. Seus 26 episódios deixam qualquer um com água na boca por mais. Ainda que a primeira temporada seja mais regular, a segunda contém boa parte dos melhores episódios – como Crise de Identidade, a adaptação da saga do planejador mestre, o próprio final –, além de um maior envolvimento emocional acumulado para o peso de seus arcos mais grandiosos. Ou seja, a excelência estava mantida em constância e a tendência era só melhorar com o tanto de ideias que ainda podiam ser exploradas, conectadas ou evoluídas. E mesmo sobre esse cancelamento precoce, e com a curta duração, a obra funciona e é rememorada, com justiça, até hoje, por agrupar com muito amor tudo que o universo aracnídeo tem de melhor a oferecer.

O Espetacular Homem-Aranha  (The Spectacular Spider-Man | EUA, 2008-2009)
Criação: Victor Cook, Greg Weisman (Baseado na criação de Stan Lee & Steve Ditko)
Diretores: Victor Cook, Jennifer Coyle, Dave Bullock, Kevin Altieri, Michael Goguen, Troy Adomitis, Dan Fausett
Roteiristas: Victor Cook, Greg Weisman, Kevin Hopps, Randy Jandt, Andrew Robinson, Matt Wayne, Nicole Dubuc
Elenco (Dublagem Original): Josh Keaton, Lacey Chabert, James Arnold Taylor, Vanessa Marshall, Alanna Ubach, Deborah Strang, Joshua LeBar, Steve Blum, Alan Rachins, Ben Diskin, Daran Norris, Peter MacNicol
Elenco (Dublagem Brasileira): Fábio Lucindo, Tatiane Keplmair, Thiago Keplmair, Letícia Quinto, Samira Fernandes, Lúcia Helena, Wendel Bezerra, Fábio Vilalonga, Armando Tiraboschi, Felipe Grinnan, Alexandre Marconatto, Guilherme Lopes
Duração: duas temporadas – 26 episódios – 13 episódios por temporada – 23 minutos cada episódio

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