Crítica | O Gato Preto (1934)

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No começo da década de 1930, Bela Lugosi e Boris Karloff foram alçados ao nível de ícones do terror ao estrelarem respectivamente Drácula e Frankenstein, dando início ao famoso ciclo de filmes de monstros da Universal. O nome dos dois atores chamava a atenção e atraia público durante este período, portanto não demorou para que surgisse um projeto que colocasse os dois cavalheiros do horror frente á frente. Este projeto acabou por se transformar em O Gato Preto, filme de Edgar G. Ulmer, que apesar do que dizem os créditos, toma emprestado somente o título do conto de Edgar Allan Poe.

A trama acompanha Peter e Joan Allison (David Manners e Julie Bishop), dois recém-casados que passam a lua de mel na Hungria. Durante uma viagem de trem, eles conhecem o Doutor Vitus Werdegast (Bela Lugosi), um veterano da I Guerra Mundial que está indo acertar as contas com seu antigo comandante após passar quinze anos preso. Ao pegarem um ônibus, o trio sofre um acidente, sendo obrigado á pedirem abrigo na casa de Hjalmar Poelzig (Boris Karloff), justamente o ex-comandante que Werdegast estava indo ver. Poelzig, entretanto, revela-se o líder de um culto satânico, que disputa um jogo macabro com Werdegast, cujo prêmio é a vida dos Allison.

Os traumas provocados pela I Guerra Mundial estão diretamente ligados á consolidação do gênero terror no cinema, bastando olhar para as obras do expressionismo alemão para constatar isso. Embora os filmes de terror da Universal da década de 30 fossem herdeiros diretos do expressionismo, seu tratamento em relação aos referidos traumas eram muito mais sutis. O filme de Edgar G. Ulmer, entretanto, tem os horrores da Grande Guerra como um dos principais motores da narrativa. Werdegast e Poelzig são dois homens irremediavelmente marcados pelo conflito. O personagem de Lugosi perdeu a família e a própria liberdade, enquanto o vilão vívido por Karloff construiu a sua casa sob as ruínas do forte que ele comandou durante a guerra, e onde centenas de homens morreram quando ele os traiu para os russos. Todos os horrores que o casal Allison testemunha são uma consequência direta da guerra.

Um dos trunfos do projeto é o seu visual. A direção de arte de Charles D. Hall chama a atenção especialmente pela composição visual da casa de Poelzig, onde se passa a maior parte do filme. Os cenários flertam fortemente com o art-deco, com portas, escadas e objetos remetendo a formas geométricas assimétricas. O vilão, descrito como um gênio da arquitetura; fez de seu covil um ambiente moderno e clean, mas que ainda parece carregar uma incômoda e sutil atmosfera alienígena. O uso quase ininterrupto de trilhas sonoras também chama atenção. A utilização de peças da musica clássica dão ao filme uma atmosfera operística que combina perfeitamente com o tom da obra.

Infelizmente, O Gato Preto tem problemas sérios de roteiro. Não que seja um desastre completo, pois o texto de Peter Ruric constrói de forma eficiente os personagens de Lugosi e Karloff, além de ser muito corajoso para os padrões da época pela forma como explora as monstruosidades cometidas por Poelzig. Mas falta coerência interna a atitude dos personagens ao longo da narrativa; assim como alguns elementos são adicionados á trama de forma totalmente descuidada. A seita satânica liderada pelo personagem de Karloff cai de paraquedas no meio do filme, e é completamente esquecida durante o clímax, sumindo de forma tão repentina quanto surgiu. A subtrama envolvendo a jovem esposa do vilão é tratada de forma pedestre e apressada, eliminando qualquer impacto dramático que as revelações em torno da jovem poderiam ter. O próprio gato do título surge praticamente apenas para justificar o nome do filme, já que o Doutor Werdergast possui uma fobia irracional á esse tipo de animal, algo que até funciona como fator simbólico para os traumas do personagem, mas cuja importância não condiz com o título.

Apesar dessas falhas graves, o filme cumpre o que promete no que diz respeito ao seu principal chamariz; o “confronto” entre Bela Lugosi e Boris Karloff. Embora tenham atuado juntos em mais sete filmes depois deste, O Gato Preto é o único onde os dois possuem igual importância, e dá gosto ver as duas lendas contracenando. Karloff está absolutamente diabólico como Poelzig, um homem cruel de boas maneiras, que parece saborear a angustia daqueles á sua volta; o que é demonstrado de forma sutil, mas inequívoca pelo ator. Lugosi por sua vez, um ator que passou a maior parte da carreira preso ao papel de Drácula, ganhando papéis que eram apenas variações deste personagem, tem a chance de entregar algo um pouco diferente. Sua atuação como Vitus Werdergast traz um dos melhores trabalhos do ator húngaro, encarnando um anti-herói moralmente ambíguo, marcado pelas perdas que sofreu, e obcecado pela vingança que acredita ser tudo o que lhe restou. Além de estarem ótimos individualmente, os dois atores tem uma química fantástica, o que pode ser percebido especialmente durante a cena do jogo de xadrez, que explora a relação antagônica entre os dois rivais.

O Gato Preto se diferencia da maioria de seus pares produzidos no mesmo período, ao expor as perversões do monstro chamado ser humano, ao mesmo tempo em que metaforiza os traumas deixados na sociedade europeia pela I Guerra Mundial. Seu belo visual, e a boa química da dupla Lugosi e Karloff garantem uma sessão agradavelmente atmosférica, mas o roteiro extremamente falho na condução da trama impede o filme de se equiparar aos clássicos lançados no mesmo período.

O Gato Preto (The Black Cat). Estados Unidos. 1934.
Direção: Edgar G. Ulmer
Roteiro: Peter Ruric.
Elenco: Bela Lugosi, Boris Karloff, David Manners, Julie Bishop, Harry Cording, Henry Armetta, Albert Conti, Egon Brecher, John George, Herman Bing, Lucille Lund.
Duração: 65 min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.