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Crítica | O Fantasma de Yotsuya (1959)

Um conto samurai fantasmagórico de vingança.

por Kevin Rick
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O Fantasma de Yotsuya (1959), dirigido por Nobuo Nakagawa, é uma das várias adaptações japonesas para a famosa peça kabuki (teatro japonês) Yotsuya Kaidan, que conta uma história de vingança e terror, na qual o fantasma da esposa de um samurai começa a aterrorizar o marido. O longa-metragem de 1959 é extremamente fiel à peça, trazendo a história do samurai em questão, chamado Lemon Tamiya (Shigeru Amachi), que assassina o pai de Oiwa (Katsuko Wakasugi), após o ancião ter recusado dar a mão da filha à Tamiya. Com a ajuda de seu servo, o malicioso Naosuke (Shuntarô Emi), o samurai encoberta o assassinato e acaba se casando com Oiwa. No entanto, depois de um tempo, o personagem começa a se cansar da vida pobre com a esposa. Encontrando uma oportunidade para se casar com uma mulher mais rica, o samurai mata Oiwa envenenada. Ele só não esperava a vingança fantasmagórica.

A fidelidade de Nobuo Nakagawa não está apenas na história do conto de terror, como também na linguagem teatral do Kabuki. Os enquadramentos são frequentemente divididos em duas partes por portas ou subdivididos em quadros menores, e o cineasta se apega principalmente a planos estáticos e pacientes, transformando a mise-en-scène em uma demonstração de palco, como se o espectador estivesse vendo a obra da perspectiva de uma plateia de teatro. Interessante como essa encenação de Nakagawa não se torna apenas uma emulação do formato original da história, mas dentro do audiovisual passa uma sensação claustrofóbica, além de que o cineasta japonês é inteligente na aproximação da câmera e algumas cenas levemente giratórias (especialmente quando há lutas de espadas) para que sintamos o medo crescente e envolvente – há também uma ótima trilha cheia de percussão (principalmente de batidas de pratos de bateria) que acompanha os momentos mais aterrorizantes do filme.

No entanto, curioso como o horror sobrenatural em O Fantasma de Yotsuya (1959) demora a aparecer. Vemos Oiwa se tornar um fantasma e procurar vingança contra Lemon apenas no ato final (mais dele adiante). Algo em torno de 2/3 do longa são entregues para demonstrar a corrupção e perturbação dos atos do samurai e seu servo, e ao mesmo tempo expressar a sofrível vida de Oiwa, primeiro por ter perdido o pai, e depois no casamento infeliz e abusivo. É uma escolha narrativa interessante e extremamente autoconsciente do seu processo de vilanizar Lemon aos olhos do espectador e transformar Oiwa em uma personagem trágica até seu momento vingativo. Há, claro, uma camada moralista (como obras nipônicas adoram), mas também uma intrigante reversão do terror ao fazer a audiência torcer para o monstro. Contudo, até o ato final, vejo Nakagawa sofrendo bastante para manter um ritmo doméstico dentro do gênero de terror. O filme fica a todo instante usando a trilha sonora e algumas cenas de assassinato para compensar a falta de suspense, mas, mesmo com a duração curta (76 min.), o longa cai em um ritmo moroso e um melodrama barato e repetitivo que atrapalham a experiência.

O ato final é, porém, um primor de terror clássico e efeitos especiais práticos. Quando Oiwa finalmente começa a passar por sua transformação, o filme usa e esbanja de maquiagens macabras e gore, especialmente na ótima caracterização monstruosa do fantasma. Nakagawa imprime um horror meio gótico, bastante taciturno, simbólico e atmosférico, com jumpscares bem localizados e esparsos – o filme até aparentemente usa um filtro azul que transpassa um visual fantasmagórico. O autor também traz uma linguagem onírica no clímax, com vários zoom-ins, alucinações e sequências que parecem um pesadelo acordado – o design de produção é sensacional para o período, com sequências no pântano, trovões e ventos falsos. Além de que toda a construção dramática do abuso e corrupção de Lemon, mesmo que ritmicamente problemática, se conecta muito bem com o terror de vingança, no qual torcemos para um fantasma fazer seu acerto de contas – moralismo bem-feito, como os japoneses sabem fazer.

O Fantasma de Yotsuya (東海道四谷怪談Tōkaidō Yotsuya Kaidan) – Japão, 1959
Direção: Nobuo Nakagawa
Roteiro: Masayoshi Ônuki, Yoshihiro Ishikawa (baseado na peça Yotsuya Kaidan)
Elenco: Shigeru Amachi, Katsuko Wakasugi, Shuntarō Emi, Ryūzaburō Nakamura, Noriko Kitazawa, Junko Ikeuchi, Kikuko Hanaoka, Hiroshi Hayashi, Jun Ōtomo, Shinjirō Asano
Duração: 76 min.

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