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Crítica | O Filho de Deus

por Luiz Santiago
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estrelas 0,5

A história de Jesus já foi contada à exaustão por um grande número de mídias e sob diversos ângulos. Da visão mais questionadora à mais evangelizadora, filmar a vida do Messias se tornou um fetiche bíblico de luxo, quase sempre executado com atores e atrizes muito bonitos e socialmente padronizados, uma espécie de figuração sacrossanta que lembra os arroubos eclesiásticos do Barroco, com toda aquela santidade revestida de uma postura e construção no mínimo estranhas ao que queria representar (lembram-se de O Êxtase de Santa Teresa, de Bernini?).

No caso de O Filho de Deus, essa figuração ‘enfofiza’ tudo relacionado à história bíblica, desde o flerte de José e Maria até a crucificação de Jesus, com planos e fotografia extremamente suaves e confortáveis, uma escolha que faz o espectador menos afeito à estética de veludo se lembrar e sentir falta da Paixão de Mel Gibson, aquilo sim uma versão cinematográfica notável para o trágico e emocionante episódio da morte de Jesus.

No entanto, esses problemas iniciais de concepção estético-narrativas não são tão grandes se comparados à incompetente transformação da dinâmica televisiva na qual o diretor se baseia em um longa metragem com pouco mais de duas horas de duração. O roteiro, assim como o elenco e maior parte da equipe técnica, vêm da minissérie The Bible (2013), que em 10 episódios, adaptou eventos bíblicos da criação do mundo (livro do Gêneses) à destruição do mundo (livro do Apocalipse). Até aí, nenhum problema. Não é a primeira e não será a última vez que um longa se baseia ou deriva de uma série de TV. O problema é que o “efeito colagem” e a completa falta de discernimento lógico do diretor para o que colocar ou não em cena fez de O Filho de Deus um dos piores exercícios de adaptação bíblica já realizados.

As primeiras cenas trazem, na voz de Keith David (sim, temos um narrador!), flashes da criação do mundo, com direito a citação literal dos primeiros versículos do “primeiro livro de Moisés”. E não, você não leu errado. Em um filme chamado O Filho de Deus e cuja função óbvia é mostrar a vida de Jesus, o diretor Christopher Spencer e seus roteiristas resolveram fazer um tour eclesiástico pelas páginas do Pentateuco, trazendo não só a criação do mundo, mas também o evento da tentação de Eva e a consequente expulsão do Paraíso; o assassinado de Abel; o Dilúvio.

Há quem se sinta confortável em argumentar: “ora, mas uma história precisa ser contada desde o começo!”. Bem, se é esse tipo de “começo” a que estamos nos referindo, então vamos começar a fazer qualquer adaptação histórica desde o Big Bang! Imagine você comprar o ingresso para ver um filme sobre Bin Laden e os primeiros dez minutos falarem sobre a Grande Explosão; a formação da Terra; o surgimento da vida nos Oceanos; o surgimento dos primatas e sua grande família; a espécie humana; a invenção da escrita, do metal… Sim, soa tão estúpido quanto fazer um filme sobre Jesus começando do Gêneses.

Fica bastante claro que há uma boa pesquisa histórica por trás da produção e, num ano de épicos bíblicos como se mostra 2014, é natural que os produtores conseguissem financiamento para levar algo assim adiante. Portanto, quando falamos da colocação das personalidades históricas, de Herodes a Pilatos, temos uma correta inserção política e de atitude em cena, bem como todo o figurino romano, real ou cerimonial, com exceção dos figurantes, que aparecem vestindo ou usando coisas que não seriam inventadas ou usadas pelo menos até final do século I d.C.

Quanto à obra, vamos do [real] começo: é até constrangedor ver a rapidez gratuita com que os Reis Magos aparecem no nascimento de Jesus. Parece que eles aparataram ou utilizaram uma TARDIS para chegar a Belém. As elipses narrativas, que são ruins no início, vão piorando cada vez mais até o final do longa. Não há interação dinâmica entre os blocos do enredo (com única exceção à pequena sequência que mostra a morte dos apóstolos, no final); a montagem peca contra a santa lei do fade-out, utilizando mais esse recurso do que planos no filme inteiro; a vida de Jesus é vista em episódios desmembrados e sem nenhuma unidade de transformação psicológica e amadurecimento do personagem, como se ele fosse uma mescla de Ben 10 Divino com Pokémon Celestial, podendo evoluir e se transformar inadvertidamente de uma cena para outra como se isso fosse bastante lógico e normal para qualquer homem.

Devo lembrar aos que sofrem de amnésia teológica que, embora fosse parte da Trindade, Jesus foi um homem normal enquanto caminhou sobre a Terra, logo, não podia sair mudando completamente de sua indecisa postura frente a João Batista, no Rio Jordão, para para uma desafiadora postura frente aos fariseus ou aos comerciantes do Templo. Essa mudança, que é comum em todo humano comum, demora tempo e se chama amadurecimento. Em O Filho de Deus, não existem cenas de transição importantes para esse amadurecimento, como o evento completo do Sermão da Montanha, por exemplo. Não é preciso ser religioso ou conhecer bem a Bíblia para saber que foi aí que Jesus começou a revelar — para os crentes — a sua figuração de Cristo (e não, ele não se chamava Jesus Cristo, ele se chamava Jesus de Nazaré, ou Nazareno. “Cristo” é um título, não um nome, e haviam muitos candidatos a Cristo nesse início de século I d.C., justamente por isso os fariseus e outros “homens da lei” judaica rejeitaram fortemente a nomeação de Jesus como Cristo, Messias, “Filho de Deus”).

A reta final do filme muda mais uma vez de rumo e fala sobre a expansão do Cristianismo pelo mundo Ocidental e sua violenta receptividade nos lugares onde foi chegando. Mesmo que seja completamente descartável para o sentido geral do longa, esta é, de longe, a sua melhor parte, tanto em enredo, quanto em composições técnicas. Vai entender.

O Filho de Deus é uma produção que jamais deveria ter existido e se contentado a ser uma minissérie de TV. Ao terminar a fita, temos a impressão de que a montagem e parte da produção final foram realizadas em escolhas aleatórias num Bingo Ungido, esperando-se que o milagre da obra-prima fosse operado e o público visse algo de bom além da confortável soneca a que foi submetido durante a sessão. Não deu certo. O filme é ruim e raríssimas coisas se salvam nele, mas, com certeza, Jesus (e sua história) não é uma delas.

O Filho de Deus (Son of God) – EUA, 2014
Direção: Christopher Spencer
Roteiro: Richard Bedser, Christopher Spencer, Colin Swash, Nic Young
Elenco: Sebastian Knapp, Joe Coen, Leila Mimmack, Greg Hicks, Andrew Brooke, Louise Delamere, Diogo Morgado, Darwin Shaw, Amber Rose Revah, Matthew Gravelle, Joe Wredden, Paul Marc Davis, Rick Bacon, Fraser Ayres, Said Bey
Duração: 138 min.

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13 comentários

AleCassia Aguiar 2 de setembro de 2015 - 16:53

Não assisti este filme, mas pelo trailer vi que não valeria a pena. Não que a história de Jesus não seja interessante… pelo contrário. A caracterização, e o ator “bunitinho” não faz jus ao que é descrito em Isaías 53:3.

Quanto as críticas ao próprio Cristianismos, foram infelizes. Mais infeliz ainda o rapaz que mandou você ou qualquer um que não aceite o que está na Bíblia para o Inferno. Falta discernimento e conhecimento de Deus. E são esse tipo de “religiosos” que afastam pessoas de Deus, por serem injustamente intolerantes.

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Luiz Santiago 2 de setembro de 2015 - 20:07

Olha, @alecassiaaguiar:disqus, se o problema fosse só a representação fora dos padrões da profecia de Isaías, eu tava muito feliz, viu! A questão é que a qualidade do filme é intragável. Bem intragável mesmo…

Sobre o Cristianismo, discordamos quanto a questão de “crítica infeliz”, porque penso que nenhuma religião ou organização está livre de críticas. Fé, por ser algo bastante pessoal, é fora da minha praia e eu concordo que não se discute porque é gosto, uma forma pessoa de ver o mundo… Mas religião não. De todo modo, toda crítica ou ironia a qualquer instituição, religiosa ou não, deve manter o nível social, sem xingamentos nem nada violento… Isso é o que eu penso.

Sobre o moço descontrolado lá em baixo: complicado, não é? Mas eu sei que não são todos os cristãos que pensam dessa forma.

Abraço!

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Robson Diniz 27 de abril de 2014 - 11:15

Olá Luiz!,

Sou Cristão e gosto de filmes não fico preso a parâmetros religiosos . Quero dizer sobre o rapaz que te chamou de lixo e quer que você queime no inferno, peço desculpas por isso e quero deixar bem claro que muitos se dizem cristãos mas fingem para caluniar e difamar aqueles que seguem a Cristo.

Realmente você fez um ótimo critica como conhecedor de filmes e tais assuntos que englobam esse mundo cinematográfico, mas ao falar da fé alheia acho que se deve respeitar e evitar tais comentários, pois como você pode ver (no meu caso) vai existir uma grande variedade de pessoas com as suas doutrinas e fé!

Peço desculpas se falei alguma besteira , pois todos somos falhos e acredito que Deus sempre abençoará sua vida!

Abraços e fique na paz!!

Responder
Luiz Santiago 27 de abril de 2014 - 15:04

Olá, Robson! Fico feliz em ter um comentário pacífico de um cristão. Realmente muito bom ver isso.

Em relação ao comentário sobre a fé alheia, como eu salientei, não tive intenção, em nenhum momento, de ofender a fé, pode estar certo disso.

Já quando temos em mente o falar ou não falar sobre religiões, penso que é algo que deveríamos ir adiante sim, tanto de um lado quanto de outro (quem está dentro e fora dela). É claro que há limites de tom quando nos dispomos a discutir de maneira séria sobre o tema, sua história, suas regras (doutrinas) e tradição histórico-social. Sobre a fé em si, o sobrenatural no qual se acredita, eu raramente converso porque, como disse o apóstolo Paulo, ela “é o firme fundamente das coisas que não se veem”, portanto, algo particular. Agora, sobre religião, no sentido mais amplo e plural da palavra, me sinto bastante confortável em falar a respeito, não só pelo conhecimento de causa quanto pelo estudo histórico sobre o tema, e, claro, porque acredito que é algo que sempre deve ser discutido (não aceito o ditado “religião não se discute”). Um bom debate sobre o tema pode ser bastante produtivo. Só para você ter uma noção, peço que dê uma olhada nas minhas conversas com um leitor na crítica de Noé #01: Por Causa da Maldade dos Homens, aqui no site mesmo.

Abraços e fique na paz também! Volte sempre!

Responder
Robson Diniz 28 de abril de 2014 - 15:57

Obrigado pela resposta , fico muito feliz em saber que também tem essa visão que “religião não se discute” , gosto de filosofar com pessoas que não seguem a minha doutrina (pois além de tudo estou edificando a vida dela, no que eu acredito) sem “empurrar” ou enfiar “a goela abaixo”.

Estarei sempre aqui pois gosto de filmes !! e como eu disse fiquei feliz com a sua resposta e estou mais a vontade de participar nos comentários !!

Abraços e que Deus lhe abençoe!!

Responder
lily 21 de abril de 2014 - 20:38

Eu ainda nao o assistir..maas
gostaria de saber se esse filme esta realmente de acordo com a biblia?

Responder
Luiz Santiago 22 de abril de 2014 - 06:02

Lily, sua pergunta pode ser respondida de duas formas.

a) De acordo com a temática bíblica.
Nesse caso, sim, a temática deste “O Filho de Deus” é exatamente a mesma temática da Bíblia. É uma adaptação literária, e nesse caso, a fonte literária é a Bíblia.

b) De acordo com a sequência cronológica/lógica bíblica.
Nesse caso, não. Não existe lógica no trabalho de adaptação para “O Filho de Deus”. O único ponto que tem, nesse caso, é o respeito à timeline da vida de Jesus, mas de resto, o roteiro não obedece ao formato lógico bíblico.

Espero ter ajudado.
Volte sempre!

Responder
Victor Andrada 20 de abril de 2014 - 16:17

Como é que alguém consegue cometar tantos pecados num texto só. O fato de você saber escrever bem não te dá o direito de falar merda o tempo inteiro e disfarçar com palavras bonitas. Eu queria ver você sofrendo queimando no fogo do inferno, seu lixo humano. Vá na igreja, ore e se converta, é Deus que está falando através de mim. Sinto dó de você. Você poderia ser um bom servo de Deus.

Responder
Luiz Santiago 20 de abril de 2014 - 16:35

Olá, Victor. Como está? Obrigado pelo seu comentário!

Rapaz, há uma miríade de manifestações emotivas no seu comentário, do ódio ao reconhecimento de algo que alguém faz bem (obrigado por isso, por sinal!), o que me deixa apreensivo em relação à sua sanidade mental. Você tem laudo médico sobre comportamento bipolar? Procure ajuda, moço. Ou faça uma campanha forte de oração e jejum, de preferência com subidas ao monte, vigílias e leitura de Salmos.

Quero dizer que não quis ofender sua fé com o texto. É claro que há um tom de ironia, mas isso é apenas uma crítica de cinema e, como tal, um misto de pontos do que uma crítica deve ter + a visão particular (justificada, não “achada”) de quem a escreve. Ademais, é uma crítica cinematográfica, não um panfleto de evangelização, correto? De qualquer forma, se um filme é ruim, seja ele sobre Jesus, Iemanjá, Satã ou Xuxa (e os Duendes), falaremos sobre isso.

Quanto a você estar sendo usado por Deus para falar comigo… Oh, meu caro Victor. Que pena. Você sabe tanto quanto eu que o critério de Deus para usar pessoas e coisas para falar com outras pessoas nem sempre foi alto. Ele usou um espinheiro pegando fogo pra falar com Moisés; uma jumenta pra falar com Balaão e uma parede pra falar com Belsazar. Ora, se ele usou um espinheiro, uma jumenta e uma parede… Bem, eu poderia continuar, mas não vou, você já deve ter entendido o meu ponto.

Grande abraço e volte sempre!

Responder
Danilo Lopes 22 de abril de 2014 - 16:38

Luiz, eu já gostava dos seus textos, mas depois desse comentário…virei seu fã, hahahaha! Agora uma sugestão: já que vcs aqui do Plano Crítico gostam tanto de especiais, que tal fazer um sobre o Monty Python? Esse sim daria bastante material! De resto, fica aqui meus parabéns pelo trabalho de vocês, especialmente o especial Alfred Hitchcock que está muito bom!

Responder
Luiz Santiago 23 de abril de 2014 - 01:07

Olá, Danilo! Obrigado pelo prestígio, cara. Fico realmente muito feliz. 😀
Sobre o Monty Python, digamos que você meio que recebeu uma grande revelação, velho: eu e o Ritter já tivemos essa conversa e vamos fazer sim. Será para o final desse ano, você via perceber que as postagens começarão a aparecer nas nossas redes sociais lá para Outubro.

Obrigado por acompanhar o nosso trabalho!
Abração!

Responder
Rafael Gardiolo 17 de abril de 2014 - 15:22

Uma sessão dupla com Noé seria, no mínimo, interessante. Discordo quanto ao “Paixão de Cristo” ser uma versão cinematográfica notável. Meu Jesus favorito ainda é o Dafoe.

Responder
Luiz Santiago 17 de abril de 2014 - 17:15

Olá, Rafael.
Eu ainda não vi “Noé”, então não posso ter certeza, mas acho muito difícil que seja tão ruim quanto! hehehe
Quanto à “Paixão” do Mel Gibson, eu me referi naquele período unicamente a uma comparação com a morte de Jesus, a “Paixão”, propriamente dito. MAS, eu gosto bastante do filme. E também gosto muito do Jesus de Dafoe!

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