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Crítica | O Gato de Nove Caudas

por Luiz Santiago
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Segundo filme da Trilogia dos Bichos de Dario ArgentoO Gato de Nove Caudas teve diversas cenas cortadas na maioria das exibições ao redor do mundo, ficando com apenas 90 min. nessas ocasiões, tendo retirados os momentos com alusões homossexuais e algumas cenas de chocante violência. A obra funciona como uma espécie de laboratório de aprimoramento para o diretor, embora seja um filme esteticamente mais ordinário que o primeiro e com um roteiro que explora bem mais o motivo misterioso por trás dos assassinatos do que a psicologia ou os efeitos diretamente ligados ao assassino, algo que cobra o seu alto preço no final. O roteiro deixa o público cada vez mais curioso pela resolução do mistério, que traz a fórmula dos assassinatos violentos e a presença de uma pessoa comum ajudando na investigação oficial ou fazendo isso por si mesma, mais uma vez, com consequências tensas.

Em O Gato de Nove Caudas temos Franco “Cookie” Arnò (Karl Malden), um jornalista cego e aposentado que vive com sua sobrinha ainda criança e, acidentalmente, se vê no meio de uma perigosa sequência de eventos ligados ao sigilo de pesquisa em uma gigante do ramo farmacêutico. A trilha sonora dramática de Ennio Morricone prepara o espectador para um perigo a cada esquina e é capaz de erguer uma atmosfera de paranoia e medo em menos de dez minutos de filme, algo que a direção de Dario Argento também sugere com bastante competência, através daquilo que torna os seus gialli tão peculiares: o uso da câmera como ponto de vista do assassino e a maneira de escondê-lo ou fazê-lo agir de forma a nos manter interessados pelo que virá na sequência.

As cenas noturas são também uma marca neste tipo de filme, mas aqui ganha uma forte representação, marcando grandes momentos da caça e do caçador. O maior destaque de toda a obra é, sem dúvida, o modus operandi, representado pela assinatura de Argento e por algumas excelentes ideias do fotógrafo Erico Menczer. Aqui, apenas um comentário sobre comparação — já que estamos falando de uma trilogia — embora isso não seja um fator definidor para colocar o trabalho de luz e cores ou de movimentação de câmera no presente filme alguns degraus abaixo. O fato é que começamos essa jornada tendo a assinatura visual do grande Vittorio Storaro e terminados com outro elogiável fotógrafo em Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza: Franco Di Giacomo. Assim, o trabalho de Menczer parece nublado neste segundo capítulo e, de fato, para o padrão dos bons gialli e especialmente para os gialli de Argento, falta ousadia estética.

Em nenhum momento, porém, deve-se imaginar que o que se vê em 9 Caudas seja algo ruim. Gosto particularmente dos ambientes internos (leia-se o interior das casas) e da melhor composição fotográfica do filme, a sequência dentro do laboratório onde um fotojornalista vai fazer a revelação de todo o frame de uma foto e acaba assassinado. A ambientação ali é preciosa, começando pela mise-en-scène (temos apenas um ator em cena, o que é uma faca de dois gumes para a direção, tornando as coisas mais fáceis de guiar, mas mais difíceis de fazer com que pareça fluída, interessante) e terminando com o corte após o assassinato. No decorrer do filme temos outras boas composições visuais mas, para mim, nenhuma com tantos bons elementos combinados.

O que degringola na obra é a revelação do assassino. Durante toda a projeção depositamos esperanças de que uma intriga dentro da indústria farmacêutica e coisas relacionadas à uma pesquisa que promete afetar toda a psicologia e até direito criminal venham à tona através dos personagens que acompanhamos o tempo inteiro na tela. Mas isso não acontece. E como o roteiro está organizado justamente em uma identidade dita conhecida, que circula todos os suspeitos e aparentemente inocentes no decorrer da projeção, sua resolução final é completamente estéril. Ela guarda uma boa dinâmica de enfrentamento e segura bem o suspense pelo que deve acontecer com Lori ou com o um dos mocinhos que rondavam o telhado naquele desfecho. Mas nada vai além.

A revelação, quando vem, trai o próprio roteiro, que construiu o andamento da fita sob essa identidade. Se a ideia era (como evidentemente parece, ao cabo) ressaltar mais o trajeto e menos a exposição de “quem matou?” então que o texto não particularizasse tanto o assassino. A ótima direção para as cenas de câmera subjetiva em O Gato de Nove Caudas acaba sendo o grande destaque da película, assim como a manutenção do medo o tempo inteiro ativo e boas atuações de James Franciscus e Karl Malden. Uma pena que a marcação de toda essa estrada seja para dar destaque a a algo que, quando se revela, não faz jus à espera. Isso não quer dizer, entretanto, que não nos divertimos durante o trajeto.

O Gato de Nove Caudas (Il gatto a nove code) — Itália, França, Alemanha Ocidental, 1971
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento, Luigi Cozzi, Dardano Sacchetti
Elenco: James Franciscus, Karl Malden, Catherine Spaak, Pier Paolo Capponi, Horst Frank, Rada Rassimov, Aldo Reggiani, Carlo Alighiero, Vittorio Congia, Ugo Fangareggi, Tom Felleghy, Emilio Marchesini, Fulvio Mingozzi, Corrado Olmi, Pino Patti, Werner Pochath
Duração: 112 min.

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2 comentários

Rafael Lima 16 de março de 2019 - 19:53

Eu tive o mesmo incômodo que você em relação ao foco dado a investigação pela identidade do assassino que acaba não se pagando no final. Eu gosto do filme, Karl Malden está ótimo, mas acho este o filme mais fraco da “trilogia dos bichos” (Além de menos ousado esteticamente, como você observou) e por consequência o que menos me deixou impressões na memória.

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Luiz Santiago 16 de março de 2019 - 21:19

Exato! E é um filme bom! O Dario Argento tem um estilo fantástico de dirigir, eu realmente gosto muito dos experimentos dele com perspectiva, aquela mistura de coisa mais teatral com takes bem inteligentes, mas ele realmente tem problema em finalizar as obras, sendo essa, uma das que mais peso isso tem, além dessas questões visuais na fotografia.

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