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Crítica | O Grande Segredo

por Guilherme Rodrigues
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Muita coisa surpreende em O Grande Segredo, tanto em conteúdo quanto em forma, mesmo que seus aspectos mais complexos tenham sido reduzidos em favor de um tom mais otimista e com maior aceitação ao público, mas os toques de Fritz Lang, o diretor que ousou gerar empatia com um serial killer já nos anos 30 com M – O Vampiro de Dusseldorf, se fazem sentir, já que nesse longa de espionagem, temos um discurso anti-nuclear que só viria fazer parte do cinema com força novamente algumas décadas mais tarde.

Na produção, acompanhamos o professor Alvah Jesper (Gary Cooper), recrutado pelo Serviço Secreto Americano devido sua familiaridade com energia nuclear para criar disrupção no programa atômico nazista, por meio do resgate de uma cientista alemã que desertou mas está sendo ameaçada pelo Reich a retornar ao seu posto. A situação, é claro, se complica quando outros espiões entram em cena, e o acadêmico acaba fazendo um tour pela Europa em guerra, se aliando à resistência italiana.

Jesper é um protagonista curioso, mesmo não sendo versado nas táticas de espionagem e sem grande treinamento, assume facilmente a posição de alguém que precisa de subterfúgios para conseguir o que quer, sem medo de chantagear e agindo com frieza nos momentos de tensão. É uma posição um tanto contrastante com o modo que ele é apresentado, como um homem cheio de conflitos sobre o potencial destrutivo da ciência – daí o discurso anti-nuclear que citei no início – e que aceita a missão menos por alguma espécie de patriotismo, já que ele tem reservas de qualquer um ter tal poder, e sim porque a opção do nazismo ter em mãos uma bomba atômica é simplesmente muito mais aterradora. “Se alguém vai desenvolver a bomba atômica, é melhor que seja a gente, e não eles” diz o agente da SSA, um sentimento difícil de rebater.

O Grande Segredo segue como típico filme de espionagem durante sua primeira metade, com jogos duplos, grandes planos para se obter informação e emboscadas, mas a partir da segunda metade, com a chegada de Jesper na Itália, o longa ganha contornos mais interessantes, mesmo que a partir de uma certa disrupção no ritmo geral da narrativa. Ao se refugiar na casa de um dos membros da resistência até as peças necessárias de um plano de resgate entrarem em jogo, o protagonista começa a se relacionar com rebelde antifascista Gina (Lili Palmer), e cria-se, novamente, um contraste interessante, mas em tom de crítica agora.

A vida de Jesper como espião até aquele momento havia sido glamurosa, com aparatos tecnológicos e estadias em hotéis, enquanto Gina passou por poucas e boas e teve até mesmo que se relacionar com seus inimigos mortais em nome da causa, e isso custou um alto preço a ela. “Quem luta contra escória se torna escória também” diz a personagem, às lágrimas.

Além do discurso à frente do seu tempo, Lang também construiu cenas de ação com uma decupagem muito moderna, que os filmes só iriam adotar muitos anos depois. Ao invés de planos abertos permitindo que a briga simplesmente se desenrolasse na frente da câmera, como era comum na época – a grande briga no bar em Os Brutos Também Amam, lançado 7 anos depois, é feita dessa maneira – temos uma montagem mais ritmada, com closes e cortes rápidos que imprimem uma brutalidade inédita à época.

Assim, similarmente à Quando Desceram as Trevas, O Grande Segredo pode até ser um “arroz com feijão” dos filmes de espionagem envolvendo II Guerra e nazismo, uma temática que não estava em falta na época, mas cujo toque de Lang faz toda a diferença no final das contas.

O Grande Segredo (Cloak and Dagger) – EUA, 1946
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Corey Ford,Boris Ingster, Ring Lardner Jr., Albert Maltz. Com base no livro de Alastair MacBain e John Larkin
Elenco: Gary Cooper, Lili Palmer, Robert Alda, Marjorie Hoshelle, Helen Thimig, Vladimir Sokoloff
Duração: 106 minutos.

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