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Crítica | O Gambito da Rainha

por Iann Jeliel
3871 views (a partir de agosto de 2020)

SPOILERS moderados.

O preço da genialidade sob a óptica feminina revela que até mesmo na identificação de dons especiais a feminilidade é reprimida. O Gambito Rainha é estruturalmente convencional, pensando nas escolhas de roteiro típicas para tal contagem de história. Trata-se da velha jornada de origem, ascensão, queda (durante um grande desafio), demônios internos e a máxima glória de uma figura extraordinária em uma atividade específica. Não se engane, no entanto, que a minissérie criada por Scott Frank tem nessa atividade específica o diferencial, afinal, as qualidades narrativas da produção da Netflix vão muito além da exploração íntima da mística do tabuleiro de xadrez, configurando-se em um exímio estudo da complexidade dramática de sua protagonista, como também uma excelente reflexão acerca da repressão do machismo estrutural para a constante criação de mentes geniais femininas.

A série é sutilmente precisa nesse discurso desde o título, que pode ser traduzido como  “a superação de uma rainha para surpreender seu adversário”, num jogo que, como a própria Beth Harmon menciona, possui “um universo próprio dentro de 64 espaços”, que não ironicamente tem a rainha como a peça de melhores valências, e o rei, um mero capacho a ser protegido por ela. Harmon para se tornar rainha, mesmo com o seu dom, precisa passar por uma série de provações pessoais que indiretamente estão ligadas a sua natureza feminina ou daquelas que estão ao seu redor. Pode não parecer, porque a dramática da pressão de genialidade com o vício em bebida e calmantes, o luto a maternidade ou a falta dela num orfanato parecem ser condições gerais independentes de gênero, mas não são, mesmo que aparentemente estejam colocadas de tal forma no piloto, que acompanha parte importante de sua história enquanto criança.

Até por isso, considero o primeiro capítulo o mais comum da série, que melhora infinitamente depois que passa a contar com a presença da hipnotizante Anya Taylor-Joy em cena, que diga-se de passagem, é uma força da natureza com seus olhares extremamente expressivos que, junto de uma linguagem corporal estudada e de uma entrega psicológica completa à personagem, trazem uma das melhores atuações do audiovisual em 2020. Pois bem, é justamente no decorrer dos episódios que essa impressão inicialmente tomada começa a fazer sentido, pois ela demonstra ser apenas uma parcela de um espelhamento a ser concluído durante as etapas da jornada, que deixa claro que suas dificuldades não necessariamente vieram de decisões próprias, e sim de consequências vindas da estrutura social em que estavam encaixadas que não aceitava mulheres jogando xadrez.

E não, não é coincidência essa ser a única parcela em que ela confrontou essa estrutura social por escolha, adquirindo um dote extraordinário. Provavelmente, se ela não tivesse feito esse confronto na inocência do olhar infantil e literalmente debaixo de um porão com a ajuda de outro marginalizado socialmente – a figura do homem de limpeza -, seu talento nunca seria nem descoberto. Algo que acontece com diversas mulheres desde sempre por falta de incentivos, estímulos ou prisões a convenções sociais masculinas que as impedem de desbravar ou mesmo descobrir seus dons próprios.

É só observar na própria série as histórias de personagens femininas secundárias. A mãe adotiva de Harmon poderia ser uma exímia pianista se não fosse presa a um casamento abusivo. A francesa que tem relacionamento com Harmon durante a série é desenvolvida como uma mulher inteligente na área da estética, mas comenta que o universo da moda a vê como um mero objeto. E a mais importante, a amiga do orfanato de Harmon, Jolene, é colocada como exemplo positivo numa vida futura, mas a muito custo, é só observar a casca de personalidade que a personagem precisou desenvolver para chegar até ali e ser igual “independentemente de cor e gênero”.  Em contrapartida, o universo enxadrista dominantemente preenchido por homens por si só já comunica a gritante diferença de estímulo à composição de dom, quando este é explorado por personagens específicos que se dispõem a ajudar Harmon com outros problemas, fica ainda mais escancarado o privilégio masculino à especialidade.

O mais interessante é como essa condição vai criando novos dramas através de uma sensação de orgulho, que simultaneamente é parte específica para a narrativa linear da jornada da protagonista ser a melhor enxadrista de todos os tempos, mas também é simbolicamente uma resistência da mulher com seu lugar de especialidade num mundo que não a estimula para isso, pelo menos não em território estadunidense. É irônico que a Rússia, a qual tememos durante a série por uma suposta construção de vilania pela parte entretida do xadrez, seja mencionada como um país que estimula a mulher a jogar e que tenha categoria própria de premiação. No contexto da Guerra Fria, esse olhar é de uma sensibilidade primorosa dos realizadores, porque não deixa um maniqueísmo simples de peças pretas e brancas para a época que retrata. Aliás, mencionado o trocadilho, no xadrez, apesar de quem começa com as brancas – privilégio de cor? Será? – levar uma certa vantagem, os jogadores, independentemente da nacionalidade, jogam com as duas, ou seja, pouco importa isso no espírito esportivo.

O xadrez, portanto, é olhado em sua forma esportiva para os desdobramentos narrativos, como também trabalha como ponte de simbolismos organicamente com a questão biográfica, onde as duas se complementam substancialmente. Ambas executadas a partir de escolhas estéticas de muito bom gosto que transparecem esses símbolos em elementos visuais que conversam fisicamente com a contagem da história – tipo aquele tabuleiro de xadrez no teto. A série utiliza-se da linguagem cinematográfica para traçar planos que a todo momento comunicam algo a complementar a história, ou então, ajudando a dimensionar o espaço a ter a atmosfera de sua época, reconstruída à base de uma composição de design de produção, figurinos e maquiagem simplesmente deslumbrantes. A montagem é um destaque também, especialmente para não tornar as sequências de xadrez repetitivas, alternando entre planos longos para amplificar a tensão de partidas mais importantes, edições elaboradas que resumem trajetórias que não precisam ser mostradas ou cortes precisos para quebrar determinadas expectativas.

Como, por exemplo, descobrir que não se trata de uma história verídica, um fato que confirma minha tese sobre a reflexão da série a respeito da modelagem de genialidades femininas. Contudo, a ficção está aí para abrir margens de inspiração a mudanças que possibilitem à vida imitar a arte. Nisso, a série não poderia ser mais atual e não servir mais a esse propósito do que agora. Equilibrada em excelência durante todos os sete episódios, O Gambito da Rainha é não só inspiradora, divertida e reflexiva, como é necessária.

O Gambito da Rainha (The Queen’s Gambit | EUA, 2020)
Criação: Scott Frank, Allan Scott
Direção: Scott Frank
Roteiro: Scott Frank
Elenco: Anya Taylor-Joy, Isla Johnston, Annabeth Kelly, Bill Camp, Moses Ingram, Christiane Seidel, Rebecca Root, Chloe Pirrie, Akemnji Ndifornyen, Marielle Heller, Harry Melling, Patrick Kennedy, Jacob Fortune-Lloyd, Thomas Brodie-Sangster, Marcin Dorociński
Duração: 7 episódios – 50 minutos em média cada episódio – total de 393 minutos para a minissérie

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