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Crítica | O Grande Deus Pã, de Arthur Machen

A sombria e amedrontadora face de um deus dos pastos.

por Luiz Santiago
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A figura de Pã, o deus grego dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores, não é normalmente associada a algo maligno. Sua relação com a natureza é essencialmente vista como um misto de comportamento protetor, às vezes vingativo com quem destrói a flora e a fauna, e majoritariamente ligado a “brincadeiras sombrias“. Pã gosta de amedrontar as pessoas que cruzam as florestas, especialmente à noite. Durante essa travessia, as forças naturais movidas por ele faz com que os indivíduos tenham medo de tudo, sentindo no corpo e na mente uma série de pavores súbitos, que recebem o nome de pânico. E não, ao contrário do que alguns “desmistificadores de coisa nenhuma” dizem por aí, esta não é uma “informação inventada“. Segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (Nova Fronteira), o adjetivo é “relativo ao deus Pã / terror“. Seu registro mais antigo na língua portuguesa data de 1572, vindo do latim (panicus), que por sua vez é derivado do grego (panikós).

Em O Grande Deus Pã, porém, o escritor Arthur Machen nos faz ter uma visão bastante diferente daquilo que o senso comum tem dessa divindade grega. Aqui, ele não está representado como uma figura bucólica travessa, mas como uma manifestação destruidora, medonha, cheia de desejos imparáveis e completamente maligna. Sua relação com a natureza ainda permanece, assim como a sua figura histórica, parte homem/parte bode. Aquilo que veremos do deus Pã nesse relato está bem mais próximo do que os símbolos, as lendas originais e até mesmo o discurso cristão criou em cima dessa divindade. E para deixar isso bem claro, reproduzirei abaixo a definição do vocábulo contida no Dicionário de Símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant. Essa definição simbólica é exatamente aquela que Arthur Machen utiliza para Pã na presente narrativa.

Deus dos cultos pastorais, de aparência meio humana, meio animal; barbudo, chifrudo, peludo, vivo, ágil, rápido e dissimulado: ele exprime a astúcia bestial. Busca as ninfas e os jovens, que assalta sem escrúpulos; mas sua fome sexual é insaciável […] Seu nome, Pã, que significa “tudo”, lhe foi dado pelos deuses, não somente porque todos se assemelham a ele, mas também porque ele encarna uma tendência própria de todo o universo. Ele seria o deus do Tudo, indicando, sem dúvida, a energia genésica desse Tudo, ou o Tudo de Deus ou o Tudo da vida.

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Ele deu o seu nome à palavra “pânico”, esse terror  que se espalha em toda a natureza e em todo ser, ao sentir a presença desse deus que perturba o espírito e enlouquece os sentidos.

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Destituído dessa sensualidade primária irreprimível, ele personificará mais tarde o Grande Todo, o todo de um determinado ser. Filósofos neoplatônicos e cristãos farão dele a síntese do paganismo.

Não é à toa que H.P. Lovecraft tinha em Machen um grande ídolo. A forma como o britânico construía o seu terror, buscava nas raízes da razão humana aquele medo escondido, aquela sombra conhecida, temida, mas nunca desvendada; tudo para dar a ela uma cara absurda, grandiosa e tão malignamente poderosa, que um olhar, um breve contato com ela seria o bastante para levar qualquer um à loucura. Este é justamente o cenário que temos no primeiro capítulo desta novela, o mais decepcionante de todos. Nele, vemos Clarke concordar, mesmo não muito muito feliz, em testemunhar um experimento realizado por seu amigo, o Dr. Raymond. O médico pretende “abrir a mente” de uma paciente para o mundo espiritual, para que ela pudesse “ver o grande deus Pã“. O capítulo termina de forma abrupta — como a maioria dos outros capítulos do livro — e de maneira muitíssimo insatisfatória, algo que só melhorará no conjunto, quando o autor amarrará todas as pontas narrativas.

Em dado momento do segundo capítulo, o tratamento dado por Machen à figura e à presença de Pã no meio campestre me lembrou o que Ambrose Bierce fez com Hastur em Haïta, o Pastor, publicado três anos antes. Este é, para mim, o melhor momento do livro, quando conhecemos uma garotinha sinistra chamada Helen Vaughan, em torno da qual uma porção de coisas muito estranhas começam a acontecer. Desse capítulo em diante, a figura de uma mulher que chega a um lugar e desencadeia um grande número de acontecimentos bizarros será a tônica do volume, inclusive do capítulo final, com a diferença de que ali temos revelações em forma de manuscritos, mas expondo a personagem feminina com essa mesma característica de “mensageira de forças horrendas“.

O terror, em O Grande Deus Pã, vem por tudo aquilo que essa figura simboliza nas sombras, por toda a influência que ela tem sobre as pessoas e que vem através de um indivíduo possuído, capaz de ‘causar’ comportamentos sexuais considerados abomináveis nos jovens (não tenho dúvida nenhuma de que o autor muitas vezes estava se referindo ao sexo homossexual). Além disso, o livro traz muitos elementos cristãos em contraste ou corrompidos pela presença ou pela invocação do mal, do grande deus Pã. Vejam o experimento original, por exemplo, que na verdade simboliza um estupro. Através dele, temos a personagem (que não por acaso se chama Mary!) posteriormente grávida, de uma menina, que vem ao mundo após a mãe “avistar o grande deus Pã“. Uma verdadeira bebê de Rosemary cuja missão é satisfazer suas insaciáveis vontades e espalhar o terror por onde passa.

Tirando o segundo capítulo, que tem o melhor conteúdo de todo o volume, o leitor não encontrará aqui um livro de escrita elegante ou marcante de cabo a rabo. Como já comentei, o capítulo inicial é finalizado de maneira anticlimática e decepcionante, e o capítulo final, apesar de ser melhor que o primeiro, não é exatamente digno de toda a história. O melhor de O Grande Deus Pã está nos capítulos As Memórias do Sr. Clarke e Os Suicídios. Os outros do miolo do livro são bons, em diferentes níveis, mas não creio que chegam perto desses dois citados, porque estes conseguem narrar elementos horrendos com uma força e uma construção atmosférica aplaudíveis, criando situações que podem realmente causar um calafrio no leitor.

O Grande Deus Pã é uma obra de extrema importância para a literatura decadente, fantástica, gótica, influenciando muitos escritores nas décadas seguintes. Nessa abordagem de forças imensas de um ser que, de alguma forma, conseguiu manifestar-se entre os homens, ficamos em um estado de constante atenção, na expectativa daquilo que o autor nos prepara para o capítulo adiante, pois cada um desses blocos recebe um foco parcialmente isolado, à medida que lentamente vai se encaixando nas tramas anteriormente apresentadas. Um daqueles livros que nos faz ver um personagem mitológico muito conhecido através de um outro olhar. Um olhar que a gente prefere não encarar muito e, de preferência, não se lembrar de maneira muito vívida.

O Grande Deus Pã (The Great God Pan) — Reino Unido, 1894
Autor: Arthur Machen
Capa original: Aubrey Beardsley
Edição lida para esta crítica: Editora Penalux, 2017
Tradução: Chico Lopes
144 páginas

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