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Crítica | O Estranho Sem Nome

por Gabriel Carvalho
456 views (a partir de agosto de 2020)

Contém spoilers.

Durante a resolução de O Estranho Sem Nome, o personagem de Clint Eastwood é indagado sobre o seu verdadeiro nome, ao passo que responde: “você já sabe”. Como uma espécie de diabo na Terra, andando a cavalo sobre as planícies desérticas dos Estados Unidos, Eastwood incorpora mais um pistoleiro misterioso, dirigindo a si mesmo nessa espécie de reencarnação da figura vivida por ele em outrora, nos filmes de Sergio Leone. A alegoria diante deste cenário hostil, porém, é óbvia, mas não necessariamente emburrecida. Lago, pequena cidade do interior do Arizona, é uma representação do inferno; os moradores, pessoas com um passado de erros diversos, uniformizados em determinada crueldade, a qual também é, de certa forma, personificada na trama, transposta para a realidade daquelas pessoas com o intuito de corrigir as pendências deixadas em uma outra vida. A vítima do descaso e da traição urge fazer os culpados pagarem com as próprias mãos pelo que fizeram, mas a pressa é aliada de uma paciência inquietante. O estranho, surgindo do nada na pacata cidade, apresenta-se como a solução de problemáticas que ainda estão para nascer – forasteiros que também foram traídos pelos moradores, buscando vingança. Mal sabem os habitantes que, na realidade, o protagonista da obra tem contas a pagar com eles mesmos, explorando o espaço conquistado para desestabilizar os alicerces fundadores daquela sociedade. A cidade é consumida pelo fogo, pelo sangue e pelo vermelho.

O Estranho Sem Nome é, afinal, uma obra poderosíssima, transcendendo o faroeste por si só, embora contenha elementos de uma clássica história de vingança, aliada também a um conto sobrenatural. O estranho, interpretado por Eastwood, tem prepotência e arrogância exaltadas, combinadas a desvios morais muito acentuados, como o fato do personagem logo estuprar Callie Travers (Mariana Hill), mulher que o insulta no início do filme. A cena é realçada pelo fato do personagem, de início, se apresentar “apenas” como um enigmático, mas estiloso caubói de faroeste, sem qualquer relance de crueldade como esse. As ameaças surgem de outros, que vão até o barbeiro acertar as contas com o pistoleiro, pela forma como foram tratados – enorme desprezo por parte do estranho aos insultos aleatórios. A morte dos três vagabundos é rápida, veloz, induzindo um ar “heroico” no estranho, com capacidades além da natureza humana, apenas para que esta seja subvertida depois. O protagonista, enfim, sai impune de toda essa história, mas a realidade é que não é ele a ser julgado pelos seus crimes, mas os habitantes, condenados eternamente pela hipocrisia que reside em suas falas. Em momento icônico, o estranho ordena que o hotel da região seja esvaziado, com todos os hóspedes sendo expulsos. O padre, interpretado por Robert Donner, critica a atitude do pistoleiro misterioso, logo sendo rebatido com a seguinte frase: “Todas essas pessoas são seus irmãos e irmãs? Então você não se importará se eles ficarem na sua casa”.

Mesmo o roteiro sendo simples, moldando, na forma dos três “antagonistas” principais, unidimensionalidade, o trabalho contra intuitivo da direção é um enorme acerto. Apesar disso, nota-se o célebre fato do cargo de xerife ser dado a Mordecai (Billy Curtis), personagem que, durante o atentado contra a vida de Jim Duncan, traído pela sua cidade, estava escondido, sem ter participação no ato. Mordecai, dessa forma, é poupado da vingança, mas o filme pouco dá ao personagem algo que não um pequeno alívio cômico de momentos pontuais, além do carisma natural. Para um ator como Billy Curtis, acostumado a papeis estereotípicos, a maioria sem nem direito ao ganho de créditos, em decorrência de seu nanismo, é interessante essa maior relevância dada a ele em O Estranho Sem Nome. Ao mesmo tempo, a intervenção do estranho recai sobre conceitos extremamente machistas, mas dado o caráter “justiceiro” de sua presença, não realmente o justo, mas o vingativo, com sede por sangue, a atribuição coloca-o como uma figura intencionalmente antipática, ainda fugindo da cidade momentos antes da chegada dos, presumidamente, reais vilões da história. O personagem de Eastwood quer ver a cidade arder antes de depositar sua ira sobre os culpados diretos pela morte de Duncan. Contudo, a apresentação em flashbacks da fatídica noite não é suficiente para nos fazer crer nessa resposta absurda. As chicoteadas doem, mas algo precisava fazer doer ainda mais.

Ademais, talvez a maior virtude da obra encontre-se no mistério envolto de seu protagonista. Seria ele uma reencarnação de Jim Duncan, ou Duncan não morreu? Ambos os personagens são interpretados pelo mesmo ator, então as semelhanças são evidentes, mas nada é explicado didaticamente para o espectador. O Estranho Sem Nome não se preocupa em responder essa questão e termina como começou, misterioso. Paralelamente a isso, a direção é a maior responsável por transformar uma trama simples, consideravelmente previsível, em uma encenação sobre vingança e pagar de contas extremamente forte. A busca pelo suspense é uma constante; o forasteiro, um quebra cabeças por si só, com certas nuances, como o bom trato a indígenas locais, a diferi-lo de um anti-herói qualquer, mal por ser mal. Além disso, a fotografia acentua a inóspita região, com casas a serem feitas e, consequentemente, pintadas em vermelho. O estranho sobre o seu cavalo é absorvido pela imagem, tornando-se parte do cenário. A trilha sonora, inquietante, provoca os arrepios que a mera presença do sujeito indica. Por fim, ele está ali por uma razão, completamente desacordada da moral comum, de valores éticos maiores, mas ainda assim por uma razão. Seja enterrado de baixo da lápide contendo seu nome, ou cavalgando para o infinito sobre o seu cavalo, onde quer que Jim Duncan esteja, ele definitivamente foi vingado pela cidade hipócrita que um dia o traiu.

O Estranho Sem Nome (High Plains Drifter) – EUA, 1973
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Ernest Tidyman
Elenco: Clint Eastwood, Verna Bloom, Marianna Hill, Billy Curtis, Mitchell Ryan, Jack Ging, Stefan Gierasch, Ted Hartley, Geoffrey Lewis, Dan Vadis, Anthony James, Walter Barnes, Paul Brinegar, Richard Bull, Robert Donner, John Hillerman, John Quade, Buddy Van Horn, William O’Connel, Scott Walker
Duração: 105 min.

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