Crítica | O Gato do Brasil, de Arthur Conan Doyle

Os filmes, livros e séries sobre a furiosa relação entre humanos incautos e feras da natureza geralmente tentam transformar os animais em criaturas dotadas de posturas que as aproximam do comportamento humano, isto é, os seres racionais. Os demais filmes de tubarões, orcas, serpentes e outras tantas representações da complexidade do mundo selvagem comprovam isso. São, também, a maioria dessas histórias, relatos da falta de habilidade do ser humano em controlar os seus impulsos, num total descaso com a natureza. Nestas narrativas, então, pagam o devido preço por isso. O Gato do Brasil, conto de Arthur Conan Doyle, não é exatamente um exemplar deste segmento, conhecido como horror ecológico, mas nos apresenta como o homem pode usar a natureza como uma arma para os seus propósitos, e, com isso, perder o controle das coisas.

Na trama, passada numa época em que não existia automóvel e que os meios de comunicação sequer imaginavam a progressão atual, afinal, estamos falando de algum ano da década de 1890, um jovem ambicioso, chamado Marshall King, decide visitar o seu primo, Everarde King, tendo em vista estreitar as relações para conseguir ajuda financeira para os tantos débitos contraídos nos últimos tempos. O parente, recém-chegado do Brasil, o espera em Greysland, seu lar. Em sua narração em primeira pessoa, Marshall deixa claro que não pensou duas vezes em seguir para o local, pois os laços lhe permitiriam condições favoráveis futuramente. Ao chegar, é recebido com a frieza comum ao familiar, bem como à sua esposa, uma brasileira que aparentemente tem algo a dizer, mas que deixa tudo nas entrelinhas com seus olhares, sempre distantes.

Há um interesse de estar naquele espaço, como já sabemos, afinal, tal como afirma logo na abertura do conto, “é uma infelicidade para um jovem ter gostos dispendiosos, grandes esperanças e relações elegantes sem ter dinheiro no bolso”. Apesar de aprender a sua lição, oriunda de um conto com uma moral explícita, Marshall King consegue sobreviver para comprovar, dentro da dinâmica interna da história, o aprendizado, compensado pela herança recebida ao final. Assim, voltemos ao passo a passo do horror da trajetória do personagem. Ele chega ao local, janta, conversa com o primo e conhece as aves exóticas e demais animais que Everarde King trouxe da vinda ao continente sul-americano.

Com seu comportamento tipicamente colonizador, ele carregou para o território europeu diversos animais selvagens, dentre eles, uma fera de pelos negros chamada de o “gato do Brasil”, animal que logo perceberemos ser algo da mesma família, mas muito diferente de um gato doméstico. Autodenominado pai e mãe do animal, Everarde King não imagina que ao tentar atrair seu primo para a cela onde o animal está instalado, iria perder a mão dos seus planos e tornar-se uma das vítimas da história. Depois da primeira ida, eles retornam para outro setor da casa, dialogam sobre assuntos variados e nesse encalço, decidem ir, por insistência de Everarde King, ao recinto do animal, pois como ventava muito e os uivos deixavam a criatura “excitada”, era interessante contemplar tal fera antes da noite de sono. Ao chegar lá, o primo engana Marshall e o encarcera juntamente com o gato brasileiro na cela, num esperado espetáculo de horror que ocorre em sua plenitude, mas não conforme o esperado.

Não há motivo para não nos assustarmos com a fera. Esplêndida, tratada com vários adjetivos exclamativos, o animal é tratado com exotismo em pormenores: mede mais de onze pés da cauda ao focinho, não menor que um tigre, mas negro e lustroso como o ébano, um gigantesco gato preto que segundo a apresentação do hospitaleiro para o visitante, era parte de um grupo de seres mais sanguinários e traiçoeiros que existem na face da terra. Ele conta, inclusive, que ao se falar de gato do Brasil, os índios da região ficam ouriçados. E mais: o homem é a sua presa preferida. Absurdo? Nestas circunstancias dissociadas do ambiente natural, pode até ser que a carne humana seja uma opção ideal para a dieta do felino, mas como estamos diante de uma história que transforma o personagem numa máquina de matar, a verossimilhança não interessa muito, pois compramos a ideia fantástica, haja vista o bom desenvolvimento do conto para essa nossa proximidade.

Dentre os demais personagens, temos a esposa de Everarde King, não nomeada, alguém que parece ter sido forçada a estar naquele espaço e na primeira oportunidade, retorna ao Brasil para se tornar freira em Pernambuco. O funcionário Baldwin, o homem que nem sequer ousava chegar perto da fera brasileira, aparece de maneira muito discreta, quase como figurante. Ademais, os personagens que surgem no desfecho da história funcionam apenas como interlocutores dos desdobramentos da história, com Marshall King intitulado sucessor do posto de Lorde da família, algo que teria sido diferente se o primo tivesse conseguido dar cabo ao seu plano de servi-lo ao apetite voraz do “gato brasileiro”. O motivo? Ser sucessor no lugar de Marshall King.

Nós, ao nos colocarmos diante da situação, arrepiamos assombrados com a possibilidade de estar diante de um ser tão perigoso. É o que indica a narração do conto, bem traduzida pela edição da LPM, assinada por João Guilherme B. Lincke. A capa genérica da edição brasileira, assinada por Ivan Pinheiro Machado, destaca o animal do conto, destaque do título. Não é ruim, mas poderia ser mais impactante e atraente, principalmente nestes nossos tempos de desinteresse pela leitura. As fontes serifadas da diagramação, oriunda de uma edição de bolso, tornam os aspectos visuais do livro pouco atrativos, mas atendem à demanda, afinal, ao adquirirmos edições do tipo, sabemos de suas limitações estruturais e estéticas. O que interessa mesmo é o conteúdo, como muitos diriam, mas há formas e formas de delinearmos o suporte para contemplarmos, não é mesmo?

A tal fera, chamada ironicamente de gato aproxima-se do animal em questão apenas por pertencer a mesma família, isto é, dos felinos. Ademais, o que temos, conforme as descrições, é um animal que segundo relato do primo, foi adquirida ainda quando filhote, depois que a sua mãe foi morta por caçadores. Terceiro maior felino depois do tigre e do leão, a onça-preta, animal que apesar da semelhança com o leopardo, está mais interligada aos leões, representa o posto de predador de topo na cadeia alimentar. Por meio de seus hábitos crepusculares e solitários, as onças-pretas, estruturalmente similares às onças-pintadas, mas diferenciadas apenas pelo fenômeno do melanismo, são conhecidas por caçar formando emboscadas. O conto deixa isso bem delineado nas tensas abordagens no recinto onde o animal se encontrava aprisionado, como uma besta para contemplação e demonstração de poder por parte do seu dono antipático e corrupto.

Parte integrante de uma coletânea intitulada O Gato do Brasil e Outros Contos, a história em questão é a mais bem desenvolvida do conjunto. Tanto em seus aspectos estruturais quanto na construção da tensão. Publicado em 1898, O Gato do Brasil é uma espécie de parábola sobre a ambição, em ambos os lados. De Marshall King ao primo interesseiro, o desejo por dinheiro e poder é o centro nervoso para o desenvolvimento dos conflitos. O médico e escritor Arthur Conan Doyle, nascido na Escócia e mundialmente famoso por conta do desenvolvimento das 60 histórias de investigação criminal de Sherlock Holmes, elaborou, no conto sobre o felino utilizado como máquina assassina, uma excelente narrativa de suspense e horror, dotada de passagens com incríveis descrições repletas de sonoridade, ideais para o estabelecimento da atmosfera de pavor desejada.

Conhecido também pelas peças, novelas, poesias e ensaios que assinou, Arthur Conan Doyle não alcançou o domínio do conto tal como Edgar Allan Poe, mas especificamente em O Gato do Brasil, demonstrou talento para exercer a construção de histórias curtas e dinâmicas. Ao encerrarmos a leitura, percebemos a sua eficiente estrutura concisa, dentro do esquema padrão dos contos, isto é, um ciclo narrativo fechado e com apenas um clímax. Além dos sons, material que fornece ao conto um interessante potencial para traduções intersemióticas, o autor também faz boas descrições de espaço, o que nos faz adentrar com maior ênfase no clima da história ofertada. Em suma, uma trama com história verossimilhante, dinâmica, bem construída e com discussões morais que mesmo datadas, ainda são pertinentes.

O Gato do Brasil (The Brazilian Cat/Inglaterra, 1898)
Autor: Arthur Conan Doyle
Tradução: João Guilherme B. Lincke
Editora no Brasil: LPM (2013)
Páginas: 8

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.