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Crítica | O Fotógrafo de Mauthausen

por Leonardo Campos
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No desenvolvimento narrativo de O Fotógrafo de Mauthausen, a imagem é poder. Não exatamente o que é captado pela adequada direção de fotografia de Aitor Mantxola, boa observadora de todo drama atravessado por Francisco Boix (Mario Casas), o nosso protagonista. O poder descrito aqui é o da fotografia que registrou momentos cruciais de um dos tantos momentos aberrantes dos conflitos da Segunda Grande Guerra Mundial. Ao longo dos extensos 110 minutos de filme, acompanhamos Boix preso no complexo de campos de concentração de Mauthausen. Ex-soldado combatente na Guerra Civil da Espanha, ele tenta a sobrevivência num momento histórico caótico e se torna fotógrafo exclusivo do diretor do campo em questão. Não fosse o tempo de duração e alguns diálogos pouco empolgantes, o filme avançaria ainda mais.

Sob a direção de Mar Tagarona, cineasta guiado pelo roteiro de Roger Danes e Alfred Perez Fargas, este drama de 2018 nos expõe várias situações testemunhadas pelo fotógrafo, algumas apenas registradas na memória, outras captadas por suas lentes fotográficas. Ao descobrir que o Terceiro Reich perdeu para os soviéticos na Batalha de Stalingrado, Francisco Boix parte numa odisseia em busca da salvação das imagens que simbolizam documentação valiosa para a posteridade interpretar fragmentos desta era de tanta inconsequência entre seres humanos. É uma jornada com poucos movimentos ágeis, mais letárgicos do que deveria ser, mas ainda assim, um retrato interessante sobre uma época que já foi resgatada numerosas vezes.

No complexo, os prisioneiros fabricavam armamentos, munições, peças de aviões e outras solicitações do regime totalitário que exigia o trabalho forçado numa área que hoje é um museu revelador. Gerido por Paul Rickin (Richard von Weyden), o fotógrafo observa o sofrimento, as torturas realizadas pelos alemães, os ex-soldados e comunistas entregues aos governadores do nazismo, dentre outras vítimas em potencial para os insanos que desejavam poder e dominação, responsáveis pelo maior marco negativo do século XX. São situações dramáticas expostas diante da condução musical de Diego Navarro, textura com tons trágicos, sonoridade para as cenas que se desenvolvem nos espaços concebidos pelo design de produção de Rosa Ros, eficiente nos detalhes, na gestão da direção de arte com seus adereços simbolicamente imersivos.

A edição de José Luiz Romeu privilegia os planos relativamente longos, bem como permite uma quantidade de cortes que mantém o filme num ritmo lento, mesmo nas cenas de maior tensão nos diálogos. Ainda sobre a visualidade, há também a neve, abundante, sem exageros, mas também não econômica, recurso que transmite toda a frieza e abandono de qualquer noção de Direito Humano, concepção que seria oficializada apenas depois dos conflitos desta fase tenebrosa da história da humanidade. Essa preocupação do próprio filme em acertar visualmente dialoga numa relação metalinguística com o próprio conteúdo sobre imagem proposto no interior da narrativa, ao nos apresentar o fotógrafo diante dos espetáculos teatrais que ocorriam no complexo, a preocupação com a posição das coisas, os registros nos momentos de crueldades e outras solicitações fotográficas.

Eram pedidos realizados por comandantes que já tinha consciência da simbologia da imagem como documento que reforçava a glória diante da dominação durante o período em que estiveram com algum poder em mãos. Inicialmente pequeno, o complexo de campos construído a 20 quilômetros da cidade de Linz cresceu exponencialmente e se transformou num dos maiores complexos de trabalho escravo durante a Segunda Guerra Mundial, apresentada ao longo de O Fotógrafo de Mauthausen por um viés voyeurista do horror, afinal, a imagem na narrativa ocupa um espaço de poder, mas também de registro do macabro, sem nenhum toque sobrenatural, ao contrário, violentamente humano. Um conflito entre monstros humanos guiados por um desejo de soberania burra e tosca, fundamentado por leituras equivocadas de compêndios científicos, etc.

Durante O Fotógrafo de Mauthausen, pude recordar algumas passagens do elucidativo Memória e Sociedade: Lembrança de Velhos, livro de Ecléa Bosi que em determinado trecho, afirma que somos, de nossas recordações, apenas uma testemunha que as vezes nem crê em seus próprios olhos e faz apelo constante ao outro para que confirme a nossa visão. É um estudo específico, recortado de um momento histórico brasileiro específico, mas que salvaguardadas as devidas proporções, dialoga com a trajetória de Francisco Boix, um homem com um conteúdo tão absurdamente superlativo em mãos que arrisca a própria vida para salvá-lo, tendo em vista manter esses registros como uma espécie de “outro” no testemunho da história perversa na qual esteve mergulhado, um individuo que encontrou na fotografia o mecanismo de resistência para suportar o seu tenebroso contexto histórico.

O Fotógrafo de Mathausen (El Fotógrafo de Mathausen) — Espanha, 2018
Direção: Mar Targarona
Roteiro: Alfred Pérez Fargas, Roger Danès
Elenco: Abel Rodríguez, Adrià Salazar, Alain Hernández, Albert Mora, Andreu Carandell, Dénes Ujlaky, Eduard Buch, Emilio Gavira, Erik Gyarmati, Frank Feys, Gábor Deák, Igor Szpakowski, Joan Negrié, Koos Vos, Luka Peros, Macarena Gómez, Marc Rodríguez, Mario Casas, Marta Holler, Miguel Ángel González, Minnie Marx, Nikola Stojanovic,
Duração: 110 min.

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