Home FilmesCríticas Crítica | O Estranho Que Nós Amamos (2017)

Crítica | O Estranho Que Nós Amamos (2017)

por Guilherme Coral
339 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4,5

Baseado no livro A Painted Devil, de Thomas Cullinan, que, por sua vez, já fora adaptado para o cinema anteriormente por Don SiegelO Estranho que Nós Amamos não chega a ser propriamente um remake da obra estrelada por Clint Eastwood, ainda que Sofia Coppola tenha utilizado o longa de 1971 para formular a sua versão. São dois filmes com a mesma história, mas essencialmente diferentes, com a diretora do mais recente mudando o foco da narrativa para as mulheres, afastando-o do soldado presente em suas casas.

A trama se passa durante a Guerra Civil americana e tem início com Amy (Oona Laurence) descobrindo um soldado da União, John McBurney (Colin Farrell), ferido no meio do bosque. Embora a Virgínia esteja do lado dos Confederados, ela a leva para a escola para meninas da qual faz parte, a fim de que Martha (Nicole Kidman), responsável pelo local, decida o que fazer com ele. Logo ao chegarem lá, as garotas da casa, incluindo a professora, Edwina (Kirsten Dunst), se vêem atraídas pelo soldado, o que acabaria por criar um clima de instabilidade no local, com todas arranjando desculpas para mantê-lo ali.

Dispensando quase que completamente a trilha sonora, apostando no silêncio, tanto no exterior, quanto no interior da grande casa, que é interrompido somente pelos diálogos e ocasionais barulhos dos tiros de canhão à distância, Coppola consegue criar uma forte atmosfera de tensão sexual. Todos as conversas passam a girar em torno do soldado, com as garotas demonstrando forte competitividade entre elas mesmas para cair nas graças de McBurney. De início, há um ar cômico, quase que sarcástico nisso tudo, mas o tom da obra claramente vai caminhando para o suspense, assumindo uma atmosfera mais sombria.

A fotografia de Philippe Le Sourd contribui para essa construção ao filmar a obra utilizando apenas luz natural, que, claro não somente contribui para o realismo da fita, como faz a escuridão do interior da casa dialogar com os desejos ocultos dessas mulheres. A iluminação natural também ajuda a contrastar o exterior e interior da casa, com as tomadas internas gerando mais desconforto, enquanto que as externas remetem à liberdade.

Tal questão é essencial para o terceiro ato da obra, que, não por acaso, traz quase que exclusivamente cenas internas, criando uma forte sensação de enclausuramento, que dialoga perfeitamente com a situação de John McBurney. Em diversos momentos o filme nos remete a Louca Obsessão, ainda que Coppola lide com o lado mais sombrio da obsessão das mulheres pelo soldado de maneira dúbia, sempre deixando aquela pulga atrás da orelha: os acontecimentos refletem seu desejo de o manterem ali ou os eventos coincidiram com a vontade de cada uma delas? Sabiamente, a diretora deixa a cargo do espectador decidir isso, nunca nos oferecendo completa certeza.

Assistir O Estranho que Nós Amamos é como olhar para uma fotografia ou pintura antiga e, em diversos momentos, Coppola posiciona suas atrizes justamente em composições que espelham tais fotos ou retratos, o que contribui para nossa imersão nesse filme de época. A simetria sempre desempenha um papel importante na obra, não somente para compor belos quadros, daqueles que temos vontade de parar o filme somente para admirar, como para gerar desconforto no espectador, com essa perfeição imagética remetendo-nos à imagem passada pelas mulheres, que escondem perigosos desejos. Claramente a diretora se inspirou nas composições de Stanley Kubrick em Barry Lyndon, o que não chega a ser surpreendente, já que inúmeras vezes Coppola se apoia nesse diretor, um bom exemplo disso sendo Maria Antonieta.

A realizadora somente peca pela ausência da personagem negra, escrava, importante na obra original. Claramente, Coppola desejava distanciar-se de tais elementos potencialmente polêmicos, mas, ironicamente, acabou sendo criticada pelo seu whitewashing. Não chega a ser um ponto que estraga o filme ou algo parecido, mas que limita sua pluralidade – estamos falando do período da Guerra Civil americana e ter apenas uma menção a escravos gera um certo estranhamento, especialmente considerando que a abolição fora um dos motivos para a eclosão de tal conflito.

Felizmente, todo o elenco consegue nos distanciar dessa questão, fazendo-nos praticamente esquecer dela por completo. Simplesmente não há como apontar um destaque dentro da obra, visto que todos dão o máximo de si, demonstrando um trabalho sinérgico, com suas motivações girando em torno do personagem de Colin Farrell, que, surpreendentemente, demonstra uma forte química com cada uma delas, mostrando estar sempre à vontade em seu papel. O interessante é observar como todos esses personagens vão se alterando ao longo da projeção, passando por uma assustadora metamorfose que transparece em suas expressões faciais e até linguagem corporal.

Dito isso, apesar de temer cair no politicamente incorreto, Sofia Coppola entrega uma obra profundamente atmosférica, que nos transporta com toda a força para esse período distante, nos hipnotizando através de sua construção imagética, que nos faz sentir como se olhássemos para velhas fotografias. O Estranho que Nós Amamos claramente é uma obra de sua diretora e demonstra ser profundamente diferente da primeira adaptação do livro de Thomas Cullinan, com inúmeras qualidades próprias que falam por si só.

O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled) — EUA, 2017
Direção:
Sofia Coppola
Roteiro: Sofia Coppola (baseado no livro de Thomas Cullinan)
Elenco: Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Elle Fanning, Colin Farrell, Oona Laurence, Angourie Rice, Addison Riecke, Emma Howard, Wayne Pére, Matt Story
Duração: 93 min.

Você Também pode curtir

5 comentários

Gabriel Leão Buendía 14 de julho de 2020 - 23:26

Gostei muito dos enquadramentos da diretora, especialmente do último jantar.

Responder
Carlos Faria 27 de agosto de 2017 - 14:29

O filme do Siegel me traz ótimas lembranças. Se esse se equipara, vai para lista dos a serem vistos.

Responder
Maitê 13 de agosto de 2017 - 23:03

Achei impecável o elenco, a trilha sonora, a direção de Sofia. Infelizmente, o filme só ficou prejudicado diante da péssima qualidade da projeção na sala-de cinema (Center3 da Av.Paulista). A película muito escura que mal podia-se captar as expressões faciais das atrizes. Concordo com o “chefe” excelente crítica.

Responder
Guilherme Coral 14 de agosto de 2017 - 13:04

Putz, é terrível quando a projeção não está adequada mesmo. Se possível tenta rever em outra sala, vale a pena! E muito obrigado!

Responder
planocritico 11 de agosto de 2017 - 15:21

Coppola mostrou muita maturidade com esse filme. Uma pegada visceral, fugindo da visão mais explícita de Don Siegel no filme de 1971, mas fazendo uma obra memorável, com uma fotografia à base de luz natural impressionante e quase nenhum uso de trilha não-diegética. E as atrizes estão estupendas no papel. Sutis, sem depender de quase nada a não ser entonação de voz, já que até mesmo close-ups são evitados pela diretora.

Para mim, conseguiu ser um filme tão bom quanto o de 71, só que por razões bem diferentes!

Excelente crítica.

Abs,
Ritter.

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais