Crítica | O Finado Sr. Gallet, de Georges Simenon

O FINADO SR GALLET PLANO CRITICO MAIGRET SIMENON

O Finado Sr. Gallet (1931), segundo livro da série do Comissário Maigret, nos proporciona uma impressionante narrativa de Georges Simenon sobre uma investigação que tinha absolutamente tudo para ser sem graça, ordinária, simplória e desinteressante e que acaba sendo um dos casos mais tristes e marcantes desse corpulento Comissário, com seu inseparável cachimbo e sua muito humana postura diante de toda a situação que tem diante de si.

A trama aqui se passa entre os dias 27 de junho e 6 de julho de 1930, em basicamente três lugares: Sancerre, Saint-Fargeau (Sena e Marne) e Paris, na Rua de Clignancourt. Como vemos frequentemente nas narrativas de Simenon, a criação de uma atmosfera é rapidamente realizada, e dessa vez, o calor impera. A sensação de claustrofobia é a tônica de toda a primeira parte do romance, que se ocupa de colocar o investigador em um caso que ele nem deveria estar e chega a ser dolorosamente divertido ver que eventos e situação da força policial francesa levaram Maigret a assumir a investigação do estranho assassinato de Emile Gallet.

A demarcação de um hotel como centro das investigações foi uma baita escolha do autor. Particularmente gosto muito de histórias (dentro e fora da literatura) que se passam em hotéis. Acho ambientes absurdamente ricos em simbologias e abertos a muitas possibilidades interessantes, da mais macabra à mais surrealista e feliz possível. No presente caso, o crime ocorre em um determinado quarto do Hotel e Maigret se estabelece no mesmo lugar, primeiro por conveniência, diante do momento de sua chegada, mas depois isso se mostra parte de seu instinto, coisa que ele jamais ignora, mesmo que tente.

Algo que martela na mente do leitor e que o autor faz questão de construir com a maior solidez possível é a ideia de que a vítima era a pessoa mais… difusa possível, com traços, pessoas e história em torno dela que pareciam quase querer esquecê-la. Em adição a isso, o crime, a forma como o corpo foi encontrado e todo o aparente “caso” para ser investigado parece ser uma bagunça armada sem querer, onde tudo transparece falsidade e, ainda assim, um bizarro senso de realismo. É sob esse manto de contrariedade, uma esposa insuportável (Aurore Gallet), um filho hepático e intragável (Henry Gallet) e um castelão reticente (Tiburce de Saint-Hilaire) que o caso começa a avançar, primeiro com a colocação das peças no tabuleiro, e depois, já na reta final do livro, com a desconstrução (e revelação) de tudo o que estava por trás delas.

É impressionante a maneira como o autor apresenta e desenvolve o caso, sempre puxando algumas pontas largadas em um momento inicial do livro, para que fizesse parte das respostas no meio do caminho. Claro que nem todas essas retomadas são feitas em grande estilo, mas a regra aqui é sempre uma ótima resolução para os personagens coadjuvantes, seja por algo que eles mesmos fizeram ou algo que fizeram com eles, como acontece com o paciente Joseph Moers, do laboratório forense. Apenas na reta final, na passagem de um patamar de desconstrução do caso para outro é que o autor acaba tendo maior problema de ritmo e, para mim, encontra o único problema de coesão do livro, que está relacionado a uma certa engenhoca.

O grande apego de Simenon a seus personagens e a maneira tão humana, comum e humilde com que constrói Maigret é a cereja do bolo. O Comissário se transforma ao longo do livro, passa de alguém apático à realidade do finado para alguém furioso, cheio de indiretas, cinismo e jogos perigosos de investigação, especialmente no final do livro. A maneira como ele guia a grande revelação para o público é incrível (à parte o tratamento dado à engenhoca, que citei antes) e é ainda mais tocante, triste e inesquecível a forma íntima com que o finado é, enfim, representado nas últimas páginas. Em tudo, aqui, a narrativa é uma surpresa. E uma daquelas que faz a gente pensar sobre a nossa própria existência e sobre o legado que deixaremos no mundo quando a gente se for. Uma reflexão provocada por um livro policial, imaginem só!

O Finado Sr. Gallet (Monsieur Gallet, Décédé) — Bélgica, fevereiro de 1931
Série Comissário Maigret – Livro #2

Autor: Georges Simenon
Editora original: A. Fayard
No Brasil: Companhia das Letras (novembro de 2015)
Tradução: Eduardo Brandão
160 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.