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Crítica | O Fugitivo (1932)

por César Barzine
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O Fugitivo começa em um inferno e termina em outro; porém, ao passo que o primeiro é cultuado como um ambiente de heróis da pátria, o segundo é visto socialmente como o poço mais fundo do qual um homem pode fazer parte. Trata-se do front de batalha e de uma penitenciária. Neste último caso, não uma simples penitenciária, e sim uma especializada em trabalhos forçados, e ainda com direito à chibatadas e pernas acorrentadas. O protagonista James Allen saiu da guerra não para expor exaustivamente seus atributos militares e ser um modelo de pessoa – como seus pais querem exibir -, seu plano é ser engenheiro. Cativado por isso, ele entra na verve de alcançar esse objetivo, mas em meio ao insucesso, acaba sendo preso injustamente.

Mervyn LeRoy conduz um retrato sobre um país que não deu certo, que traiu seus próprios princípios e se voltou contra o indivíduo (no sentido filosófico e político da palavra), cujo valor, em tese, tanto reconhecia. Antes de tudo, por consequência de um julgamento aparentemente superficial (dado que o depoimento de uma testemunha já esclareceria o erro), James foi condenado por um crime em que não fez parte. A partir disso desenrola-se uma gama de ações e reações que vai construindo um infernal jogo em busca da liberdade do ex-soldado. O que vai muito além da mera adrenalina de um filme de ação, apresentando um duro embate entre um cidadão e a autoridade estatal que leva, tanto ao público quanto ao protagonista, à descrença no Estado e na Justiça.

É como se James estivesse numa situação parecida com a de Josef K., de O Processo (não li o livro, mas conheço a linguagem de Kafka por A Metamorfose e Um Médico Rural), em que a burocracia e a ineficiência colocam em xeque a liberdade de um homem. Porém, se no romance K. investe toda a narrativa na defesa de sua inocência, no filme James faz o caminho inverso: o cerne de seu processo está na fuga, na própria prisão e na promessa de liberdade. Tudo isso mediado através do caos provocado por um sistema que busca manter a ordem. James Allen está imerso em um empecilho que se renova a cada momento; e que, em cada salto, se demonstra ainda mais obscuro. 

O absurdo daquela realidade o consome tanto que todas as suas expressões (facial, corporal e verbal) descarregam reações análogas a de um animal selvagem ao ser dominado. No momento em que seu pai o conta sobre o resultado do indulto, ele se prende na mais amarga desesperança e revolta; não quer saber de manter a postura: grita, chora e se descontrola sem o menor pudor. Do mesmo modo, a interpretação fenomenal de Paul Muni e as inquietudes de seu personagem atingem um semelhante vigor no final da sequência do caminhão, onde tudo aquilo que ele passou entra em choque com a adrenalina daquela segunda fuga. Pela sua entonação física, ele parece estar desnorteado quanto aquela realidade. O close de Muni descabelado e exausto é a síntese de um homem que tanto apanhou e que agora se vê completamente destruído. Assim como a própria situação que o compõe, em que a corrida citada representa simbolicamente a disputa pela sua pouca dignidade que restou, levando ao ápice a noção de peso dramático e psicológico por debaixo daquela ação frenética.

Porém, adrenalina e repressão não são as únicas coisas das quais perpassam o filme. Em meados do segundo ato, após a primeira fuga, James consegue se restabelecer socialmente ao regredir para seu antigo desejo de ser engenheiro. E, além de equilibrar a sua vida, ele atinge um alto grau de prestígio e nível financeiro. Nesse momento tudo está dentro dos eixos: carreira, casa, mulher e liberdade. Por um instante não muito curto parece que estamos diante de um outro filme. Essas mudanças funcionam como um “intervalo” a fim de inverter a trama e mirar em uma abordagem mais discursiva. A partir do momento em que a questão penal volta a atormentar o ex-detento, surge também uma jornada para denunciar e combater as prisões de trabalhos forçados. Seus abusos passam a ser discutidos por meios midiáticos e jurídicos, e a sua dura batalha se desloca à opinião coletiva. Não é à toa que o longa é permeado por manchetes de jornais anunciando a situação de James entre uma cena e outra. O efeito desse recurso é a consolidação de sua imagem como símbolo de uma questão social, uma forma narrativa de reafirmar a moral do roteiro.

O diálogo político surge com ênfase no filme, mas o incômodo e as dores do protagonista ainda são os elementos centrais. Ele retorna à cadeia para cumprir um pacto legal de noventa dias, o que garantirá anistia depois disso. A promessa de um tratamento adequado no presídio é descumprida, assim como a sua futura liberdade. A esperança já não é mais um combustível, e a revolta torna-se o único tipo de manifestação possível. O fervor máximo dessa insubordinação se encontra, como esperado, em mais uma fuga. Esta em que Mervyn LeRoy demonstra um bom uso da decupagem ao estilizar a direção dos automóveis que comandam a perseguição. A câmera, em leves ângulos de contraplongée, se mantém na superfície do chão, observando os veículos por debaixo deles – o mesmo maneirismo foi usado em Sem Novidade no Front e No Tempo das Diligências.

A parte técnica de O Fugitivo também demonstra excelência em seu desfecho. James, acabado da cabeça aos pés, se reencontra com sua última paixão, mas não numa forma romântica. O ambiente é quase que completamente escuro, deixando um pouco claro apenas pequenas partes dos corpos do casal. Em um dos momentos finais, LeRoy entrega, por um plano americano, uma mistura sombria de comoção e marginalidade diante daqueles amantes: ele, à frente do quadro e com o vulto inclinado; ela, um pouco de costas. Em seguida, ele se despede e vai sumindo gradualmente no escuro. Sua figura é consumida por aquele abismo. Sobrando espaço apenas para dizer algumas palavras que expressam o eterno retorno de sua vida: ser um fugitivo.

O Fugitivo (I Am a Fugitive from a Chain Gang) – EUA, 1932
Direção: Mervyn LeRoy
Roteiro: Robert E. Burns, Howard J. Green, Brown Holmes, Sheridan Gibney (não creditado).
Elenco: Paul Muni, Hale Hamilton, Louise Carter, Glenda Farrell, Helen Vinson, Noel Francis, Allen Jenkins, Preston Foster, Edward Ellis, Everett Brown, David Landau
Duração: 93 minutos.

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