Crítica | O Estudante (El Estudiante, 2009)

Segundo o MEC (Ministério da Educação), houve uma elevação de 40% na proporção de idosos cursando o nível superior desde 2012. Em 2015, os noticiários apresentaram a emocionante história de Anthony Brutto, um idoso de 94 anos que terminou o curso superior após tê-lo deixado há 75 anos. Brutto havia começado em 1939, foi forçado a se afastar em 1942, tendo em vista servir ao Corpo Aéreo do Exército durante a Segunda Guerra Mundial, tentou retornar alguns anos após o fim dos conflitos, em 1945, mas teve de cuidar de sua esposa, muito doente na época.

Histórias como esta, tão comuns ao cotidiano brasileiro, nos mostram que a presença de pessoas mais velhas no âmbito universitário é uma realidade que tende a crescer vertiginosamente nos próximos anos. O campo da produção ficcional audiovisual, muito simpático com o tema, já investiu bastante na temática a ponto de ter se tornado uma espécie de subgênero do drama. O Estudante, lançado em 2009, sob a direção de Roberto Giraulti e roteiro de Gastón Pavlovich segue esta linha, ao apresentar para os espectadores a chegada de um idoso numa turma de jovens que vivenciam uma realidade extremamente distinta da sua.

A trama tentacular aborda vários temas, todos estes, por sua vez, giram em torno da demonstração de como é possível ultrapassar barreiras, enfrentar as diferenças e procurar felicidade no autoconhecimento. Eis um filme sobre um nobre homem quixotesco. Ele traz todas as qualidades comuns ao personagem de Miguel Cervantes. É ingênuo, romântico, utópico, sonhar e em alguns momentos, age impulsivamente, mas é através destas ações que as coisas acontecem e dão ritmo a sua existência. Estas características pertencem ao personagem central, o “estudante” do título, Chano (Jorge Lavat), um homem de quase 70 anos que se inscreve na Faculdade de Literatura de Guanajuato.

Na abertura a câmera passeia pela casa de Chano e nos revela a sua intimidade, tendo em mira deflagrar elementos memorialísticos, tais como fotos e livros, objetos que possuem uma imensa carga dramática para a narrativa. A família o apoia, mesmo reticente com o possível choque de realidade. “O diploma mais difícil é te chamarem de senhor”, aponta a sua esposa Alicia, preocupada, mas nada se compara, entretanto, ao painel de desencorajamento oriundo de uma de suas filhas, personagem que acredita ser “ridículo” persistir neste sonho, haja vista a idade avançada do pai.

Ao chegar na faculdade, o inevitável ocorre. Ao invés de embate de gerações, há uma ruptura de limitações geracionais, graças ao comportamento afetivo de Chano, pois mesmo tendo que lidar com um universo novo, de pessoas novas, ele se veste das metáforas de Dom Quixote em seu cotidiano e abre os caminhos necessários para estabelecer novos amigos. A promessa de cursar um dia um curso superior é uma meta conquistada, juntamente com o florescer de uma nova existência.

Ele é agradável e carrega consigo muita sabedoria, tal como os clássicos, leituras obrigatórias, segundo um dos seus conselhos. “Acabou o romantismo entre as gerações”, afirma em alguns trechos, denunciando que este encontro de gerações apresentado de forma lúdica no filme conseguiu captar alguns elementos que a juventude atual tem deixado escapar em suas relações. Quando diz “romantismo”, Nacho não está apenas falando das relações amorosas, mas tratando de respeito, da necessidade de se envolver mais, algo mais completo dentro do feixe de contatos fugazes atribuídos aos contemporâneos.

Para os mais libertários ou doutrinados pelas ideologias de gênero e discursos mais flexíveis, atentos às demandas que cada época solicita, o discurso de Chano pode parecer antiquado, no entanto, uma possível fuga para as questões absurdas que pululam sobre o contato humano na atualidade, algo que urge por modificações e tem encontrado na escola um excelente laboratório de análise, espaço que pede por pessoas mais educadas, gentis, cavalheiros, cultivadores de virtudes como a honra e perseguidores dos seus sonhos, por mais que tudo isto soe como idealismo.

Mesmo que flerte com o que os literatos chamam de autoajuda, um termo que nos estudos literários (os profissionais prepotentes mais detidamente) apontam como produção vulgar e sem valor artístico, a mensagem do filme nos deixa claro que as gerações atuais necessitam urgente de sedativo no que diz respeito aos aspectos comportamentais. Mesmo que haja técnicas pedagógicas, atividades curriculares e conteúdos tecnológicos de primeira linha, sem bons modelos, estes recursos não funcionam, por melhores que sejam. A metáfora com os clássicos literários, em especial, Dom Quixote, permeia todo o filme e reforçam esta necessidade de “modelos”.

Dentre os novos amigos de Chano temos os apaixonados Santiago (Pablo Cruz Guerreiro), Carmem (Cristina Obregón), ambos alimentadores de uma relação recente; Marcelo (Jorge Luís Moreno), interessado em Alejandra (Siousana Melikian), que por sua vez, apaixona-se pelo arrogante professor de literatura; e Eduardo (Cuauhtemóc Duque), jovem envolvido com drogas. Este será o grupo que gravitará em torno de Chano e dos seus ensinamentos.

Mais adiante, Chano receberá um golpe do destino, previsível para os mais antenados com os caminhos da “dramaturgia nossa de cada dia”, mas necessária para o desenvolvimento da moral da história. Como dito por um dos personagens no desfecho do filme, “os alunos não deixam de aprender nunca”. Pois o personagem, quando colocado numa situação complexa em sua vida sentimental, precisará contar com o apoio dos jovens que orientou para angariar forças para continuar a sua caminhada.

No que diz respeito aos aspectos semióticos, o filme consegue encher os nossos olhos graças ao excelente espaço fílmico, a região de Guanajuato, locação que por si só independe de qualquer incremento cenográfico, afinal, basta apenas uma boa câmera, um diretor de fotografia que saiba equilibrar os enquadramentos com uma boa iluminação. As canções de Agustin Lara e José Alfredo adornam o filme com o sentimentalismo do cineasta iniciante. O Estudante é um daqueles filmes que agradam mais pela atmosfera do que pela narrativa propriamente dita, mas verdade seja dita, cumpre bem o seu papel de nos mostrar que nunca é tarde para ir atrás de nossos objetivos, por mais que o universo conspire contrariamente.

Um drama leve, daqueles indicados para toda a família.  O cineasta abusa do sentimentalismo e não desenvolve muito bem as subtramas do roteiro, mas no geral o resultado é acima da média. Atinge os objetivos no que tange à necessidade de refletir a educação e da relação dos jovens com valores aparentemente perdidos na contemporaneidade, sendo um deles, o mais importante para pensar o filme, o respeito aos mais idosos.

O Estudante (El Estudiante/México – 2009)
Direção: Roberto Girault
Roteiro: Gaston Pavlovich, Ricardo Ferrer, Roberto Girault
Elenco: Cristina Obregon, Cuauhtémoc Duque, Daniel Martínez, Jeannine Derbez, Jorge Lavat, Jorge Luis Moreno, José Carlos Ruiz, Norma Lazareno, Pablo Cruz Guerrero, Silvia Santoyo, Siouzana Melikian
Duração: 96 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.