Crítica | O Filho de Joseph

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estrelas 3

Com um modo cômico de estabelecer e perverter a procura pessoal de seus personagens, Eugène Green resolveu testar a forma de fazer cinema em um conto contemporâneo sobre a história de José e Maria, ou sobre um jovem Jesus com reais problemas de relacionamento em relação à sua mãe e ao seu verdadeiro pai.

O filme é, para todos os efeitos, uma “perversão” da história bíblica, mas não deixa de ser um filme interessante e que nos fará pensar bastante sobre os papéis refigurados da imagem de Deus, Jesus, José e Maria, com posturas que vão da mesquinhez à profunda solidão. E para representar isso, o diretor lançou mão de um modelo minimalista na direção de atores, que recitam praticamente todo o texto (apenas na reta final é que os vemos atuar de forma mais próxima a uma presença naturalista), como se fossem estátuas religiosas que ganharam vida no século XXI, vestiram com as roupas do século, vestiram as máscaras do século, mas não conseguiram se livrar da postura pétrea, quase sem vida, ao falar uns com os outros e, às vezes, para o espectador.

Aqui, Green mostra leves diferenças na direção — certamente causará estranhamento em quem viu La Sapienza a pouco tempo –, ao menos no aspecto dramatúrgico e sua estrutura ao longo da fita. Por mais que seja óbvia a distância que este elemento teso na postura dos atores estabelece para o público, ele é uma maneira de representar o relato bíblico em um cenário completamente diferente e, embora não funcione muito bem na totalidade (o começo, especialmente, pelo tremendo exagero; e depois, pelas ações incompreensíveis por parte dos personagens), serve como mecanismo de separação do mundo secular para um outro patamar, de modo que é possível reavaliar algumas atitudes ou mesmo o texto estendido para cenas que não mereciam essa extensão.

A teatralidade também se dá na construção do roteiro, dividido em atos um tanto cínicos, todos trazendo momentos de crises de relações encontradas na Bíblia: O Sacrifício de Abraão, O Bezerro de Ouro, O Carpinteiro e Fuga Para o Egito. Na arte — um dos pontos fortes dos filmes de Green e que ele faz questão de ressaltar através de sua direção –, vemos o famoso quadro de Caravaggio, O Sacrifício de Isaac (1603), além de uma representação sacra em uma igreja. As artes plásticas, a música e a arquitetura são elementos que adicionam substância aos personagens, como se tentassem agarrar-se a tudo quanto é imagem, símbolo e signo para validarem suas próprias existências.

Na reta final existe uma boa construção de suspense e uma interessante alegoria à passagem bíblica da fuga de José e Maria, aqui motivada por um crime cometido por Vincent. Como disse antes, os blocos possuem boa dose de cinismo e é impossível não perceber alguns toques cômicos e até críticas feitas pelo diretor. A mensagem final vem nas entrelinhas e vai ter interpretações diferentes para os espectadores, dependendo de sua proximidade com a mitologia cristã ou sua aceitação para certos caminhos cinematográficos.

Uma das referências mais interessantes da obra está na citação de Deserto Rosso – O Dilema de uma Vida (1964), e indica uma possível destruição (nota escatológica?) e esperança para a humanidade. Mesmo sabendo qual foi a intenção do diretor e de quais passagens bíblicas O Filho de Joseph traz seus núcleos, não evitamos a reconstrução da saga através de uma divindade que, a pedido de um anjo, aproxima seu pai adotivo (ou verdadeiro?) de sua mãe solitária. Talvez para cristãos, essa brincadeira seja herege ou desrespeitosa, mas o diretor não faz isso de maneira escandalosa em nenhum momento. Ele apenas está brincando com possibilidades, acenando, inclusive, para o caminho de Godard em Eu Vos Saúdo, Maria (1985). Se o espectador conseguir atravessar o modelo de atuação adotado no filme, terá diante de si um enredo que o fará pensar bastante a respeito das relações entre os homens, o divino, os símbolos e os mistérios do cotidiano. E da vida.

O Filho de Joseph (Le fils de Joseph) — França, Bélgica, 2016
Direção: Eugène Green
Roteiro: Eugène Green
Elenco: Victor Ezenfis, Natacha Régnier, Fabrizio Rongione, Mathieu Amalric, Maria de Medeiros, Julia Gros de Gasquet, Jacques Bonnaffé, Christelle Prot, Adrien Michaux
Duração: 113 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.