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Crítica | O Guardião do Tempo (Timecop)

por Ritter Fan
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Acho que não seria exagero dizer que qualquer coisa com viagem no tempo, um dos mais inspirados artifícios da ficção científica, fica melhor. Pode ser em qualquer mídia, seja literatura, audiovisual, audiodrama ou quadrinhos e em qualquer gênero, tanto faz se romance, comédia, aventura e, claro, ficção científica, a inclusão desse conceito costuma melhorar absolutamente qualquer coisa, com qualquer nível de qualidade. No mínimo dos mínimos gera aquele levantar de sobrancelhas e um pensamento que gravita ao redor de “parece péssimo, mas vou conferir porque tem viagem no tempo”.

Comecei assim minha crítica, pois, saudosismos à parte, temos que combinar que grande parte dos filmes de  Jean-Claude Van Damme  são normalmente longes de serem sequer “bons”, ainda que sempre divirtam de uma maneira ou de outra, às vezes pelas razões mais inusitadas como a crucificação em Cyborg ou a dancinha em Kickboxer. O Guardião do Tempo, baseado em obscura HQ de 1992 da Dark Horse Comics, marca o retorno do ator e lutador belga ao sci-fi depois do mencionado Cyborg e de Soldado Universal, em uma obra que o coloca como Max Walker, um agente da Time Enforcement Commission (TEC) em 2004 que policia viagens não sancionadas ao passado (nesse universo, viagens para o futuro não são possíveis) com o objetivo de alterar o futuro, resultando no longa mais bem-sucedido financeiramente de sua carreira.

E esse sucesso todo é merecido, pois o roteiro de Mark Verheiden, também autor da HQ, não trivializa a narrativa, fazendo depender exclusivamente do artifício da viagem no tempo. Para começar, o espectador ganha um prelúdio durante a Guerra de Secessão que já estabelece a base narrativa do longa, ou seja, viajar no tempo para obter dinheiro ilegalmente. Em seguida, a história pula para 1994, ano que marca o começo da TEC, a vilania do senador Aaron McComb (Ron Silver) e a tragédia na vida de Walker com o misterioso assassinato de sua esposa Melissa (Mia Sara). A decupagem da direção de Peter Hyams (Outland: Comando Titânio, 2010: O Ano em que Faremos Contato), em sua primeira parceria com Van Damme e que renderia ainda dois outros longas, é precisa nesses minutos iniciais, permitindo a elipse que leva o longa ao seu presente, 2004, com Walker como um dos melhores agentes da TEC com fortes laços de amizade com seu diretor, o comandante Eugene Matuzak (Bruce McGill), e iniciando as investigações sobre McComb que usa o dinheiro do passado para financiar sua campanha à presidência dos EUA.

A evolução da história é mais do que previsível, mas previsibilidade nunca é problema se a lógica interna for mantida, e ela é, mesmo que a inserção da personagem de Gloria Reuben, a agente Sarah Fielding, não ganhe o tipo de desenvolvimento e conclusão que merecesse. Todos os bons e velhos tropos da premissa estão presentes, inclusive uma rara representação audiovisual do que aconteceria se dois corpos ocupassem o mesmo espaço simultaneamente. As duas versões de Van Damme – a primeira um almofadinha apaixonado e a segunda um policial veterano topetudo – usam o que o ator tem de melhor, ou seja, seu carisma, seu corpo modelado e, claro, seus espacates clássicos (um deles, o da cozinha de seu apartamento em 2004, é o melhor de sua carreira, diria).

O roteiro de Verheiden ainda tem a vantagem de não investir muito tempo nas “tecnobaboseiras” que dão base à viagem no tempo, preferindo só pontuar aquilo que importa para o filme, o que até pode abrir espaço para alguns questionamentos (como para onde vai a cápsula que permite a viagem), mas que, no final das contas, abre espaço para o drama de Walker ser contado a contento e com uma boa dose de pancadaria variada e bem coreografada. A fotografia noturna do próprio Hyams na ação climática final, que ecoa os eventos do início do filme é surpreendentemente muito boa,  o que inegavelmente ajuda o espectador a comprar o fechamento  narrativo que, como disse, é mais do que esperado.

Viagem no tempo, sozinha, não salva filmes, apenas costuma melhorá-los. O Guardião do Tempo tem base sólida e por isso o truque funciona bem aqui, fazendo deste, sem dúvida alguma, o melhor filme de Jean-Claude Van Damme até este ponto de sua carreira, quiçá o melhor em geral. Longe de ser uma obra-prima, mas também longe de ser apenas uma bobagem memorável, o longa não faz feio perante muitos de seus pares que usam o mesmo artifício sci-fi.

O Guardião do Tempo (Timecop – EUA/Japão – 1994)
Direção: Peter Hyams
Roteiro: Mark Verheiden (baseado em quadrinhos de Mike Richardson e Mark Verheiden)
Elenco: Jean-Claude Van Damme, Mia Sara, Ron Silver, Bruce McGill, Gloria Reuben, Scott Bellis, Jason Schombing, Scott Lawrence, Kenneth Welsh, Brad Loree, Kevin McNulty, Gabrielle Rose, Callum Keith Rennie, Steven Lambert, Richard Faraci, Veena Sood
Duração: 98 min.

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