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Crítica | O Fantasma: A Irmandade Singh (1936)

por Ritter Fan
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A história criativa do personagem que seria conhecido como “O Espírito que Anda”, criado por Lee Falk dois anos depois de seu Mandrake, o Mágico, é tão ou mais fascinante que a história “de origem” desse que pode ser facilmente considerado não só como um dos primeiros super-heróis, como, talvez, o mais prototípico deles por reunir características que se tornariam sustentáculos narrativos para esse gênero a partir da década de 30 até hoje em dia: máscara, uniforme de corpo inteiro colado no corpo, identidade secreta, residência secreta e história pregressa trágica. Não é muito difícil ver Batman no Fantasma, por exemplo, e até mesmo Superman.

Exatamente como no caso de Mandrake, o Fantasma começou a ser publicado em tiras diárias de jornal em 17 de fevereiro de 1936, em preto e branco, ganhando uma versão colorida dominical somente a partir de 1939, com o personagem já estabelecido no imaginário popular. Seu primeiro arco narrativo, que já apresenta o Fantasma como Fantasma, mas que contém uma breve história de origem mais perto do final, levou pouco menos de 10 meses para ser completado, mas ele já contém quase todos os elementos que imortalizariam o personagem e seriam inclementemente copiados por um sem-número de criadores de personagens de quadrinhos nos anos seguintes: a máscara de pupilas brancas, o uniforme característico que, curiosamente, é indicado como sendo cinza (apesar disso, dependendo do país onde ele era publicado, seu uniforme ganhava uma cor diferente, vermelho no Brasil, com o roxo que acabou sendo o oficial só chegando por aqui muito tempo depois), o temido anel com a “marca da caveira”, a caverna em formato de caveira nas selvas do país fictício de Bengali que, logo depois, mudaria para Bangalla, seu fiel companheiro Capeto, um lobo (Devil, no original), os pigmeus Bandar (que eram canibais), nativos da região onde vive e que o ajudam, seu apelido de “Espírito que Anda” (Ghost Who Walks, no original) e, claro, o amor de sua vida Diana Palmer. Além disso, a origem da “dinastia Fantasma” iniciada no século XVI, contada no arco, permaneceu fundamentalmente intocada ao longo das décadas, algo raro em quadrinhos em geral. Com isso, os conhecedores do personagem podem notar que apenas pequenos detalhes como seu nome (e o de seus ascendentes) Christopher “Kit” Walker (ainda que o nome do fundador da dinastia, Christopher Standish, seja citado), o cavalo Herói e o anel da marca da proteção ficaram de fora desse seu início na segunda metade dos anos 30, mas que surgiriam não muito tempo depois.

As duas primeiras tiras da história, com a introdução de Diana Palmer.

Mas é curioso notar como Lee Falk começa de um jeito e desenvolve o personagem de maneira completamente diferente do que ele próprio imaginara ao longo da progressão desse famoso primeiro arco. A ideia inicial do criador, como ele mesmo afirmou diversas vezes em entrevistas, era que a identidade secreta do Fantasma fosse a do playboy preguiçoso e milionário Jimmy Wells, amigo e potencial interesse romântico da aventureira Diana Palmer. Sim, qualquer semelhança com a identidade secreta do Batman não é mera coincidência. E o referido personagem é efetivamente apresentado logo no começo da história, depois que Palmer, retornando de navio para os EUA com uma carga preciosa de ambergris ou âmbar gris (ou, ainda, simplesmente, âmbar cinza), substância rara à época usada na indústria de perfume, é salva dos piratas Singh pelo Fantasma. Falk, que desenhou as primeiras semanas da história, depois passando o bastão para Ray Moore, assistente de Phil Davis, desenhista de Mandrake, deixa muito evidente a conexão entre o super-herói e Wells, algo que só é amplificado nas páginas seguintes enquanto o misterioso mascarado investiga os piratas em plena Nova York.

No entanto, na medida em que a história evoluía, Falk começou a mudar de ideia e, no momento em que claramente haveria a revelação sobre a identidade secreta do Fantasma, a história muda abruptamente, com Jimmy Wells sendo completamente eliminado da narrativa sem maiores explicações e toda a ação sendo transferida para os Mares do Sul, genericamente entre a África e a Ásia, com a conversão do Fantasma em uma figura mítica e lendária que não morre e que é temida por todos que acreditam em sua existência. É perfeitamente possível ver o momento em que Falk larga sua ideia original, bem mais mundana (ainda que clássica) e investe na criação de uma origem complexa de mais de 400 anos de história que aí sim retira o Fantasma da linha mais genérica (com base nos olhos modernos, claro) anterior. O que era uma mera investigação sobre piratas Singh, torna-se a culminação da luta dos Fantasmas anteriores – que, para olhares externos supersticiosos é uma pessoa só imortal – contra uma organização também de centenas de anos que vive no fundo do mar, com uma originalíssima entrada a partir de um redemoinho artificial. Com isso, nasce uma lenda não só dentro da história, como também um lenda dos quadrinhos com uma origem e contextualização que, mesmo hoje em dia, com a profusão de super-heróis por aí, permanece única, justificando a fama do personagem e sua publicação ininterrupta até os dias de hoje.

A primeira aparição do Fantasma (quarto quadro da primeira tira).

Como toda história longa de tiras de jornais, A Irmandade Singh sofre por idas e vindas intermináveis, por repetição de situações e por fugas espetaculares normalmente em razão de alguma revelação de último segundo. Apesar de Diana Palmer ser introduzida como uma aventureira independente, forte e altruísta, com o primeiro quadro sendo ela esmurrando o imediato do navio onde está em uma luta de boxe, no final ela acaba mesmo só sendo a “dama em perigo” e o interesse romântico do Fantasma, sem maiores construções narrativas. Além disso, é inescapável, mesmo com o olhar da década de 30 de alguém com o mínimo de conhecimento histórico, concluir pela pegada quase que embaraçosamente colonialista da criação de Falk a partir do momento em que o Fantasma se torna uma “lenda” branca em meio a nativos subdesenvolvidos (tratados assim por diversas vezes) de Bangalla. Essa situação nunca é eliminada das histórias do Fantasma, aliás, mas com certeza foi minimizada ao longo das décadas.

Mesmo com os problemas naturais de uma primeira história de uma criação de mais de oito décadas publicada diariamente em jornal, A Irmandade Singh é uma leitura muito agradável, com Falk decididamente estabelecendo firmemente, mesmo que mudando de ideia no meio do caminho, um personagem inesquecível dos quadrinhos. O Fantasma, como sua própria história de origem, parece capaz de sobreviver a qualquer evolução, mantendo-se firme no imaginário de gerações e gerações de leitores de quadrinhos. Um verdadeiro triunfo da imaginação.

O Fantasma: A Irmandade Singh (The Phantom: The Singh Brotherhood – EUA, 1936)
Roteiro: Lee Falk
Arte: Lee Falk, Ray Moore
Editora original: King Comics (King Features Syndicate)
Data original de publicação: 17 de fevereiro de 1936 a 07 de novembro de 1936
Editora no Brasil: A Gazeta (A Gazetinha #169 e seguintes)
Data de publicação no Brasil: a partir de 02 de dezembro de 1936 (como “Uma Alma do Outro Mundo“)
Páginas: 113 (versão encadernada de 2010, com duas tiras por página)

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