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Crítica | O Esquadrão Suicida (Sem Spoilers)

por Kevin Rick
7.789 views (a partir de agosto de 2020)

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Não se enganem, O Esquadrão Suicida não é “diferente”, inovador ou transgressor dentro do gênero de super-heróis como tem sido enaltecido. É, na verdade, o mesmo conteúdo com uma embalagem tipicamente cínica dos últimos anos, como em The Boys Invencível, só que menos comprometido com a sátira e o confronto dramático, procurando o deboche e a trasheira de filmes B para seu contexto irônico de vilões assumindo o manto de heroísmo. Deixando isso bem claro, podemos desenvolver o argumento do porquê O Esquadrão Suicida consegue ser um filme muito bom, ainda que bastante elogiado por motivos errados.

Depois do insosso, sem propósito e sonolento filme de 2016, a sequência, que nem é exatamente uma sequência, já que é basicamente uma redefinição de linguagem para a equipe no Cinema – aliás, bastante fiel ao teor descartável e anárquico das HQ’s -, encabeçada por James Gunn, inicia aumentando o sangue, os xingamentos e a irreverência para encontrar no elusivo seu alicerce de desprezar as estruturas super-heroicas. É no personagem de Idris Elba que insulta a filha – um tirada de sarro fantástica ao arco do Pistoleiro (Will Smith) do primeiro filme -, nos visuais e poderes ridículos e na insignificância dada às suas mortes que o diretor de Guardiões da Galáxia encontra no R-rated seu veículo mais autoral para não exatamente contrariar o sistema, mas desconstruí-lo e transformar o mito do super-herói em uma farsa pastelão.

A premissa da obra é a mesma: Amanda Waller (Viola Davis) reúne um grupos de vilões para combater suas missões em troca de diminuição de tempo de suas sentenças, que, apesar de trazer algumas figuras conhecidas do filme anterior como Arlequina (Margot Robbie) e Rick Flag (Joel Kinnaman), é basicamente uma renovação de elenco com o mergulho nos personagens mais ridículos do panteão da DC, como Homem-Bolinha (David Dastmalchian), Caça-Ratos 2 (Daniela Melchior), Pacificador (John Cena), e outras dezenas de vilões irrelevantes. O grupo é reunido para ir à ilha sul-americana de Corto Maltese para destruir um inimigo perigoso.

A grande sacada de James Gunn são suas soluções visuais para colocar o público em constante êxtase com a missão. É por isso que este filme vai ser caracterizado por milhões de pessoas como divertido. E ele realmente é divertido. O cineasta entende muito bem como acertar as notas corretas com o humor grosseiro e a ação autoconsciente do seu gore como base da aventura sórdida, ainda que tipicamente pastelão de filmes B – no bom sentido. Vemos isso na maneira inteligente que ele constrói as interações dos personagens mais em dinâmicas de ação do que diálogos, seja a rivalidade masculina de Elba e Cena, as atitudes explosivas de Harley ou a estranheza dos poderes de Homem-Bolinha e Caça-Ratos 2 que servem tanto para trazer uma tremenda criatividade visual (especialmente na exteriorização de um trauma do Homem-Bolinha) quanto para criar uma metáfora dos ratos com estes outcasts. Aliás, todo o elenco está afiadíssimo nas ótimas performances patetas.

Além disso, considerando como a narrativa se desenrola quase que inteiramente durante uma missão, O Esquadrão Suicida tem uma engenhosa montagem que faz malabarismos com muitos personagens diferentes ao mesmo tempo, enquanto salta para frente e para trás no tempo, salpicando os espectadores com blocos que dão o espaço necessário para os personagens principais, considerando a falta de respiros narrativos para desenvolvimentos mais íntimos. E Gunn é habilidoso em tornar vários momentos separados em planos-sequências memoráveis, desde sua ode à filmes B com a ação mais cretina e sanguinolenta, o exibicionismo e o absurdo em cenas grandiosas, até o viés lúdico e cartunesco que ele emprega com efeitos especiais em alguns poderes e personagens.

Porém, eventualmente, como é a entropia de tantos filmes de super-heróis, o longa para de surpreender e se estabelece em um ritmo familiar. Gunn trabalha duro para manter as coisas frescas, jogando todos os tipos de cenários malucos e piadas mórbidas para encobrir a construção convencional da narrativa, mas, a partir ali da metade do filme, quando o choque anárquico começa a se esgotar, O Esquadrão Suicida abraça todos os parâmetros usuais do gênero, como no vilão genérico de Peter Capaldi que precisa explicar o progresso da narrativa ou então a saída ridícula do roteiro para a personagem de Viola Davis (para quem não viu o filme, vocês saberão qual é, dada a estupidez da situação). Começa-se o típico processo de afeição e redenção aos psicopatas, sua junção como unidade e o desfecho habitual.

A questão não é a previsibilidade ou o clichê, mas o fato de serem escolhas totalmente inversas ao que é proposto no terço inicial do filme. É uma ruptura total de contexto que demonstra o quanto O Esquadrão Suicida não é verdadeiramente caótico ou ousado. Ele é na verdade derivativo e padronizado narrativamente, até estúpido em algumas decisões para retirar perigos de cena, mas com uma decoração que vende muito bem o falso enquadramento da maldade. Quando se começa a pensar e olhar com mais cuidado por detrás do gore e das piadas, nota-se que a ironia só existe no R-rated, mas que estamos dentro da mesma dimensão suave de filmes de super-herói dos últimos anos.

Como disse no início do texto, é bem possível que O Esquadrão Suicida seja elogiado por todos os motivos errados. A obra tenta ser uma sátira de guerra-política e uma espécie de cinismo ao gênero de super-heróis, mas não é realmente comprometida ao longo de todo o filme nestas propostas, apenas nos dando a mesmice com um pouquinho de tempero. Felizmente, esse tempero é James Gunn, um cineasta simplesmente fantástico na construção da experiência explosiva e cômica, ainda que tenha falhado como roteirista. O Esquadrão Suicida é divertido sim, mas se olharmos bem de perto, vemos que um produto que se vende como diferente, que quebra paradigmas e revoluciona parâmetros, não vai além de uma boa comédia do gênero.

O Esquadrão Suicida (The Suicide Squad) – EUA, 05 de agosto de 2021
Direção: James Gunn
Roteiro: James Gunn
Elenco: Margot Robbie, Viola Davis, Joel Kinnaman, Jai Courtney, Idris Elba, John Cena, Sylvester Stallone, Peter Capaldi, David Dastmalchian, Daniela Melchior, Dee Bradley Baker, Michael Rooker, Alice Braga, Pete Davidson, Nathan Fillion, Sean Gunn, Flula Borg, Mayling Ng, Steve Agee, Taika Waititi, Storm Reid, Jennifer Holland, Ernesto Álvarez
Duração: 132 minutos

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