Home FilmesCríticas Crítica | O Grande Ivan (2020)

Crítica | O Grande Ivan (2020)

por Luiz Santiago
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O livro de Katherine Applegate no qual o roteirista Mike White se baseou para escrever O Grande Ivan (2020) é um best seller da literatura infantojuvenil, obra sobre amizade que traz à discussão, à maneira dos livros para este público-alvo, o conceito de liberdade. Nesta versão cinematográfica, os ótimos efeitos especiais garantidos por uma (co) produtora como a Disney se aliam a uma historinha bonita, claramente dedicada a um público de menor idade, mas que não falha em tocar, pelo menos em alguns momentos, naqueles já crescidos.

A primeira grande discussão que vem à tona é a da “gaiola dourada”. Os animais que fazem parte do show de Mack (Bryan Cranston, em uma atuação… de ok para baixo) são bem tratados, bem alimentados, mas estão presos, e isso não é visto com olhos de compensação pelo roteiro. Há uma certa tristeza que paira no início da obra, mas como os animais falantes nos distraem e toda a dinâmica de divertimento é bem guiada pela diretora Thea Sharrock — que faz um ótimo trabalho em assinar um filme com esse número de coisas feitas apenas na pós-produção –, o tom da obra abre espaço para algo luminoso, voltando com essa tristeza brevemente sugerida no começo, apenas do meio para o final da fita. E então há um outro toque de mágica para a felicidade. É a Disney, pessoal, convenhamos.

A partir do momento em que um novo animal chega ao grupo desse circo no shopping, as coisas começam a mudar. O texto e a direção jogam bem com a fofura de termos um bebê no meio dos animais crescidos, e juntamente com o absurdamente simpático cão Bob (Danny DeVito), esse novo animalzinho rouba a cena. O contraste de olhar é imediato. O bebê quer saber de coisas, quer ouvir histórias. E é aí que aquela tristeza volta como parte do problema a ser enfrentado aqui. Mesmo que a gente não tenha o melhor trabalho de montagem e a relação entre os atos de humanos e animais pareça não ter um equilíbrio de tempo na passagem de um para o outro, a força da amizade entre os animais e a discussão de liberdade conseguem se fazer sentir e aquecer pouco a pouco o coração, às vezes nos fazendo fingir que o roteiro não está sumindo com personagens e aparatando-os depois, ao bel prazer de ganchos narrativos frágeis.

O senso de comunidade e as características de cada animal desse circo nos traz à memória outros projetos da Disney, especialmente Dumbo (2019), mas acredito que a “menor ambição” de O Grande Ivan acabe garantindo um melhor resultado final, uma vez que não perde tempo inventando passagens quase melodramáticas ou criando situações para tornar esse personagem ruim ou aquele outro personagem extra-querido. Há uma boa medida na forma como o texto cria a relação desses bichos com o público e entre si, e isso é tão forte, que quando o protesto da população surge e esses animais são levados para um lugar que não sabemos, parece ser o mais profundo anticlímax.

O respeito à individualidade de cada animal (como a cadela chique que sabe que não conseguirá viver dois minutos num ambiente selvagem) e o cuidado para não tornar esses bichos “fofos demais em ação, a ponto de quase parecerem humanos” são coisas que salvam a obra de maiores estranhezas, podendo até interferir na validação do sonho de “voltar à vida selvagem”. Para os adultos, porém, a coisa é ainda bastante triste, pois Ivan e seus amigos não estão, de fato,em seu habitat. Mas certamente estão muito melhor do que estavam antes. O final do filme é um tantinho mais amargo para os adultos, mas traz bastante felicidade e beleza para as crianças. Vale a pena ver com toda a família!

O Grande Ivan (The One and Only Ivan) — EUA, 2020
Direção: Thea Sharrock
Roteiro: Mike White (baseado na obra de Katherine Applegate)
Elenco: Sam Rockwell, Bryan Cranston, Phillipa Soo, Chaka Khan, Mike White, Ron Funches, Angelina Jolie, Helen Mirren, Danny DeVito, Ariana Greenblatt, Ramon Rodriguez, Owain Arthur, Kevin Mathurin, Brooklynn Prince, Hannah Bourne, Betsy Graver, Beckett Handley
Duração: 95 min.

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