Crítica | O Estranho Caso de Angélica

estrelas 4

Ver um filme de Manoel de Oliveira é como acompanhar um romance realista do século XIX na grande tela. Em 2010, o cineasta entregou dois filmes, o curta-metragem Painéis de São Vicente de Fora – Visão Poética este longa O Estranho Caso de Angélica, nosso objeto de análise. O roteiro foi escrito pelo diretor em meados dos anos 1950, mas só em 2010, com coprodução brasileira (de Leon Cakoff, via Mostra Internacional de Cinema de São Paulo), o projeto ganhou corpo. A história é simples e não é uma obra-prima do diretor, mas traz consigo o enigma onírico e mítico da fase centenária de sua carreira.

Isaac, um jovem fotógrafo judeu, vai uma noite até à Quinta das Portas fotografar uma jovem defunta, Angélica. A partir de um incidente ocorrido durante a sessão de fotos, Isaac passa a mostrar um comportamento estranho, que chama a atenção da dona da pensão onde vive e também dos outros hóspedes, culminando com um final onde tudo se confunde: sonho, realidade, cinema, imagem, luz, antimatéria e espírito.

Declaradamente um apaixonado pela imagem cinematográfica, Manoel de Oliveira é autor de um cinema híbrido entre o teatro, a literatura transformada e o anacronismo deliberado em seus roteiros. Seus personagens, diálogos e situações estão localizados no “presente” mas parecem perdidos no tempo, em um estado de existência que pode ser encaixado em qualquer momento da História. Como não pertencem exatamente ao mundo “secular”, é lícito que algumas de suas personas não consigam diferenciar o que é real e irreal, o que é representação e o que é realidade. Em seu filme anterior Singularidades de uma Rapariga Loura (2009), o personagem Macário se apaixona por uma imagem na janela e vai em busca dessa representação mista de paixão e desejo. Em Angélica, mais uma vez temos essa situação: o protagonista — também vivido pelo neto do diretor, Ricardo Trêpa — se apaixona pela imagem da jovem morta, cuja representação nas fotografias ganha vida, passa a ser mais evidente, mais clara e mais viva do que a própria existência do perturbado fotógrafo.

Livre de excessos dramáticos – nada é pessimista ou otimista demais em seus filmes e as emoções dos personagens não alcançam ápice algum – o cinema de Oliveira exige do espectador uma entrega madura, uma renúncia da necessidade humana de saber, para dar lugar à angústia humana da incerteza, da resposta ausente, da falta. Nesse estado pseudo-nirvânico de existência, temos um cenário entre a religião e o fantástico – para o diretor essas coisas são inseparáveis, como pudemos ver em Espelho Mágico (2005) –, um mundo da morte sempre presente, das pequenas intrigas familiares e amorosas, da metalinguagem e do sonho.

Angélica traz, além dessas características, os truques imagéticos do primeiro cinema, especialmente de Méliès. O “estranho caso” do título é quase irônico, um conto mítico que pode ser lido como questionador da existência de um Deus, da paixão do diretor pelo cinema, da fixação pela morte, e que é posto como “estranho” porque parece acontecer isoladamente, produto da loucura de um jovem obcecado pelo mundo espiritual. Uma observação atenta nos faria perceber que cada personagem do filme possui as suas idiossincrasias e não são tão normais assim: o mendigo, a dona da pensão, a empregada, a irmã da morta, os hóspedes, todos vivem os seus mundos estranhos e os seus estranhos casos, a única diferença é que não são consumidos por eles.

Entre uma sonata de Chopin, o canto do lavradores da vinha e cânticos religiosos, O Estranho Caso de Angélica é exemplo de um cinema puro e muitíssimo particular. Talvez traga a oposição entre o velho e o novo mundo (os trabalhadores com as enxadas em oposição às máquinas) e talvez seja um desfile de símbolos literários – Antero de Quental, José Régio – ou um desabafo sobre o cansaço de buscar respostas, da falta de um olhar mais profundo do mundo atual para o verdadeiro estado das coisas… mesmo que esse verdadeiro estado seja uma hipótese, a admissão do fantástico, a aceitação de tudo como parte seminal de um grande campo de existências. O filme é como o poema Exausto de Adélia Prado: Quero o que antes da vida / foi o sono profundo das espécies, / a graça de um estado. / Semente. / Muito mais que raízes.

O Estranho Caso de Angélica (Portugal, Brasil, Espanha, França, 2010)
Direção: Manoel de Oliveira
Roteiro: Manoel de Oliveira
Elenco: Pilar López de Ayala, Leonor Silveira, Ricardo Trêpa, Filipe Vargas, Luís Miguel Cintra, Ana Maria Magalhães, Isabel Ruth, José Manuel Mendes, Ricardo Aibéo
Duração: 97min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.