Crítica | O Grito da Selva (1935)

O Grito da Selva (1935) plano crítico filme

O Grito da Selva (1935) não é uma adaptação rigorosa do famoso livro de Jack London. O filme funciona mais como um drama levemente inspirado nesse clássico, mostrando o contexto da Corrida do Ouro de Klondike (embora em um ano errado, 1900) e, claro, a relação de um homem com um cachorro muito especial. Os roteiristas Gene Fowler e Leonard Praskins criaram esse enredo — que é na verdade um western (ou melhor, um northern) — pensando mais nas relações entre os protagonistas do que na colocação do cão Buck na história, o que em muitos momentos faz o filme parecer perdido, sugerindo o tal “grito da selva” como o vemos no livro, mas ao mesmo tempo tendo como foco uma busca por ouro e uma estranhíssima história de amor.

Existe uma série de controvérsias na abordagem dos roteiristas para algumas coisas aqui, como a índia que aparece no final, obtida em um jogo de dados, e principalmente a relação possessiva entre Jack Thornton (Clark Gable) — que aqui não tem absolutamente nada a ver com sua contraparte literária — e Claire Blake (Loretta Young). O mais incômodo ainda é sabermos que essa história teve um capítulo tenebroso na vida real, com Gable engravidando Young, não assumindo a filha, e a mãe, para salvar a carreira, acabando por colocar a bebê num orfanato até que ela completasse dois anos e então pudesse ser “adotada” pela própria mãe. E ainda há mais tristeza diante de tudo isso. Embora tenha contado a verdade à filha depois de 25 anos, Loretta Young sempre negou publicamente a verdade sobre a paternidade (e sobre o estupro que supostamente sofreu), sendo pelo menos a primeira parte oficialmente revelada em uma biografia póstuma autorizada pela atriz, que faleceu em agosto de 2000, aos 87 anos.

Na ficção, porém, a relação entre o casal protagonista tem os seus momentos interessantes. A dupla está bem em cena, mas Gable se destaca com facilidade, e recebe toda a atenção possível das câmeras, além da melhor composição de figurinos de todo o filme (para os outros personagens temos boas peças, mas os de Clark Gable são bem mais bonitos). O diretor William A. Wellman guia muito bem os personagens por paisagens gélidas e consegue, mesmo sem muita ajuda do roteiro, ligar de maneira aceitável o cachorro com Thornton e a paisagem ao seu redor.

Como disse antes, a narrativa às vezes fica meio confusa quanto ao seu intento, mas as imagens conseguem segurar a nossa atenção e dar um sentido maior ao que cada personagem procura. A questão é que, ora pesando demais a mão na comédia (protagonizada pelo ator Jack Oakie), ora investindo em um possessivo relacionamento, o texto vai pouco a pouco se tornando cansativo, o que é uma pena para um contexto tão interessante em locações tão incríveis.

O espectador pode aproveitar bem a aventura e a temática de cobiça pelo ouro e de traições e violência que marcam o núcleo humano do filme. Nesse sentido, a fita acaba ganhando mais força e nos entretendo como um bom northern, mesmo com suas pinceladas à la O Chamado Selvagem (relacionadas ao cão) que parecem pertencer a uma produção diferente.

O Grito da Selva (Call of the Wild) — EUA, 1935
Direção: William A. Wellman
Roteiro: Gene Fowler, Leonard Praskins (baseado na obra de Jack London)
Elenco: Clark Gable, Loretta Young, Jack Oakie, Reginald Owen, Frank Conroy, Katherine DeMille, Sidney Toler, James Burke, Charles Stevens, Lalo Encinas, Thomas E. Jackson, Russ Powell, Herman Bing, George MacQuarrie
Duração: 89 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.