Crítica | O Gênio e o Louco

“Ele poderia facilmente ilustrar os últimos quatro séculos apenas pelas suas citações.”

A genialidade e a maluquice são supostas palavras opostas, mas que residem, entretanto, muito próximas uma a outra, como conceitos quase irmãos em vários contextos, usos orais e citações escritas. James Murray (Mel Gibson), o suposto gênio a que o longa-metragem O Gênio e o Louco se refere, recebe uma missão ambiciosa pela Universidade de Oxford, justamente a que moverá a premissa do projeto em questão. Em um caso de proporções extravagantes, alguns apontariam absurdas, o professor precisa catalogar cada uma das tantas – e contando – palavras que existem na riquíssima língua inglesa, compilando-as naquele que seria o mais promissor e, posteriormente, um dos mais completos e conceituados dos dicionários acerca do inglês. Um outro gênio, no entanto, vive recluso e confinado em sua própria maluquice, que será minimizada apenas quando o contato com as palavras surgir. E são tais palavras a grande essência dessa obra cinematográfica.

Murray precisa de ajuda de pessoas comuns – e gênios comuns – para conseguiu alcançar o sucesso tão almejado por si e pela sua equipe. Um dos seus maiores ajudantes, porém, como contará o enredo do projeto, mostra ser logo uma pessoa que está internada em um manicômio, culpada pelo assassinato de um homem. Por anos, Murray e o Dr. William Minor (Sean Penn), com suspeitas de esquizofrenia, trocariam cartas, aumentando o número de citações e referências às palavras buscadas pelos editores que compilaram o ODE, as quais chegaram a ultrapassar 10.000 novas entradas. Quem disse que a loucura não poderia guardar, para si, uma imensa genialidade? Os devaneios exaltados, permeados por palavras e palavras e palavras, como misteriosos poemas a serem quebrados por desbravadores de significados. O Gênio e o Louco vê, em uma enorme tristeza, uma curiosa beleza, permitindo-nos tocar-nos por uma condução, ora ou outra, suspeitosa.

Essas misturas também comprometem aspectos da execução de O Gênio e o Louco, que variam entre o intrusivo e o omissivo. Conseguindo o cargo de direção após a saída de Mel Gibson dessa posição, Farhad Safinia, assinando sob o pseudônimo de P. B. Shemran, por vezes irá reiterar um texto expositivo. O pior será quando o cineasta optar por omitir, originando vários personagens unidimensionais, que, consigo, geram problemáticas pouco instigantes, complicadas de serem entendidas completamente. Já o visual da obra, bagunçando-se nos planos, possui prós e contras em como assume uma imagem menos higiênica dessa desorganização – nas palavras e na cabeça. Os planos costumam ser fechados, permitindo a intensidade de certas sequências, enquanto outras são sufocadas por uma intromissão marcante dos olhos do cineasta. É a trilha sonora o que mais marca nesse ponto, pois surgirá desesperadamente aos ouvidos do espectador.

O verdadeiro coração da obra, em contrapartida aos vários equívocos na execução, é composto pelas grandes interpretações. Sean e Mel levam sangue a um projeto que, mesmo perdendo-se às vezes, sempre encontra o seu rumo com esses atores. Penn encarna vigorosamente, no seu caso, um sujeito perturbado, que caminha entre ao que não compreendemos e ao que possuímos compaixão. Já Gibson, visto como um personagem menos complexo que esse, vive o pai/marido em meio a questões mais genéricas. As nuances exploradas com o seu protagonista são menos profundas que as de Penn – comovente em sua maluquez -, mas competentes em grau menor. O terreno comum da família como uma questão a ser cuidada, mesmo em meio a graves problemas profissionais, demais estresses, retorna, embora um uso pontual da personagem vivida por Kieran O’Reilly, assumindo uma posição necessária, consiga esvair-se, momentaneamente, do cansativo.

O Gênio e o Louco pode até encontrar-se, esporadicamente, bem embaçado ao enxergar a jornada de Jim Murray, menos interessante que a de William Minor. O que o roteiro promete ao arco do personagem de Penn, relacionado a sua culpa pelo passado e igualmente à presença de Natalie Dormer, é muito interessante mesmo. Mas quando consegue aproximar os dois personagens e entender uma conexão que ambos possuem com as palavras, o resultado provocado, contudo, é outro, pois tal amizade é uma verdade bem sensitiva ao projeto. Portanto, ótimas cenas e ótimas interpretações robustecem o vínculo nobre criado entre essas pessoas, assim como fomentam a perturbação incômoda e, paralelamente, a aquietação tão ansiada por Minor e aproveitada com cortesia. Os personagens jogam palavras uns para os outros, usando-as como entretenimento. Elas têm mesmo muitos usos. Podem acalmar os nervos, podem explodir os nervos, e podem tudo.

O Gênio e o Louco (The Professor and the Madman) – Irlanda/EUA/França, 2019
Direção: Farhad Safinia
Roteiro: John Boorman, Todd Komarnicki, Farhad Safinia
Elenco: Mel Gibson, Sean Penn, Natalie Dormer, Ioan Gruffudd, Jeremy Irvine, Brendan Patricks, Adam Fergus, Jennifer Ehle, Brian Fortune, Aidan McArdle, David Crowley, Kieran O’Reilly
Duração: 124 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.