Crítica | O Grito (2004)

Na esteira do sucesso de Samara e O Chamado, interpretações ocidentais para histórias de espíritos vingativos começaram a adentrar na agenda de realizações estadunidenses, segmento industrial que se interessa bastante em reformular materiais pré-estabelecidos em outras culturas. Com O Grito, o cineasta Takashi Shimizu trouxe para os Estados Unidos alguns elementos do horror japonês, para depois leva-los de volta ao ambiente nipônico. Explico: uma das questões colocadas pelo cineasta durante a realização do filme foi a ambientação da história, com personagens estadunidenses, mas com desenvolvimento dramático no Japão, estratégia para manter as suas conexões com a sua cultura, afinal, Shimizu sequer falava inglês na época e uma interprete acompanhou todo o processo no estúdio.

Escrito em parceria com Stephen Susco, colaborador no desenvolvimento da história para as plateias ocidentais, O Grito acompanha a trajetória de Karen Davis (Sarah Michelle Gellar), assistente social que decide seguir o namorado Doug (Jason Behr) em Tóquio. No local, a sua primeira missão profissional trará, de imediato, grandes problemas. Ela tem a tarefa de tomar conta de uma idosa que em determinado momento, entra em choque e é morta por uma entidade espiritual bem aterrorizante. As circunstancias não são favoráveis para Karen, pois a cuidadora anterior sumiu de maneira misteriosa, sem deixar vestígios. A curiosidade da moça ao vasculhar a casa e encontrar uma porta selada com fita também ajuda na disseminação do que virá adiante.

Como sabemos, na mitologia de O Grito, quando alguém morre numa situação que envolva ódio, uma maldição logo se estabelece. Neste caso, é a casa onde habita os envolvidos na história que serviu de base para todo o mal do enredo, isto é, o assassinato de Kayako (Takako Fuji) e Toshio (Yuza Ozeki), entidades que aparecem constantemente para ceifar as vidas daqueles que atravessam os seus respectivos caminhos. Da sua descoberta ao processo que se segue, a narrativa dá idas e vindas, apresenta algumas fragmentações, mata uma série de pessoas pelo caminho e encerra a sua caminhada de horror com os finais infelizes, típicos das produções orientais, histórias que em suas traduções para o público ocidental, ganham roupagens mais explicativas, tendo em vista atender às demandas dos espectadores do “lado de cá” do planeta.

Sob a supervisão de Sam Raimi e Robert Taport na produção, a refilmagem trouxe os elementos estéticos da versão que lhe serve como ponto de partida, traços readaptados e desenvolvidos com mais recursos. Assim, o filme não peca em suas atribuições enquanto linguagem: a direção de fotografia de Hideo Yamamoto é eficaz, tal com os cenários e direção de arte, assinados por Kyôko Yauchi e Tatsuo Ozeki, respectivamente, membros da equipe de design de produção de Iwao Saitô. Os efeitos visuais de Kory Jones reforçam o caráter assustador de Kayako e Toshio, entidades que ganham maiores contornos graças ao formidável trabalho sonoro da produção, da trilha ao design de som. Na música, Young, experiente, emprega os elementos necessários para nos permitir aprofundamento no “clima”, reforçado com os sons desenvolvidos pela equipe de Paul N. J. Ottosson.

Onde há problema mesmo é na seara dramática, prévia ao desenvolvimento, até porque a condução do próprio material irregular apresenta um excelente domínio da linguagem por parte de Shimizu, cineasta que após as versões cinematográficas e televisivas dos personagens deste universo, já sabe exatamente o que fazer e onde fazer para tornar o seu filme enigmático. A história só não é mais envolvente porque as necessidades dramáticas e os perfis dos personagens não estão muito bem desenvolvidos. E, quando isso acontece, não há catarse. Sem catarse, não nos importamos com quem morre ou vive. No âmbito do terror é assim, afinal, seria tedioso ficar diante de um filme apenas para tomar sustos esporádicos, sem qualquer conexão dramatúrgica com as criaturas que circulam diante da história, espécie de representação de nós mesmos, seres humanos que também podem ser acometidos por situações inesperadas e inexplicadas do destino, tais como os grandes personagens das tragédias de nossa tradição milenar. Em todas as versões de O Grito, o mal prevalece, realista. Não há escapatória.

Diante do exposto, ao longo de seus 91 minutos, O Grito é uma história bastante atmosférica, instigante e com bons momentos de horror, tais como a cena do chuveiro, a assustadora abordagem no elevador e a parte que envolve uma escadaria, além de seus trunfos técnicos, com o “Japão” de estúdio bem construído pela equipe técnica da produção. O que deixa o filme com menos impacto é a aleatoriedade de seu enredo, pois todas as versões de Kayako, sejam as japonesas ou estadunidenses, apresentam o mesmo esquema narrativo. Não há maior desenvolvimento de personagens, as necessidades dramáticas de todos são muito fugazes e a impressão que se tem é a de que somos espectadores de um panorama repleto de colagem de sustos, nada além disso.

Os furos também incomodam. Por que alguns personagens acessam à casa e não morrem como outros? Será essa uma exigência voltada ao nosso interesse por ficções com todos os esquemas narrativos conectados ou de fato O Grito falha em sua missão na construção dos elementos dramáticos da história, talvez relegados para dar mais espaço aos sustos e excelente disseminação de representações sonoras aterrorizantes? Cabe ressaltar que a história continua a se repetir até os dias atuais, haja vista o retorno dos personagens em nova roupagem, para a geração de 2020. Será que vai funcionar? Kayako ainda tem folego para aguentar as novas dinâmicas comunicacionais do nosso conturbado momento contemporâneo?

O Grito (The Grudge) — Estados Unidos/Japão, 2004
Direção: Takashi Shimizu
Roteiro: Stephen Susco, Takashi Shimizu
Elenco: Bill Pullman, Clea DuVall, Jason Behr, KaDee Strickland, Sarah Michelle Gellar, William Mapother
Duração: 92 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.