Crítica | O Estranho Vício da Senhora Wardh

o estranho vício da sra. wardh plano crítico giallo

Depois de três documentários e um western spaghetti no currículo, o diretor Sergio Martino entrou para o mundo do giallo com este seu quinto longa-metragem intitulado O Estranho Vício da Senhora Wardh, um terror cheio de erotismo que chegou aos cinemas italianos no início de 1971. Com roteiro de ManzanosGastaldiCaronia, a obra explora os tormentos de Julie Wardh (Edwige Fenech), que retorna a Viena com seu marido, o embaixador Neil (Alberto de Mendoza) e passa a ser atormentada por um ex-amante, além de se ver cercada pelo horror que um assassino em série espalha pela cidade.

Apostando fortemente em ligações freudianas e o tempo inteiro marcando a narrativa através da libido — focando em como o sexo ou como o desejo movem os personagens de diferentes maneiras — o diretor constrói primeiro o trauma da protagonista, as memórias de seu “estranho vício” (que na verdade é o fetiche de relacionar práticas sexuais com violência ou algo capaz de realmente ferir), e logo em seguida junta esse aspecto ao inicialmente apresentado perigo urbano de um assassino que gosta de matar com uma lâmina afiada, a arma favorita dos criminosos do giallo.

O roteiro não gasta muito tempo criando um mistério para que as mortes sejam justificadas, ao passo que uma grande investigação acontece. Há uma ameaça posta desde o início e o tal vício anunciado no título gera reações em torno da personagem de Edwige Fenech, que o espectador não sabe se é culpada ou vítima do que está acontecendo, percepção que vai se alterando à medida que o filme avança, como era de se esperar. Pouco a pouco, os personagens masculinos vão ganhando relevância, desde o perseguidor macabro e suspeito chamado Jean (Ivan Rassimov), até o charmoso assediador e também suspeito George (George Hilton). Atendendo a alguns desejos de Julie Wardh, estes personagens irão orbitá-la, criando tipos diferentes de relações tóxicas a que a personagem, em algum momento, se entrega, vendo aos poucos a série de morte se afunilar para o seu ciclo pessoal e enfim ameaçá-la.

Visualmente, o filme carrega toda a magia do gênero, com a lâmina sendo aberta várias vezes na tela, as luvinhas pretas e de couro, o assassino misterioso, algumas cenas de ângulos incomuns e os crimes violentos e bem peculiares acontecendo a diferentes pessoas. Na reta final, porém, essa premissa de um ataque mais direto e violento se dissipa e o roteiro opta por sugerir outras coisas e adaptar os assassinatos (ou tentativas de) a algo mais ordinário, mudança que não faz bem ao filme e que encontra algo ainda menos interessante no encerramento.

O que podemos sustentar de realmente bom no final é a conspiração masculina (e homoerótica) que se organiza para matar, algo não muito frequente nos gialli, mas a própria reviravolta é forçada, abrupta e um pouco confusa, deixando-se levar pelo peso que essas revelações possuem e pelo aspecto mais ordinário de “calmaria após a tempestade” que o roteiro reforça com um romance de última hora e sem sentido. O Estranho Vício da Senhora Wardh é cheio de erotismo e sangue, com um final que não explora bem o tempo de quando revelar suas surpresas, o que poderia compensar a ausência de algo mais típico do gênero em seu desenvolvimento. Ainda assim, o espectador terá momentos de grande tensão e sustos para aproveitar, além de uma visão consideravelmente diferente na forma como o diretor organiza e as forças inimigas, mais uma vez em busca de dominar e eliminar uma mulher.

O Estranho Vício da Senhora Wardh (Lo strano vizio della signora Wardh) — Itália, Espanha, Áustria, 1971
Direção: Sergio Martino
Roteiro: Eduardo Manzanos, Ernesto Gastaldi, Vittorio Caronia
Elenco: George Hilton, Edwige Fenech, Conchita Airoldi, Manuel Gil, Carlo Alighiero, Ivan Rassimov, Alberto de Mendoza, Bruno Corazzari, Marella Corbi, Miguel del Castillo, Luis de Tejada, Brizio Montinaro, Mira Vidotto
Duração: 95 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.