Crítica | O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio

Conselho de amigo: Se não viu nenhum trailer antes de ver o filme, mantenha-se assim, pois o material de divulgação compartilha cenas suficientes para montar o quebra-cabeça do roteiro. Aliás, para fugir completamente de spoilers, driblei por inteiro a trama do filme.

Desde que os direitos da franquia O Exterminador do Futuro saíram da mão de seu pai James Cameron, houve diversas tentativas de dar continuidade à história e um certo consenso de que nenhuma delas foi convincente, embora particularmente, a única que de fato vejo como problemática seja Gênesis. Contudo, não há como negar que a saga parece ter parado no tempo, e mesmo com filmes de que gosto como A Rebelião das Máquinas – o primeiro assistido por mim que guardo com carinho – e A Salvação, eles haviam esquecido os princípios mais básicos de o que faz Exterminador do Futuro ser uma saga especial, consequentemente falhando ao tentar apresentá-la para uma nova geração. Gênesis até tentou, mas afundou nos furos de roteiro. Agora, finalmente com o retorno do dedo forte do pai Cameron, a franquia reacende seu espírito e consegue achar o tom ideal para modernizar-se, onde a nostalgia dá uma nova voz ao presente, tal como em O Despertar da Força numa espiral de mesma fórmula, mas nova organização de ideias.

A presença do criador nesse sentido é nítida tanto na percepção de acomodação na base da história quanto na forma como ela se remodela, considerando o contexto girl power atual que só surgiu muito pelo que foi feito com Sarah Connor antes. O filme vê a oportunidade de passar o bastão sem necessariamente extinguir tudo o que foi conceituado anteriormente. As modificações são extremamente respaldadas nesse novo lugar atingido pela mulher no cinema, tanto que a história não segue apenas o maior ícone desse avanço na terceira idade, como também cria duas novas personagens tão interessantes quanto para promover o empoderamento em dose tripla e o resultado surpreendentemente gera benefícios qualitativos parecidos. Grace (Mackenzie Davis) e Dani (Natalia Reyes) espelham-se muito nas duas versões antigas de Sarah Connor, aquela mais vulnerável e “ninguém” do primeiro filme e a super badass mãe protetora do segundo – com o adendo de pegar o conceito de humanos ciborgues de Marcus Wright em A Salvação -, mas ambas possuem suas próprias personalidades e desenvolvimento para além da cíclica referenciação, principalmente por serem personagens mais femininas em vez de masculinizadas pela sobrevivência, ponto esse de fundamental importância para entender o sucesso da revitalização do roteiro, mas que é difícil falar com mais detalhes sem soltar spoilers.

Em resumo, ao contrapor Sarah (Linda Hamilton de volta à franquia) às duas novas protagonistas, a fórmula moderniza-se naturalmente, embora precise gritar por meio de diálogos expositivos o choque de realidades distintas pelas épocas em que a franquia passeou, mas é um problema pouco sentido pela necessidade de explicações também cronológicas. O único porém é que essas pontas soltas dos conceitos prévios da franquia criam diversas situações facilitadas por elipses. Por se passar muito tempo após o último (leia-se, para fins do presente filme, o segundo), o texto aproveita-se para colocar várias soluções surgidas nesse meio tempo que não chegam a categorizarem-se como deus ex machina na prática, já que não são implantadas em momentos decisivos da trama, mas não deixam de ser utensílios convenientes para a transição geográfica fácil dos personagens ou atraso calculado do vilão para promover os momentos de calmaria em que se desenvolve a trama principal. Ademais, todas as justificativas mais importantes fazem sentido e amarram a maioria das pontas soltas, embora, assim como em O Julgamento Final, alguns dos conceitos sejam deixados de lado para fornecer a continuidade da história e, o mais importante, não travar a ação.

De longe, Tim Miller foi o que melhor conseguiu recriar o senso de urgência da ameaça indestrutível que está sempre na cola dos sobreviventes. A primeira sequência na rodovia é de grande destaque, figurando-se talvez à altura das melhores do segundo filme, jogando o espectador na adrenalina da perseguição feita em sua maioria com efeitos práticos, reaproveitando aquele senso de verossimilhança tão característico dos anteriores da falta de munição, eventuais machucados durante a batalha ou mesmo cansaço físico, que deixa o perigo ainda mais letal. Uma pena que essa empolgação inicial não se repita em mesma dose no restante das sequências, embora a visceralidade nunca se perca dado o ótimo ritmo da montagem. Parece que quanto mais o tempo passa, mais eles esquecem desses detalhes, em contrapartida, com a prepotência de fazer algo mais grandioso no ato final, perde-se ligeiramente aquela sensação de que algo ruim pode acontecer com os personagens, mesmo que o clima de despedida mantenha isso em alerta.

Falta um senso de evolução das consequências da missão que, em determinado ponto já parece garantida de sucesso, mesmo que os personagens não façam ideia de como. Ao fim, tudo meio que se resolve na raça, mas ainda é plenamente satisfatório como as demais outras cenas, por serem muito bem dirigidas, até mesmo a do avião no escuro tem uma clareza calculada das movimentações para não se tornar confusa em demasia. Bem resolvido na parte da ação e do poder feminino, cabe tempo ainda de retomar, mesmo que pela tangente, outro elemento fundamental da franquia: o debate filosófico acerca da inteligência artificial, proporcionado pela presença de Arnold Schwarzenegger. Individualmente falando, chega a ser seletivo o momento que o texto toca no assunto, porém é suficiente olhando para a vista de trilogia, para concluir o ciclo da antiguidade.

E esse ciclo reconhece as pontas desgastadas dos anteriores e abraça o novo futuro apresentado que não aconteceu da maneira prevista em 1984, mas que beira o mesmo “destino sombrio” diante de tantos avanços tecnológicos sobrepostos às digressões sociais. Tim Miller deixa a sua marca de identidade, alfinetando Trump, o machismo e a política armamentista pontualmente no humor eficiente e irônico, que levanta a bandeira já na premissa de ter uma mexicana comum como a perseguida pelo futuro, e os motivos para ser ela só reforçam ainda mais como o diretor junto a Cameron conseguiu posicionar a franquia na atualidade. Embora tenha seus problemas com exposições, esse discurso sempre é permeado de maneira muito sutil e natural na trama classicista, sinônimo de que ela finalmente se modernizou dentro do possível, posicionando esse como o melhor filme da saga desde o segundo.

O Exterminador do Futuro: O Destino Sombrio (Terminator: Dark Fate, EUA – 2019)
Direção: Tim Miller
Roteiro: Billy Ray, David S. Goyer, Justin Rhodes (baseado em história de James Cameron, Charles H. Eglee, Josh Friedman, David S. Goyer, Justin Rhodes e em personagens criados por James Cameron e Gale Ann Hurd)
Elenco: Arnold Schwarzenegger, Linda Hamilton, Mackenzie Davis, Natália Reyes, Gabriel Luna, Diego Boneta, Alicia Borrachero, Björn Freiberg, Edward Furlong, Enrique Arce, Fraser James, Jude Collie, Stephanie Gil, Steven Cree, Tábata Cerezo
Duração: 128 min.

IANN JELIEL . . . Um aspirante a engenheiro da computação que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.