Crítica | O Gato Preto (1968)

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O Bambuzal do Gato Preto. Eis o título original desta obra de Kaneto Shindô, que dirige e escreve o roteiro contando a história de duas mulheres que são estupradas e brutalmente assassinadas por samurais que passam pelo bambuzal perto da casa. O texto é indiretamente inspirado em Rashomon e No Matagal, dupla de contos de Rynosuke Akutagawa. Ao mesmo tempo que funciona como uma história de samurais em um período de passagem da Corte Real para o Shogunato (o Período Heian, estabelecido entre 794 e 1185), O Gato Preto é também uma aterradora história de fantasmas.

O Japão retratado no filme não é exatamente um Japão em transformações sociais, como normalmente entendemos das mudanças políticas vistas nos períodos posteriores da História do país. O que parece ser uma novidade para algumas cidades e aldeias, no entanto, é a chegada da guerra civil, sendo um desses eventos de saques e assassinatos o pontapé para a criação da narrativa de terror que define a obra. Já no início, o diretor nos faz entrar em um bambuzal sob o vento, enquanto tambores e música do Teatro Bunraku criam a atmosfera macabra necessária para nos preparar para as muitas viagens até o local mágico onde os espíritos vivem.

O roteiro não tem pressa de criar situações de susto, mas isso não significa que o filme demora displicentemente para começar. A construção da obra é cuidadosa, inicialmente pautada pelo silêncio e com a câmera distanciada, como se sentisse vergonha de se aproximar. A tragédia se anuncia pela maneira como os samurais se aproximam da isolada casa. Os planos vão se fechando e a violência cometida pelos soldados é mais sugerida do que mostrada, o que sempre é benéfico para o filme. Até esse ponto, o roteiro não entrega muitas explicações, mas certamente planta a semente da justificativa para a questão espiritual que logo receberá destaque. A presença do gato no local da tragédia é importante, porque confirma o caráter de psicopompo do bicho, além de abraçar a fantasia típica dos contos de Akutagawa, exibindo o sobrenatural sob os olhares espantados e o sangue dos samurais na vida real.

Para todas as cenas no bambuzal, a direção assumiu um ritmo internamente lento (com os personagens andando despreocupadamente até chegar à toca do “gato”) e a montagem criou com perfeição a aparência fantasiosa da casa, exatamente como deveria ser uma “morada de fantasmas”, com um entorno que parece estar em constante movimento, cheio de sombras de forte luz direta (triunfal sucesso da fotografia ao criar essas composições) e vento, soprando a névoa espessa em torno do local. O misticismo em O Gato Preto não é óbvio, mas também não é negado pelo diretor. Como é comum no cinema e na literatura japonesa, o gênero é tratado como uma das camadas da existência e a partir daí é possível compreender a recepção dos samurais para a possibilidade de haver “uma criatura” assombrando o Portal de Rashomon ou o comportamento das duas mulheres, agora comprometidas com um juramento feito aos deuses do mal.

Infelizmente, o diretor se deixa levar pelo romantismo do par Gintoki & Shige e faz cair por terra todo o poder das cenas íntimas entre os dois, colocando uma trilha sonora descritiva e melosa em um filme totalmente marcado pelo som de tambores e música tradicional. O espectador até compreende o destaque intencional dado ali pelo cineasta, como um tipo de macabro conto de fadas, mas a trilha sonora escolhida não eleva e nem dá suporte àquelas cenas, ao contrário, torna-as simplórias, mais pobres, sendo certamente um dos momentos de maior decepção do filme (embora continue visualmente muito belo).

A necessidade do contato, a memória dos bons tempos, a fuga em meio à guerra e às ordens opressivas de mandatários políticos inconsequentes: o contexto em que os personagens de O Gato Preto vive é um contexto que permite esse tipo de readequação da vida, numa interação entre diferentes tipos de violência. O roteiro do filme mostra consequências trágicas para um fim trágico, apontando para o fato de que mesmo no mundo espiritual é possível errar em uma busca cega por vingança. A questão, no entanto, fica em evidência: no quê isso se diferencia muito daquilo que os poderosos fazem em vida, às vezes adotando outros caminhos, mas sempre chegando aos mesmos fins? Para Kaneto Shindô, não existem muitos meandros nesta situação. Quando a inocência é extirpada, quando a traição acontece, quando acordos são feitos, uma máquina inteira de consequências é colocada em funcionamento. E até que ela cumpra o seu dever, será impossível pará-la.

O Gato Preto (Yabu no naka no kuroneko) — Japão, 1968
Direção: Kaneto Shindô
Roteiro: Kaneto Shindô
Elenco: Kichiemon Nakamura, Nobuko Otowa, Kei Satô, Rokkô Toura, Kiwako Taichi, Taiji Tonoyama, Hideo Kanze, Eimei Esumi, Shôji Ôki, Kentarô Kaji, Masaru Miyata, Noriyuki Nishiuchi, Eishu Kaneda, Jôji Taki, Miyako Kasai
Duração: 99 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.