Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | O Exorcista (1973)

Crítica | O Exorcista (1973)

por Leonardo Campos
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Marco da história do cinema, O Exorcista é um filme que mesmo não assistido, pode ser facilmente reconhecido por qualquer pessoa que tenha contato mínimo com a indústria cinematográfica. A produção, hoje, possui caráter arquetípico, servindo de inspiração para diversos filmes de horror que tentam seguir o seu modelo: uma criança inicialmente comportada, que diante da presença de uma entidade maligna, começa a apresentar comportamento estranho, e posteriormente, é possuída, trazendo à tona pânico e horror para os mais próximos, sejam os pais, familiares e/ou amigos.

Lançado nos cinemas em 26 de dezembro de 1973, O Exorcista foi dirigido por William Friedkin e distribuído pela Warner Bros. O roteiro foi assinado por William Peter Blatty, autor do romance homônimo baseado em fatos reais, ocorrido nos Estados Unidos com o menino Robbie Manheim, de 14 anos, em 1949. Entre os profissionais integrantes da equipe técnica, relevantes para esta reflexão, temos Owen Roizman na direção de fotografia e Bud Smith na montagem, responsáveis por aspectos formais explorados em um tópico mais adiante.

Com densos 122 minutos de duração, O Exorcista apresenta a seguinte estrutura narrativa: numa visita a um sítio arqueológico no Iraque, o Padre Merrin (Max von Sydow, como sempre, ótimo) encontra uma estranha escultura muito parecida com a imagem do demônio Pazuzu. Através de um corte da câmera, somos levados ao apartamento de Chris MacNeil (Ellen Burstyn, igualmente maravilhosa e intensa), uma atriz envolvida numa produção cinematográfica e que precisa flertar com o comportamento estranho da sua filha de 12 anos, Regan MacNeil (Linda Blair). A menina apresenta uma série de convulsões e demonstra tamanha força para agredir as pessoas ao seu redor, levitando e falando palavrões inimagináveis para a educação que a mãe lhe submete desde pequena. Após passar por diversos médicos e tratamentos psiquiátricos, os profissionais aconselham à mãe a tentar algo alternativo: um exorcismo.

No eixo narrativo paralelo temos a história de Damien Karras (Jason Miller), um jovem padre que está com a fé balançada devido ao estado de saúde da sua mãe. Chris MacNeil consulta o Padre Karras e solicita a sua ajuda, visto que o mesmo também é psiquiatra. Inicialmente duvidando de questões no que tange à possessão, o padre descobre que o estranho idioma falado pela menina durante as agressões realizadas nos surtos iniciais é o idioma inglês ao contrário.

Mesmo cerceado pela dúvida, o padre decide solicitar permissão à Igreja para realizar o exorcismo. O que vem a seguir pode ser descrito como um dos espetáculos de horror mais bem orquestrado da história do cinema. O Exorcista foi a primeira produção do gênero a ser indicada ao Oscar de Melhor Filme, sendo ainda contemplado com outras oito indicações, ganhando duas: melhor roteiro adaptado e melhor som. O filme ainda foi indicado ao BAFTA de melhor som, e também esteve na importante premiação Globo de Ouro, onde ganhou quatro estatuetas: melhor filme – drama, diretor, atriz coadjuvante para Linda Blair e roteiro.

Como já era de se esperar em uma produção que envolve o “tinhoso”, O Exorcista possui um extenso e mitológico histórico no painel das produções cinematográficas do século XX. Diversas lendas urbanas surgiram e factóides dos bastidores foram transformados em documentários, alguns deles alegando que durante as gravações, manifestações malignas teriam sido responsáveis por mortes, desastres e atrasos ocorridos de forma misteriosa. Foram 9 pessoas mortas em circunstâncias estranhas, vítimas de quedas, assaltos e doenças, além de locações que sofreram incêndio.

As estratégias de direção de William Friedkin também eram bastante controversas, como em alguns momentos de concentração da equipe, geralmente surpreendida, pois ele dava tiros para cima sem aviso prévio, deixando todos assustados e em estado de tensão. Um freezer gigantesco foi acoplado no set de filmagens, o que deixou o local extremamente gélido, numa busca do diretor pelo “clima” ideal de filmagem.

A produção coleciona uma série de polêmicas: foi processada por Mercedes McCambridge, dubladora da voz demoníaca da personagem Regan. A profissional alegou ter fumado cerca de seis maços de cigarro por dia, além de ingerido ovos crus e maçãs defumadas, buscando a voz ideal, o mais assustadora possível, vendo a ausência do seu nome nos créditos como uma falta de respeito dos envolvidos na produção.

No que diz respeito à recepção, o público recebia sacos de vômito nas sessões, além da proibição em diversas salas de cinema, principalmente no Reino Unido e em algumas salas de Londres. Visando vencer estas barreiras, o estúdio providenciou o The Exorcist Bus, condução responsável por levar os interessados a assistir ao filme em cidades próximas. Era a indústria do cinema fortalecida pelos cinéfilos interessados em driblar a censura numa época predecessora às mídias virtuais.

Metaforicamente, alguns estudiosos da cultura alegam que no filme é possível promover um diálogo sobre a contracultura: primeiro, a menina seria uma representação dos males das drogas e da tal “juventude transviada”, ou seja, o horror das famílias tradicionais em face da nova conjuntura social. Outros apontam uma questão bastante curiosa: por que o demônio resolve assustar um lar onde um dos problemas que perturbam a “possuída” é a ausência do pai, distante por causa do divórcio? São questões que podem soar exageradas, mas não deixam de ter o seu lugar para os mais interessados numa reflexão além das questões técnicas e de entretenimento.

Diversas vezes imitado, mas nunca igualado, O Exorcista só possui duas produções que se aproximam do seu clima aterrorizante: O Exorcismo de Emily Rose, um drama que mescla elementos de tribunal e horror, e Invocação do Mal, uma assustadora narrativa sobre uma família perseguida por espíritos malignos. Annabelle, Livrai-nos do Mal, Stigmata, Possuído pelo Demônio e O Último Exorcismo são apenas algumas das inúmeras bobagens que tentam capitalizar em cima das boas ideias presente neste clássico absoluto.

Para Linda Blair, entretanto, o sucesso do filme não foi algo favorável. A atriz amargou por bons papeis, fez a continuação desnecessária do filme, pagou mico numa paródia de si mesma em A Repossuída, além de nunca mais ter conseguido atuar em produções do mainstream, tendo apenas uma pequena participação no primeiro filme da série Pânico, de Wes Craven. Basta esperar e orar para que não produzam uma refilmagem desta produção, afinal, para quê mexer no que é bom e já está quieto? O Exorcista é um filme de fácil acesso para a geração contemporânea, entretanto, se tratando da indústria hollywoodiana, nada, praticamente nada nos surpreende mais, não é mesmo, caro leitor?

O Exorcista (The Exorcist, 1973 – Estados Unidos)
Direção: William Friedkin
Roteiro: William Peter Blatty
Elenco: Max vo Sydow, Jason Miller, Ellen Burstyn, Linda Blair, Lee J. Cob,William O´Malley.
Duração: 122 min.

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18 comentários

Cine Fórum – SIES Salvador 20 de junho de 2019 - 08:05

[…] mais. O trabalho de Burstyn é visceral e dilacerante (a atriz não fazia algo tão forte desde O Exorcista), o que lhe garantiu uma indicação ao Oscar naquele ano, tendo injustamente perdido para Julia […]

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Gustavo Gutemberg 15 de fevereiro de 2019 - 23:44

Ao assinalar que a novela, adaptada para a tela pelo seu autor, baseou-se em “fatos reais”, o texto perde qualquer laivo de credibilidade. Crendices não ficam bem em pretensas “críticas de cinema”.

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JJL_ aranha superior 5 de dezembro de 2016 - 11:14

Sinceramente, não acho que invocação do mal possa ser colocado próximo de o exorcista, eu achei o clima de terror em invocação muito breve, logo vem o alívio, já no exorcista é tensão do começo ao fim, isso se deve tanto ao simbolismo (chegando a ser perigoso até) como as atuações perfeitas.

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JJL_ aranha superior 5 de dezembro de 2016 - 11:14

Sinceramente, não acho que invocação do mal possa ser colocado próximo de o exorcista, eu achei o clima de terror em invocação muito breve, logo vem o alívio, já no exorcista é tensão do começo ao fim, isso se deve tanto ao simbolismo (chegando a ser perigoso até) como as atuações perfeitas.

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Gabriel da Gama Silveira 7 de abril de 2016 - 23:29

Onde eu encontro a versão de cinema com 122 minutos?

Responder
Gabriel da Gama Silveira 7 de abril de 2016 - 23:29

Onde eu encontro a versão de cinema com 122 minutos?

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L. 23 de outubro de 2015 - 06:09

Meu filme de terror favorito.

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Claudinei Maciel 21 de agosto de 2015 - 00:06

Esse é um dos meus filmes preferidos e que tenho uma relação de amor e ódio. Eu driblei a censura na época e assisti quando tinha quinze anos, em uma sessão das 22h em um cinema de rua da minha cidade no início dos anos 80. Confesso ter ficado perturbado com as cenas e, por morar próximo de um cemitério e ter que voltar para a casa a pé, após a meia-noite, foi algo surreal naquela idade. Hoje. vejo e revejo e continuo tendo aquele medo que me marcou na primeira vez: medo por ser alo muito bem contado, muito bem feito e um clássico do terror como não se faz mais….
Obrigado pela tenebrosa lembrança!!!

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JJL_ aranha superior 5 de dezembro de 2016 - 11:17

Hoje em dia é muito raro um terror com o formato do oscar, mas ainda temos boas obras.

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JJL_ aranha superior 5 de dezembro de 2016 - 11:17

Hoje em dia é muito raro um terror com o formato do oscar, mas ainda temos boas obras.

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Edson Santos Alves 19 de agosto de 2015 - 23:15

O cinema pode trazer vários tipos de expressão, mesmo que isso seja assustador ou entre em conflito com as religiões,,,, basta saber se existe o mal? e se a atração por temáticas dessa natureza faz parte de um universo a contemporâneo. Em sendo parte desse imaginário a narrativa aponta a invocação do mal pelas ausências, que talvez afetivas
As análises refletem também um contexto que discutem suas representações , aceitação do público, as estratégias usadas para impressionar o público e seus efeitos no tempo.

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Mariane Dias 19 de agosto de 2015 - 23:11

Eu concordo que filmes tão bem arquitetado para atingir o psicológico possam alcançar seus objetivos, principalmente o de aterrorizar os espectadores. Mas acredito que estas produções só atenuam o que existe e acontece.
Eu creio na verdade Absoluta da existência de um Deus Criador e o Diabo, e que esta dualidade se reflete nas relações entre os seres humanos, a partir do momento que se decidem ao lado de um destes e assumem as consequências , ideologias e estilo de vida condizentes.
E num caminho contrário à relativização de tudo, eu acredito em verdades concretas e reais , tais como a existência de um Salvador, a eficácia da Bíblia como regra de fé e Palavra de Deus e dentre tantas outras a história do Grande Conflito entre as forças antagônicas de Deus e Satanás, e sua finalização com a renovação do mundo e a vitória certa em Cristo Jesus!!

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Edson Santos Alves 19 de agosto de 2015 - 22:22

Essas pessoas que se dizem ateias e têm medo do mal, são um bando de hipócritas, porque isso não faz sentido, se não existe Deus, não existe um ser criado por Ele, o Diabo, ou melhor, Lúcifer, antes, o anjo de luz

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João Vitor 19 de agosto de 2015 - 22:03

Sou cristão, acredito em um mundo que está além do físico, o mundo espiritual. Nesse mundo, existe Deus e os seus anjos e o Anjo que tentou tomar o lugar de Deus e foi expulso do céu, Lúcifer, que agora é chamado de diabo, satanás, entre outros nomes. Além dele, existem seus servos, anjos que o apoiaram no momento em que tentou ser Deus, esses são os demônios.
Eu creio em exorcismo, por que existem demônios e também existem pessoas que, fracas espiritualmente em intimidade com Deus, dão brechas para que demônios tomem conta do seu corpo.
O diabo é um ser que não foi criado pela igreja, mas foi apresentado ao homem em ensinamentos bíblicos, ensinamentos provindos da boca de Deus.
Muitos me perguntam por que as pessoas têm medo do “Mal”, eu creio que todos tiverem contato com ensinamentos religiosos cristãos, ou até mesmo outras religiões, e estas transmitem a mensagem de que o “mal” é perigoso e tem que vigiar para não dar lugar, por que se não o mal destroi a pessoa.

Essas pessoas que se dizem ateias e têm medo do mal, são um bando de hipócritas, porque isso não faz sentido, se não existe Deus, não existe um ser criado por Ele, o Diabo, ou melhor, Lúcifer, antes, o anjo de luz.

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Rafael Oliveira 19 de agosto de 2015 - 10:27

Tenho medo, muito medo de um dia a industria querer refilmar O Exorcista. Acho que é sua produção amaldiçoada que ainda deixa os estúdios com o cabelo em pé, por isso o material ainda está intacto. E que continue assim. Filme atemporal e ainda de grande força mesmo após mais de 40 anos.

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leodeletras 19 de agosto de 2015 - 20:30

Acredito que mesmo sendo a refilmagem algo superior, duvido que eu consiga desvencilhar do clássico. É uma relação afetuosa.

Responder
junior 29 de janeiro de 2018 - 20:55

o que realmente choca em o exorcista são as imagens e as atuações que são incriveis

Responder
junior 29 de janeiro de 2018 - 20:55

o que realmente choca em o exorcista são as imagens e as atuações que são incriveis

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